Passaportização: belo documentário e um pouco da história dos sobrenomes russos

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Sempre me lembro das histórias que me contavam, na Rússia, sobre como era o país na passagem dos séculos 19 para o 20. Cerca de 75% da população não-urbana não possuía nome de família, ou mesmo nome. Usavam algo como apelidos – no sentido brasileiro da palavra.

Tudo começou, mais ou menos, durante o recrutamento para a Primeira Guerra com o Japão, a partir de 1904, e a Primeira Guerra Mundial. Como contam os historiadores, a maioria dos sobrenomes vinha ou do nome do pai – e não estou falando do ‘otchestvo’, ou família – ou de características físicas relevantes, notadas pelos sargentos ou pelos escreventes. Daí tantos ‘Ivanov’, dada a quantidade de filhos de Ivan ou ‘Ryzhov’ (ruivo), ‘Nosov’ (narigudo), ‘Ryabov’ (barrigudo), ‘Belov’ (branco), ‘Tchernov’ (preto), ‘Kudryavsov’ (de cabelo encaracolado), ‘Veselov’ (alegre), ‘Gorbachev’ (corcunda)…

Mas a mais popular ainda era a ‘Smirnov’, que vinha da palavra ‘Smirno’, o comando militar ‘sentido’. Havia ainda a leva de sobrenomes distribuída de acordo com a especialidade militar. Daí tantos ‘Karaulov’ (da guarda), Shtykov (da baioneta), Kapralov (cabo), Sabling (de sabre)…

Ainda assim, foi necessário um enorme esforço nacional, durante um processo chamado ‘passaportização’ (passportizasya em russo), que aconteceu durante a primeira década do regime soviético. Mais de metade da população, enfim, ganhou nome, sobrenome e documentos do estado.

Outro drama foi a gigantesca quantidade de homens e mulheres mortos na União Soviética durante a II Guerra Mundial (ou ‘Grande Guerra Pátria’, como eles chamam por lá). Foram 25 milhões de mortos e um país inteiro que desapareceu do mapa. Para se ter uma ideia, o holocausto judeu vitimou 6 milhões…

Daí, uma infinidade de crianças que perderam os país – e casas e documentos – simplesmente não sabiam seus sobrenomes. Os que ainda viveram o período soviético – ou estudaram um pouco mais da história – certamente viram o documentário ‘Ot vsei dushi’, que contava a história da família ‘Avtostroev’.

Para encerrar esse enorme preâmbulo, lembro que a população de Moscou beira os 10 milhões. Dentre eles, mais de 150 mil levam a família ‘Ivanov’. E quase 4 mil são ‘Ivan Ivanovich Ivanov’. Sendo que ‘Ivanovich’ significa ‘filho de Ivan’ e ‘Ivanov’, a família.

Bom, voltando ao processo chamado ‘passaportização’, ele aconteceu recentemente na Ucrânia, onde mais de 40% da população não-urbana ainda tinha documentos soviéticos, isso mais de 20 anos após o fim do regime. Para as aspirações ucranianas – aliás, sede do próximo torneio europeu de futebol junto com a Polônia – de entrar na União Europeia, isso seria um desastre.

O governo, então, decidiu gastar milhões em um novo processo de passaportização. Para isso, centenas de funcionários do Serviço Social rodavam o país obrigando as pessoas, que viviam nas mais inimagináveis condições, a ter novos documentos.

Sobre essa situação, e como foram as condições do novo processo, um fotógrafo chamado Alexander Chemenev fez esse absolutamente lindo – e triste – mini documentário. O conceito, pra mim, foi absolutamente um choque. O que há por trás dos rostos daqueles idosos que nós vemos naqueles passaportes? E para quê isso?

Assistam. Se puderem, dêem um pulo no site do ‘liberty.su‘. Tem muita coisa bacana por lá. Ah, e se você não entender russo, tem uma tradução rápida logo abaixo do vídeo embedado.

Eu tinha que fazer fotos para documentos, fotos para passaportes novos. Eu recebi essa ordem do Serviço de Assistência Social. Eu ia pelos asilos e casas de retiros, pois estava acontecendo uma nova ‘passaportização’, a troca dos passaportes soviéticos pelos ucranianos. Eu deveria ir as casas das pessoas, mas, em vez de levar comprimidos, remédios, leite e pão gratuitos, levava um ‘fotógrafo de graça’.

E as coisas que eu vi, como vivem essas pessoas, como elas sobrevivem neste século… Eu lembro de uma senhora cega… Eu não sabia que ela era cega, e pedi que ela olhasse para a lente. Aí ela falou ‘Eu não posso ver, será possível, para quê uma idosa cega precisa de passaporte?’

Houve um dia em que eu fotografei 60 pessoas, se eu não me engano. Todos vinham, os velhinhos, fundamentalmente, pessoas idosas, eles vinham em fila, sentavam na mesa, por trás seguravam um fundo branco, os funcionários do serviço social… No dia seguinte, quando eu distribuía as fotos, precisamente não no dia seguinte, mas alguns dias depois, quando eu distribuia as fotos, descobri que um deles havia morrido…

Eu fiquei em choque uma vez que cheguei em uma casa e percebi que uma senhora havia preparado um caixão. Ela vivia em um quarto e o caixão, em outro. Ou seja, ela já estava pronta, a princípio, para sair dali… E teve uma outra vez, de um senhor que tinha mais de 90 anos, também esperava seu fim, colocou um

caixão, cinza, e quando serviu a garrafa da branquinha, colocou de volta no caixão. E quando o caixão ficava cheio de garrafas vazias, ele doava o caixão e dizia ‘É, bom, não chegou a minha hora’. E quando fomos lá fotografá-lo, ele estava com os sobrinhos, bebendo vodka devagarzinho…

Havia pessoas com deficiências mentais, psicológicas, eles não entendiam para que aquilo tudo, para que os sentavam, para que o fundo, para que eles estavam sendo fotografados, ou mesmo se tinham consciencia de qualquer coisa ao seu redor. Havia um senhor de cama, e o levantaram, dois o apoiaram e outros dois seguravam o fundo branco, ou seja, ele também precisava de passaporte…

É, eu fotografei o que eu fotografei, naquela época, e era exatamente assim. Eu seguramente não sei, se alguém ainda está vivo, daqueles que eu fotografei. Ainda que eu deseje muito que estejam, mas eu duvido muito. Foi muito difícil fotografar quando… as pessoas choravam e gritavam ‘nos deixe em paz’ ou ‘não temos muito tempo’…

Eu acho que poderíamos ter passado sem essa ‘passaportização’, sem essa obrigação. Que diferença faz com que passaporte o ser humano deixa esse mundo?

1 COMENTÁRIO

  1. Chorei muito assistindo o video….Muito triste que isso esté acontecendo no meu país…..Só espero que ninguém mais faça isso, que outros países sejan mais inteligentes……

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