Pátria-madrasta

Abandonar o exército é trair a pátria? Esse é o tema mais falado hoje na Rússia. Lógico que a crise não conta (e vale um parêntese: todos os contatos com os amigos de lá hoje em dia começam com ‘a crise atingiu vocês?). Mas a polêmica veio à tona depois que o Ministério da Defesa russo emitiu uma declaração, dando o sargento Alexander Gluhov como “sequestrado” pelas forças georgianas.

E em menos de dois dias, a rádio Echo Moscou conseguiu falar com o suporto prisioneiro. Gluhov, em entrevista, explicou como desertou e se entregou à polícia do país vizinho. “Não cometi traição”, disse. “Não tive qualquer intenção política. Apenas decidi sair por conta da falta de condições do exército. Quero viver aqui em Tbilisi”, finaliza. Gluhov enumera uma série de motivos – que vão desde a falta de banho até perseguições dentro da hierarquia militar – para abandonar a caserna.

Até a mãe do soldado entrou na história. Entrevistada, Dona Galina Gluhova afirmou que seu filho não pensou nisso sozinho. “Isso não parece com ele. E ele até agora não me ligou”, lamenta. As forças de segurança russas, após o ridículo de até dar um ultimato à Geórgia, caso o sargento não fosse devolvido, agora ameaçam o militar de traição à pátria e deserção.

Mas a polêmica vai longe. Há muito tempo, os militares denunciam abusos, falta de condições mínimas, fome, sede. E, muitas vezes, o comando toma dos soldados, cabos e sargentos seus passaportes, para que estes não desertem. De fato, para jovens que vivem na penúria, tanto no exército quanto em suas cidades, ver todo o luxo e conforto de outros países muitas vezes é tentador.

Para surpresa geral, ao ouvir a transmissão da Echo Moscou, muitos espectadores fizeram questão de ligar e dizer que trata-se de um fato corriqueiro: a maioria dizia conhecer pessoas que simplesmente largaram as armas e partiram para outra vida em outro lugar.

E não parou por aí: numa pesquisa da Echo, 92% dos ouvintes deram razão ao sargento que desertou. Perguntados se julgariam o militar, 60% disseram que não.

Para quem tiver estômago, vale conferir as imagens da “dedovschina”, como é chamado o ritual de iniciação de novatos no exército. Espancamentos, humilhações e toda sorte de crueldades que certamente “motivam” quem irá defender a pátria. Não vou postar as imagens no blog, mas quem quiser conferir, está aqui, aqui, aqui e aqui.

PS.: Em meio à polêmica, o governo russo decidiu aumentar o número de cidades que terão paradas militares em comemoração à vitória na II Guerra de 11 para 23. De acordo com o release do Ministério da Defesa russo, o objetivo da medida é “desenvolver a o patriotismo nos jovens, aumentar o prestígio das forças armadas e de seus comandantes e estreitar os laços entre a sociedade e o exército”.

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