Pussy Riot nas manchetes dos jornais russos

No primeiro dia após o julgamento do Pussy Riot, as meninas ocuparam praticamente todas as capas de jornais aqui na Rússia. Lembro que, tradicionalmente, os jornais impressos não circulam aos domingos. Logo, a condenação rendeu muito, mas muito assunto.

Aliás, só para contextualizar, eu estou temporariamente aqui em Moscou. Por isso deu para ver que, aqui, ao menos, não é esse barulho todo. E, sempre que eu pergunto, a resposta é algo do tipo “elas tiveram o que mereceram” ou “é o que ganham por profanar um lugar sagrado”.

Segundo pesquisa do Centro de Análises Yuri Levada, publicada na última sexta-feira, um em cada três russos acredita que a Justiça foi imparcial ao julgar as meninas. Mas isso não surpreende, se levarmos em consideração que 40% dos russos não dá ao caso atenção especial e que 25% não acompanham de forma alguma. E, quando perguntados o motivo pelo qual as jovens foram condenadas, 36% dos russos responderam “por própria culpa”. Ou seja, na Rússia, ao menos, o Pussy Riot não conta com o apoio popular.

E, de fato, das pessoas com quem conversei aqui, poucas efetivamente sabiam do que se tratava. E, mesmo essas, eram notadamente contra a ação da banda punk. A opinião é que elas perderam a razão ao invadir a Catedral.

O fato é que elas pegaram dois anos de cadeia – e deram até sorte, já que poderiam ficar até 7 anos atrás das grades.

Ainda assim, no meio de toda a ignorância popular com relação ao caso, a imprensa russa faz uma força para surfar na onda de Madona, Red Hot Chilli Peppers e outros que aderiram à campanha “Free Pussy Riot”.

O sério Vedomosti dá a elas o espaço mais nobre, dizendo que a pena foi aquela não pedida nas orações. Outro jornal ainda mais elitizado – é publicado em inglês e voltado para os expats – o The Moscow Times dedica praticamente uma edição inteira ao caso, com pauladas no governo para todo lado. “Veredito coloca Putin sobre pressão” e “Pussy Riot saúda a sentença de dois anos com um sorriso” são os destaques do periódico.

Aliás, o The Moscow Times conta ainda com a excelente coluna do tradicional repórter de oposição Oleg Kashin (aquele que foi espacado misteriosamente uns anos atrás, lembram?). Kashin escreve para o Kommersant, mas dá expediente no TMT. Sua coluna de hoje era “Insultado, Pútin faz milhões de nós sentirem sua dor”. Um pouco dramático, imagino, mas muito bem fundamentada. Vale muito a pena ler.

Já o “alemão” RBK daily, também da elite, mancheta o “Precedente em balaclavas”, destacando que o veredito rachou a sociedade.

Por sua vez, o extremamente popular Moskovskii Komsomolets, o MK, já dá um passo à frente e lança “O que espera as Pussy Riot na cadeia”. Sim, com direito a explicações fisiológicas dos mecanismos que transformam belas moças em poderosos caminhoneiros e uma ironia nada refinada ao falar da alimentação e das condições de vida nas “colônias” russas. Com destaque para a coluna do jornalista alemão Stefan Sholl, que fala “Pussy Riot é uma vergonha – mas a vergonha do Estado é ainda maior”. E termina com chave de ouro, ironizando as militantes do Femen, na Ucrânia, que estão sendo processadas por cortarem uma cruz de madeira. “Será que a Madonna também vai interceder por elas?”

E esse é o tom da coberuta do Pussy Riot na Rússia. Enquanto a mídia orientada para a classe alta e o ocidente detona o governo, na maior parte do tempo não se vê uma grande cobertura do assunto para o público em geral.

Aliás, o colunista alemão do MK, e outros jornais, também lembram uma coisa: a maioria dos músicos russos ou não se manifestou sobre o caso ou foi realmente a favor de uma punição para as meninas. Sholl lembra que, desde Púshkin até nomes como Sergei Shnur (do grupo Leningrad) e Yuri Schevchuk, do DDT, os russos sabem protestar com força, arte e estilo. Uma ironia no ar.

PS.: Recomendo também a leitura do texto da Gazeta Russa “Caso Pussy Riot mobiliza autoridades ocidentais – Porta-voz da diplomacia russa contesta críticas, alegando que legislação ocidental também estabelece penas para vandalismo em espaços de culto”

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Uma resposta para “Pussy Riot nas manchetes dos jornais russos”

  1. Fernanda I. disse:

    Fabrício, não consegui inscrever o Falando Russo no meu google reader. Não tem feed?

    Obrigada,

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