Pesquisa: fim do comunismo tem aprovação cada vez menor

Que o comunismo acabou, de facto, todo mundo já sabe. Mas ele se mantém como um vírus incubado dentro de muitas mentes pelo Leste Europeu. Vejo isso nas viagens, nos papos e nos textos. O Pew Research Center publica pesquisas feitas por todo o mundo e, recentemente, divulgou uma especialmente interessante para a gente: 20 anos após a queda do Muro de Berlim, o comunismo já foi superado?

A primeira pesquisa foi feita em 1991, logo após o traumático destroçamento das repúblicas soviéticas e do bloco comunista no Leste Europeu. O primeiro item da enquete é um bocado perturbador. A aprovação para a democracia – que já não era lá muito alta em alguns países – vem caindo sistematicamente de 91 para cá. Porém, nos países ex-comunistas do Centro Europeu, a taxa se mantém estável. Por sua vez, Hungria, Lituânia, Rússia, Bulgária e Ucrânia viram despencar essa aprovação. Destaque para esta última, que vive em meio a turbulências, cujo estado democrático é aprovado por míseros 30% da população, uma queda de 42 pontos em 20 anos.

E a aprovação ao sistema capitalista segue o mesmo caminho. A taxa segue estável nos países da Europa Central e tem queda livre no leste. Uma visão comum, segundo o PEW, é a de que somente a classe política e quem lida com os negócios obtiveram algum benefício com a mudança. O resto da população perdeu garantias e, consequentemente, experimenta uma piora ano após ano na qualidade de vida.

Falando sobre a Rússia, especificamente, um dado nos preocupa: o aumento do sentimento nacionalista e imperialista. Em 91, apenas 26% concordaram com o lema ‘Rússia é para os russos’, enquanto agora, em 2009, esse número dobrou para 54%. Quando perguntados se ‘É uma pena que a União Soviética não exista mais’, 58% concordaram. E, sobre a influência russa, 47% acham ‘normal’ a Rússia ter um império. Em 91, esse número era de 37%. Por outro lado, a visão que os europeus têm da Rússia não anda nada bem: na maioria dos países pesquisados, os russos e sua influência não são nada bem vistos, com destaque para Hungria, Polônia, Lituânia e República Tcheca. Em contrapartida, ucranianos e búlgaros  vêem as ações russas como uma coisa boa.

Um dado positivo é o de que, em praticamente todos os países – salvo a antiga Alemanha Oriental – as pessoas se dizem mais satisfeitas com a vida hoje do que sob o comunismo. Com destaque para Rússia e Polônia, cujos índices subiram 32 e 28 pontos, respectivamente. Mas, quando perguntadas se a vida está melhor ou pior hoje do que sob os regimes totalitários, húngaros, ucranianos e búlgaros se disseram em estado mais precário do que quando conviviam com líderes de partidos comunistas.

Agora, um ponto comum em todos os países é o sentimento de que, sob o capitalismo, a corrupção disparou. Ou melhor, ficou mais evidente e passível de ser denunciada e controlada. Os índices são impressionantes, sempre altíssimos, mostrando que o ranço de fazer tudo por baixo dos panos permaneceu, apesar da suposta ‘glasnost’ que deveria existir.

E, voltando ao tema ‘racismo’, o Leste Europeu prova uma tendência um bocado pan-europeia: a ojeriza a ciganos (ou roma). São um dos dois povos menos apreciados por cinco dos oito países pesquisados. E, surpreendentemente ou não, os poloneses odeiam russos. Talvez o massacre de Katýn não tenha sido esquecido pelas almas polacas. E nem deve ser! Os russos, por sua vez, mantêm seu repúdio aos caucasianos chechenos e georgianos, posição compartilhada pelos vizinhos da Ucrânia.

A íntegra da pesquisa pode ser vista aqui. Confesso que fique alarmado com alguns números – embora a gente saiba que não tem nenhuma novidade aí. Afinal, foram décadas sob um sistema rígido, que não dava muitas liberdades, mas que contemplava a todos com uma certa segurança social. Quem viveu mais tempo sob esse manto, naturalmente, tem dificuldades para entender. E é assim que devemos analisar: tentando entender como era a vida dessas pessoas e como ela mudou. Qualquer outra maneira é etnocentrismo puro e simples: julgar os outros a partir de você.

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