Polônia enlutada pela morte de seu presidente

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Acordei hoje com a trágica notícia de que o presidente polonês Lech Kaczynski, sua esposa Maria, o comandante do exército, o presidente do banco central e outras 90 e tantas pessoas, morreram num trágico acidente de avião na cidade de Smolensk, a oeste de Moscou, na fronteira com a Bielorrússia. Óbvio que o noticiário você acompanha de casa, e que na Polônia não se fala russo, mas, de alguma forma, está tudo tão interligado e fiquei tão chocado com o acidente que tenho que falar sobre o assunto.

A primeira coisa que ouvi, sobre a tragédia, foi minha esposa dizendo que se trata de um erro estratégico, tanta gente importante voar junta. Concordo e acredito que, em situações normais, isso não aconteceria. Mas tratava-se de um voo rápido, de rotina, com um motivo nobre: lembrar a ‘Zbrodnia Katynska’, ou o massacre de Katyn, uma data tão histórica para os poloneses quanto seu retorno à democracia após os anos de chumbo.

Para quem não conhece, em linhas gerais, um número inexato entre 15 e 20 mil poloneses, capturados durante a II Guerra Mundial, foram executados nos arredores da vila de Katyn. De início, culparam os alemães nazistas, mas no fim dos anos de chumbo, descobriu-se que os soviéticos haviam assassinado a todos – incluindo toda a inteligentsia militar do país a época.

Voltando ao acidente, todos se dirigiam para uma importante cerimônia em Katyn, que lembraria os 70 anos e onde haveria uma espécie de ‘pedido de perdão’ da Rússia. Katyn sempre foi uma espinha nas relações diplomáticas, sociais e econômicas entre russos e poloneses.

Kaczynski, quando jovem, atuou num dos filmes nacionais da Polônia, ‘Sobre aqueles dois que roubaram a Lua’, e, depois disso, estudou direito, sempre acompanhado de seu irmão gêmeo, Jaroslaw. Durante os anos do ‘Solidarsnoc’, o movimento ‘Solidariedade’, em Gdansk, se aproximou de Lech Walesa, o heroi da dessovietização do país.

Foi preso algumas vezes, e, quando Walesa se tornou o primeiro presidente do país, em 1989, foi seu conselheiro e ministro da Segurança. Mas o destino quis que Walesa e os irmãos Kaczynski se separassem, durante os ‘anos de choque’, aos quais Walesa submeteu a Polônia no primeiro decênio após o fim do comunismo.

De amigo e admirador, Lech passou a rival e principal opositor de Walesa. Boicotado pelo Solidarnosc, foi eleito parlamentar e iniciou uma cruzada pela liberalização econômica, social e política do país. Praticamente erradicou a corrupção, prendeu mafiosos e isso lhe rendeu uma eleição com 54% dos votos para a presidência do país, em 2005.

É um dos responsáveis diretos pela entrada da Polônia no bloco da União Europeia, com suas medidas econômicas rigídas e dessovietização do estado. Entretanto, filho de pai que lutou nos lendários ‘Armia Krajowa’ (exército de partizans poloneses que lutavam contra o nazismo) e ‘Powstanie Warszawskie’ (Guerrilha que tentou liberar Varsóvia dos nazistas), Kaczynski foi um dos opositores ao neocolonialismo russo na região.

Com isso, as relações com o vizinho foram completamente deterioradas. Kaczynski reconheceu Kosovo, fez guerra de informação contra o gasoduto e acusou a Rússia de ressuscitar o pacto Molotov-Ribbentrop e tentar dividir a Polônia. Durante as guerras contra a Geórgia, abriu o ciberespaço virtual de seu país para que os georgianos tivessem voz e irritava sempre o Kremlin com sua ‘insubordinação’.

Kaczynski era uma figura adorada por lá, raramente criticada, praticamente uma unanimidade. Visitei a Polônia e, embora tenha ido apenas a Varsóvia e Cracóvia, é notório que o país está em outro nível, se comparado aos ex-vizinhos.

Fica a solidariedade a um povo que sofrem horrores em praticamente toda sua história, foi arrasado em todas as guerras – por estar geograficamente localizado entre dois impérios -, mas que mantém a fé, a alegria e uma enorme simpatia.

E se você quiser ver – ou lembrar – como o governo anuncia a morte inesperada de um presidente, clique aqui, no link para a TVP.

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