Por dentro da “Revolução do Twitter”

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“Vivemos como ovelhas, votamos como bodes e protestamos como bois”. Assim define o povo moldovani Sergei Nazária, chefe do Centro Estratégico de Análises e Prognósticos da Moldávia, responsável por um perfil independente e bastante crítico da região. Além de respeitado tanto pelo Ocidente quanto pelo Oriente – leia-se Rússia. Quem achou que esse seria um post tecnológico, vai ficar frustrado… Mas quem acompanha e tem interesse pela política internacional, vai achar interessante.

A tal “Revolução do Twitter” mencionada no título é como ficou conhecida a manifestação nas ruas de Chishinau (Kishnev, em bom russo), capital do pequeno e instável estado da Moldávia (ou Moldova), encravado entre a Romênia, a Ucrânia e a Rússia. O mais pobre da Europa e o 135 país mais pobre do mundo, a ex-república soviética ferveu após as eleições parlamentares que deram vitória aos comunistas – do também comunista Vladimir Voronin, o premiê. A oposição, anticomunista e pró-reunificação com a Romênia, através do Twitter e do Facebook (que agora é um Twitter cover), juntou mais de 10 mil pessoas no centro da capital para pedir recontagem de votos, após denúncias de fraude. Entretanto, mesmo com a ratificação de que o pleito foi legítimo pela UE e a OSCE, nada demoveu os manifestantes.

Entretanto, a coisa fugiu do controle e a manifestação acabou virando uma verdadeira guerra, que terminou com a destruição da sede do parlamento e do palácio presidencial, 200 pessoas presas e incontáveis feridos. Há também denúncias de execuções de civis, abusos do governo, mas também de que policiais teriam sido sequestrados e mortos. Após o caos, o Chishinau declarou guerra aos romenos, a quem acusam de ter orquestrado o “golpe”. O embaixador romeno foi expulso, as fronteiras, fechadas e uma crise diplomática foi instaurada. A Rússia, que historicamente apoia a Moldávia, declarou preocupação s “interferências externas no país”.

Sergei Nazária, o expert em política regional e moldovani, respondeu a muitas perguntas de internautas em um chat promovido hoje pelo site “Lenta.ru”. E traçou um panorama interessante, complexo e sombrio para o país. Selecionei as principais perguntas – e respostas. Parece longo, mas é fácil e rápido de ler. (Mais fotos da “Revolução do Twitter lá embaixo, no slideshow. Mas o mosaico você pode ver aqui.)

1 – A Moldávia possui maioria “étnica” de romenos – que estariam em conjunção com as pretensões Romenas de reunificação e ingresso na UE – de forma que a oposição jamais poderia vencer as eleições.

    Mito: Entre os moldávios (ou moldovanis) não há “identidade romena”. Isso é uma ideologia criada por Antonescu na IIa Guerra Mundial, com o objetivo de purificar a raça. De acordo com pesquisas internacionais, 98% da população da Moldávia não se consideram romenos. Há uma língua “romani”, comum aos dois povos. Daí se pode afirmar:  “Uma língua, dois povos”. Exatamente como alemães/austríacos/luxemburgos/suíços, sérvios/croatas, persas/tadjiques, suecos/norueguees/dinamarqueses e por aí vai. Muitos confundem o sentido das palavras “povos” e “étnias”. São dois povos, romenos e moldovanis, muito próximos. Durante 22 anos (1918-1940) o poder romeno que governou a Moldávia deixou isso bem claro para os moldovanis, que eles não são romenos.

2 – Vladimir Voronin é contra a entrada na UE e a favor da reaproximação com a Rússia.

    Mito: A entrada da Moldávia na UE não depende de Voronin nem de quaisquer moldovanis, onde quer que eles vivam. A república da Moldávia simplesmente não está pronta para isso. Infelizmente, nós não cumprimos nenhuma das 31 exigências do Trato de Copenhagen. Em um cenário ideal, levaria ao menos 12 anos para que possamos estar prontos para isso e devemos realizar mudanças profundas nas esferas social-político-econômica do país e fazer nosso PIB crescer. Quaisquer menções à entrada da Moldávia na UE, na imprensa ou na política, não passam de demagogia e ninguém as deve levar a sério.

3 – Há liberdade de imprensa na Moldávia?
    
    Mito e verdade: A imprensa e os canais são livres de censura deste e do governo anterior. O problema é que todos são controlados pelo capital romeno, de forma que, faça o que fizer, o presidente será analisado e criticado caso aja contra os interesses da OTAN, da Romênia ou da UE ou caso aja a favor da Rússia. Por outro lado, a imprensa estatal abusa do “tudo está bem”. Lembra muito aquela soviética, dos tempos de Brejnev. Não criticam e não querem saber de nada: apenas alienam.

4 – As denúncias de que muitos moldovanis que estavam fora do país e inclusive mortos votaram motivou muito os protestos. Isso é verdade?

    Verdade: Muitos moldovanis que estavam fora do país realmente votaram. Acontece que na RM (república da Moldávia) muitos trabalham na Rússia, na Romênia ou na Ucrânia. Muitos, de forma ilegal. De forma que entram e saem do país sem nenhum controle. Por outro lado, a RM possui representação diplomática em pouquíssimos países. Assim, um percentual ainda maior de cidadãos ficou sem direito a voto. E também há que se reconhecer: esses moldávios que trabalham fora do país representam 1/3 do PIB atual. Abrir mão de sua representatividade, de qualquer forma que seja, seria uma catástrofe.

5 – Os comunistas chegaram ao poder devido aos poucos avanços sociais do governo anterior e não devido ao golpe “russo”.

    Verdade: Um professor de uma universidade estatal, com doutorado, ganha 100 euros por mês. E o salário mínimo oficial é de 170! Na TV, todos viam o “papo com o presidente” e ficavam por dentro de todo o “colossal trabalho de Voronin. Ora, se os funcionários públicos estão insatisfeitos, em quem vão votar? Na direita, alinhada com a Romênia, contra quem eles lutaram por toda a vida? Ou nos comunistas, baseados na ideologia do “antes era melhor”? Basta raciocinar. Para eles, se há uma esperança, ela está no passado. Daí a vitória dos comunistas nas urnas. Foi a vitória do “menos mal”. Afinal, 75% dos moldovanis apóiam a Rússia. De uma forma grosseira, estão com o estômago no ocidente e a alma na Rússia.

6 – A Rússia mantém seu apoio a Voronin e parou até a Duma para expressar apoio ao governo e condenar as manifestações. Qual o interesse real russo na Moldávia?

    De início, a Rússia não olhou para a geopolítica, geoestratégia, política de segurança, interesses estatais… Como a Rússia não iria se manifestar, se a UE e até os EUA se manifestaram? Como, se nos últimos 300 anos, eles sempre se fizeram presentes em nosso estado, iriam mudar isso agora? Num segundo momento, todos têm interesses em todos os lugares. Até os EUA, que estão muito longe, têm interesses. Não há inocentes.

7 – Caso os liberais consigam subir ao poder, há ameaça de retaliação para os cidadãos russos e seus parentes.

    Há alguma verdade. Mas de uma forma mais sutil. Caso os liberais, apoiados pela Romênia, subam ao poder, mesmo os moldovanis correm risco, já que é possível que haja uma “romanização”. Nossos vizinhos defendem seus interesses e o fazem muito bem. E nós devemos defender o nosso. Infelizmente, nos últimos 18 anos, não obtivemos sucesso.

8 – O que é esse tão falado conceito de “romanização”?

    Nos últimos 18 anos, o governo fez de tudo para desacreditar a Moldávia. Muitas vezes até sem a intenção. Muitos dos mais velhos e boa parte dos jovens são contra esse unionismo, mas já vemos – como vimos nos violentos protestos – que a idéia da “Grande Romênia” ganha adeptos dia após dia. E se, nos próximos anos, não tivermos competência para melhorar a situação, a reunião será inevitável. E graças aos atos intempestivos e duvidosos de Voronin, sobretudo o de se cercar de incompetentes e idiotas, ele está recebendo o descrédito e os protestos. Mesmo errado, aposto que ele não tem a intenção de receber o que está recebendo. Nem czar Nikolai II nem o outro Nikolai – o Ceaucescu – quiseram receber o que receberam…

9 – É possível uma reunião com a Rússia.

    Puro mito: O sonho da maioria dos moldovanis é integrar a UE, já que isso significa desenvolvimento e prosperidade. Infelizmente, muitos vêem na Romênia a chance de se aproximar do bloco. Mas, como disse acima, a RM está muito mais próxima da Rússia, pela alma, do que do Ocidente, através da Romênia. Caso Moscou conduzisse uma política mais racional de trato com os países da CEI (Comunidade dos Estados Independentes), até poderíamos pensar numa aproximação mais efetiva. Mas isso é irreal.

10 – O governo foi suave com os protestos, de forma a criminalizar os anticomunistas e mostrar como eles são manipulados e desacredita-los.

    É uma estratégia válida, embora inverossímil. O governo nunca quis incentivar a destruição do parlamento e do palácio presidencial. Mas há, sempre, outras opções que não o confronto e o derramamento de sangue. Mas, se elas não funcionarem, “massagem nas costas”! O que aconteceria se uma multidão se aproximasse para destruir o Capitólio em Washington ou do Palácio Eliseu, na França? Mais negociações? Além do mais, é obrigação descobrir agora quem está ligado a quem e punir os culpados. Do contrário, não só não seremos um Estado democrático, como realmente não seremos um “estado”, em letra minúscula. Nós não vivemos mais em 1937.

11 – Afinal, de que lado o Sr. está?

    Estou do lado da democracia. Sou a favor do povo nas ruas, de protestos, de diálogo. Sou contra arruaça e violência. Afinal, de que são culpadas as paredes, cadeiras e computadores?

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