Professor comenta a ‘primavera russa’ no ‘Globo’

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Tive mais uma grata surpresa no ‘Globo’ de hoje, com um sóbrio artigo do professor Daniel Aarão Reis, do departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Sei que havia prometido dar um tempo no tema política – afinal, as eleições passaram, Pútin ganhou, a oposição segue desmobilizada e os protestos minguaram -, mas é raro ver uma opinião serena sobre os protestos, que o ocidente insiste em magnificar.

Sim, Daniel Aarão prova com dados que o panorama para Pútin não é favorável. Numa curva de patrimônio político, o atual premiê está em franco declínio. E a descendente tende a acentuar-se, conforme o russo médio voltar a se interessar pela política, já que sobreviver e renascer das cinzas não se faz mais necessário.

A questão das fraudes, bom, sim, eu sempre falei aqui que fraudes aconteceram em larga escala por toda a Rússia, mas, como todos os órgãos, independentes ou não, estatais ou não, acho muito difícil que Pútin não viesse a ganhar no primeiro turno. O que determinou o resultado da eleição não foi a falsificação, mas sim o amplo e irrestrito domínio da mídia que o Kremlin tem, somado à ausência de uma oposição significativa – ainda que o segundo possa ser uma consequência do primeiro.

(Exponho aqui alguns de meus dados: o Vsyom, um dos principais institutos de pesquisa da Rússia, avalia que as eleições foram ilegítimas para 14% da população; o conceituado blogueiro Sean Guillory fez um gráfico com a participação popular nas manifestações por eleições justas, e o resultado está aqui, o absurdo declínio e enfraquecimento do movimento; mesmo agências ocidentais, como a Reuters, tratam o movimento como enfraquecido, como pode ser visto aqui; enquanto isso, a oposição começa a se unir em um ‘ambicioso partido’, comandada por…Dmitri Demushkin, famoso líder do movimento radical e facista ‘russkie’); por fim, mais um excelente blogueiro, Anatoli Karlin, faz um levantamento de quem defende qual porcentual de fraude e com que metodologia. Karlin também prova, por A + B, que é virtualmente impossível um número maior que 6% de falsificação nas eleições russas, pondo fim a falácias).

Enfim, vale realmente ler o artigo de Daniel Aarão e, se puderem, assistirem a esse vídeo, no qual ele fala sobre Pútin para o Jornal das Dez, da Globo News. Ao longo destes muitos anos estudando a Rússia e o leste europeu, tive a oportunidade de assistir a inúmeras de suas palestras. Todas com a maior serenidade e coerência. Muitas vezes a gente pode até discordar do que é exposto, mas o professor está sempre muito bem fundamentado. É sempre um prazer vê-lo ou lê-lo.

A primavera russa

DANIEL AARÃO REIS

Os resultados das recentes eleições realizadas na Rússia confirmaram a força de Vladimir Putin e do partido com ele identificado, o Rússia Unida. Putin elegeu-se duas vezes, em 2000 e 2004. Em 2008, indicou um fiel amigo, D. Medvedev, também eleito. Depois, fez aprovar uma emenda constitucional, ampliando o mandato presidencial de quatro para seis anos. E elegeu-se agora. Como tem direito à reeleição, poderá ficar no poder, em tese, até 2024. Enquanto isto, o Rússia Unida, fundado em 2001, foi o mais votado nas eleições de fins do ano passado.

Então, continua tudo como dantes no quartel d’Abrantes? Nem tudo. Como gostava de dizer o Barão de Itararé, há “algo no ar além dos aviões de carreira”. Uma análise acurada dos últimos resultados evidencia alguns sinais inquietantes para os homens do poder.

Desde os anos 1990, quase um terço dos eleitores não comparece, evidenciando desinteresse ou contrariedade. Por outro lado, as votações de Putin estão crescendo como rabo de cavalo: para baixo. Proporcionalmente, ele registrou bons resultados, sem dúvida: em 2000, 52,9% dos votos, e 71,3% em 2004. Quatro anos depois, fez o successor com 70,3%. E agora, em 2012, cravou 63%. Mas as proporções podem enganar. Se o foco desloca-se para uma análise quantitativa, em 2004 Putin ganhou 49,5 milhões de votos. Agora, apesar do crescimento do eleitorado (mais 2 milhões), ele teve 45,6 milhões de sufrágios num total de quase 110 milhões de votantes, cerca de 40% do eleitorado. Como se não bastasse, nas eleições parlamentares de dezembro do ano passado, o Rússia Unida não chegou a 50% dos votos válidos. Ora, como pouco menos de 60% de eleitores inscritos foram às urnas, o partido, de fato, não teve nem um terço dos votos: 32,3 milhões de sufrágios num total de quase 110 milhões de votantes.

Mais importante do que os frios dados é observar como as eleições de dezembro, denunciadas como fraudulentas, suscitaram exaltados protestos. Logo depois de proclamados os resultados, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas exigindo um novo pleito. Inspirando-se nos movimentos dos indignados europeus e dos ocupantes de Wall Street, questionam não apenas Putin, mas o conjunto da ordem política.

Em Moscou e São Petersburgo surgiram promissores movimentos sociais apoiados por ONGs, como Golos (Voz), Vibori (Opção) e Gradjanski Control (Controle Cidadão); por formações politicas alternativas, como a Frente de Esquerda, liderada por Serguei Udaltsov e por internautas, jornalistas e blogueiros, como Alexei Navalny, além de inúmeros artistas alternativos — escritores, bandas de música, performers e teatrólogos.

O governo sentiu o golpe e propôs reformas significativas: o restabelecimento de eleições diretas para os governos provinciais, abolidas em 2004, a obrigação de o Parlamento discutir propostas assinadas por mais de cem mil cidadãos, a diminuição drástica das restrições para o registro de partidos políticos e candidatos. Para evidenciar a preocupação em controlar novas fraudes, Putin ordenou a instalação de duas câmeras de filmar em cada uma das cerca de 90 mil seções eleitorais espalhadas pelo país.

Não bastou. Segundo os observadores internacionais e as ONGs que monitoraram o processo, a votação desenrolou-se corretamente, mas o mesmo não se pode dizer da contagem dos votos e das tabulações. Em um terço de seções eleitorais, foram registradas manipulações e fraudes, como o chamado “voto carrossel” (pessoas que votam em diferentes lugares). Por outro lado, ao longo da campanha eleitoral, houve consenso entre os observadores quanto ao uso e abuso das agências estatais e da mídia, estatal e privada, a favor de V. Putin, sem falar nas dificuldades quase insuperáveis de fiscalizar o pleito em regiões como o Cáucaso, onde se mantêm proporções soviéticas — quase 100% — de comparecimento às urnas e votações favoráveis aos candidatos oficiais.

Resultado: novas passeatas, não obstante a violenta ação policial e centenas de detenções. Os organizadores dos protestos convocam agora uma grande manifestação para o 1, de maio próximo, antes da posse de Putin, no sentido de manter a pressão social e política sobre o governo.

Uma primavera russa?

As dificuldades não serão pequenas. Durante anos, Putin encarnou a redescoberta do orgulho russo, a prosperidade econômica, a estabilidade política e a segurança, mesmo que à custa do silenciamento, quando não da repressão, de todo o tipo de oposição. Não à-toa dispõe ainda de importantes apoios, traduzidos em votações e manifestações públicas que também têm se realizado.

Quando aos movimentos de protesto, precisam urgentemente formular programas positivos e alternativos para ganharem credibilidade e se tornarem atores efetivos do jogo politico.

Ainda é cedo para formular prognósticos sobre a vitalidade da primavera russa. Mas ela já é uma realidade e mais vale acompanhar suas lutas do que se curvar aos batidos estereótipos, frutos da preguiça intelectual, de que os russos são sempre passivos e apáticos. A verdade é que se evidenciou uma faixa importante da sociedade que não mais pretende submeter-se às astúcias e artimanhas do poder nem escolher candidatos, como disse uma desencantada eleitora, como quem escolhe um banheiro menos sujo numa estação lotada.

DANIEL AARÃO REIS é professor de História Contemporânea da UFF. E-mail: aaraoreis.daniel@gmail.com

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