Primeiro álbum solo do líder do DDT

0
117
views

Baixei esses dias o disco solo de Yuri Schevchuk, líder, vocalista e multinstrumentista da legendária banda “DDT”. Fiquei encantado pela força, melodia e incríveis letras do veterano compositor. Há tempos planejo um post sobre o “DDT” aqui no blog, mas é difícil contar a história deles. Foi a primeira banda que ouvi na língua russa, deles foi a primeira música que traduzi, a primeira que cantei junto e a primeira que toquei junto. Em 2002, por muito, muito pouco não os conheci, em Rostov-na-Donu. Enfim, é papo de fã mesmo. Perdido pelo mundo, mas fã mesmo. Ainda vou achar um jeito de contar a história deles aqui. Basta dizer que é uma lenda, algo como os Stones, os Beatles ou uma religião, um culto sem a cegueira…

Enfim, vou voltar ao disco solo de Schevchuk. Chamado “L’Echoppe – Laryok” (quiosque, em francês), é basicamente um experimento do artista em torno da obra de seu grupo, que faz 30 anos em 2010. Paris foi escolhida por ser a capital do romance e cidade favorita de Schevchuk – que fora delicadamente retratada no álbum. Para preparar os arranjos do disco, o artista convocou ninguém menos que Konstantin Kazanski, búlgaro-francês responsável pelos legendários discos de outro monstro da música popular russa, Vladimir Vysotskyi.

E o processo de criação do álbum foi simples. No final de 2007, Schevchuk deixou com Kazanski toda a obra do “DDT”, para que o parisiense escolhesse e rearranjasse as músicas do repertório. Missão cumprida, no final de 2008 o russo gravou todas as vozes e voilá! Estava pronto “L’Echoppe”. Um disco que vai do jazz à bossa nova, do gênero russo “Shanson” até a música cigana, e conta sempre com a voz crua e vibrante de Schevchuk, entoando suas poesias impressionantemente fortes.

Os destaques vão para a impactante “Kogda zakonchitsa neft” (quando o petróleo acabar), que, num ritmo meio “big band”, diz “quando o petróleo acabar/nosso presidente morrerá/e o mundo vai ficar mais livre”, a eterna “Paris” – “mais três dias, só mais três dias, Paris, e eu não vou querer voltar para casa”. Também gostei das novas versóes de “Osen’. Mertvye dozhdi” (outono: chuvas mortas), “Gospod’ nas uvazhaet” (O Senhor nos respeita) e “Nebo na zemle” (Céu na terra).

Para ambientar o disco, Yurii Schevchuk apelou para a referência que mais evoca cultura na Rússia: a França. Lembro que, por muito pouco, a língua russa não foi extinta poucos séculos atrás, para dar lugar ao francês, falado pela então nobreza do país. Mas, para dar sua “cara” ao trabalho, ele apela para uma referência pouco chique: um quiosque, echoppe, laryok em russo, que é encontrado pelas ruas de qualquer cidade russa, uma instituição popular por lá. Schevchuk veio de uma cidade no meio do nada – Yagodnoe -, que mal tem prédios, e sabe muito quem é. Ele apela para o conceito francófono, mas não se restringe ao “l’amour”. Apela para a força, para o saudosismo e para a crítica política (o artista está envolvido sempre em projetos e protestos antiguerra e antiPutin), sem deixar a alma russa de lado.

É um álbum cool, totalmente sem pretensões, talvez mais para realizar um sonho de Schevchuk. Mas já virou cult por lá – tanto “Kogda zakonchitsa” quando “Paris” já tocam sem parar nas rádios – e objeto de muita discussão. As grandes e pesadas críticas ao disco estão no fato de o repertório ter sido escolhido por um francês que, por não falar russo, não entende a obra de Schevchuk. Dizem que as músicas teriam referências e, quando jogadas aleatoriamente umas com as outras, soa estranho e sem a continuidade e solidez dos discos do “DDT”. É uma crítica que procede, sem dúvida. Kazanski é famoso por ser meio “déspota” no estúdio e vetou até mesmo que o russo tocasse seu tradicional violãozinho. Soa estranho, sim, eventualmente. Mas o objetivo é curtir a voz de Schevchuk de uma forma mais lenta, suave e absolutamente descompromissada.

Ah, e diz o release que brasileiros participaram do disco, dando um jeitão bossa-nova a algumas faixas. Estou tentando descobrir quem são…

Pra quem está estudando russo ou já fala, aqui está a letra de “Paris”.

Quem quiser curtir, escutar ou conhecer o disco solo de Yuri Schevchuk, pode baixar aqui.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here