Quase tudo o que você queria saber sobre as eleições na Rússia…

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Na conversa de ontem aqui no blog, essencialmente, tentei mostrar que existe sim, um outro lado nas eleições russas. Pútin não é Kadafi, não é Assad, não é Ben Ali, não é Hu Jintao nem Chavez. As eleições foram sim, fraudadas. Votos sumiram e apareceram, conforme a OSCE, mais do que obviamente, atestou. Mas isso tudo é um enorme carnaval para esconder dois fatos: Pútin venceria esse pleito com um pé nas costas, mesmo usando as famosas urnas antifraude brasileiras, pois é tão popular quanto o Cheburashka; a Rússia nunca se preocupou, até dezembro de 2011, em formar uma oposição.

É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação

Vamos fazer uma viagem rápida no tempo: TODAS as eleições russas, desde o fim da URSS, foram fraudadas. Mas com um método tão tosco, tão rudimentar, que é difícil crer que, estatisticamente, isso tenha feito a diferença. Pútin foi inventado por Boris Yeltzin em 1997, empossado premiê em 1999 e catapultado à presidência em 2000, primeiro, interinamente, depois, via pleito realizado em março. Nela, Pútin foi eleito no primeiro turno (53% dos votos) com o comunista Gennady Zyuganov (29%) em segundo lugar. E a OSCE declarou que a votação foi potencialmente fraudada.

Em 2004, Pútin saiu candidato à reeleição. Com seu aparato de comunicação já praticamente estabelecido – o governo controla praticamente todos os canais de TV e rádio -, Pútin novamente não teve dificultades em vencer no primeiro turno, com 71,9% dos votos, contra 13,8% de Nicolai Kharitonov, do partido comunista. Novamente, a OSCE descreveu o pleito como “não refletindo adequadamente os princípios necessários para uma saudável eleição democrática”.

Como não conseguiu, de forma nenhuma – e não tentou muito severamente, após pesadas críticas – uma brecha para tentar um terceiro mandato, usou o jogo democrático a seu favor. Como um time que precisa perder uma partida para não enfrentar um adversário mais difícil na próxima fase, simplesmente escolheu um afilhado político sem muito brilho e o fez presidente (alguma semelhança com o Brasil?). Dmitri Medvedev foi eleito, adivinhe… no primeiro turno com vastos 71,2% dos votos. Em segundo lugar, adivinhe de novo… o comunista Gennady Zyuganov, com 18% dos votos. E antes, durante e depois das eleições, a OSCE adivinhe… ah, errou. Desta vez, a organização sequer acompanhou o pleito, após ter sua movimentação restrita pelo Kremlin. No entanto, a PACE estava lá e, adivinhe… duvidou da legitimidade da votação. E o primeiro ato de Medvedev foi empossar Pútin como premiê superpoderoso. Mais 4 anos.

Agora, em 2012, como a gente bem sabe, Pútin “está” eleito com 63% dos votos, contra 18% de… Gennady Zyuganov, o eterno vice-campeão (e aí deixo as piadinhas com vocês). E a OSCE estava lá para condenar a legitimidade do pleito. Mas, dessa vez, o ex-futuro-presidente conseguiu manobrar com antecedência. O mandato presidencial agora é de seis anos permitindo uma reeleição. Ou seja, ele bem pode ficar mais 12 anos no poder, totalizando incríveis 24 à frente do maior país do mundo. Para se ter uma ideia, Stálin foi, se não me engano, chefe supremo da Rússia (e da União Soviética), por 26 anos. E nunca se preocupou em fazer uma eleição para legitimar isso.

Mas, ao contrário dos ditadores que a gente conhece, Pútin é engenhoso, competente e tem o destino a seu lado. Como eu disse no post anterior, ele deu a sorte de surfar na onda da alta do petróleo, o que garantiu uma riqueza inesperada ao país e uma explosão do PIB, mesmo enfrentando duas grandes crises. Como ex-chefe da FSB e agente de carreira da extinta KGB, ele tem praticamente todos os velhos políticos e oligarcas na mão. Assim como a gente sabe que TODOS enriqueceram absurdamente através de desvio de verbas e corrupção nas privatizações, ele também sabe. Mas ele pode provar. Nós, não.

Outra ação eficaz de Pútin, que a oposição não teve força política o suficiente para dobrar, é o simples “boicote”. Pela lei russa, você precisa de um certo número de pessoas para abrir um partido, assim como para ser candidato. Por isso, nomes como Garry Kasparov nunca conseguiram sequer se candidatar (em 2007, ele simplesmente não conseguia cumprir um requisito da lei: alugar uma sala em Moscou. E por que será que ninguém queria alugar uma sala para Kasparov?). Não que isso tivesse feito diferença. Afinal, quem além da elite conhece Garry Kasparov?

O fato é, ao longo de todos esses anos, Pútin enfrentou mais de uma dúzia de rivais. Mas jamais estes tiveram a perspicácia de criar uma coalizão para tentar mudar algo. Isso é compreensível. Tratava-se de outra geração – e eu vivo batendo nessa tecla -, de políticos forjados na União Soviética, que não tinham a menor vocação para o jogo democrático. A trupe de derrotados nunca conseguiu fazer alianças, concessões, negociar, articular e ceder. Eles iam e vinham, se submetiam às pressões do Kremlin e, como bons soviéticos, resignavam-se com o papel que lhes era cabido.


Russia Today – a CNN do Kremlin – analisa os opositores. E até que foram bem objetivos para um canal estatal.

E o que mudou em 2011? Quando Pútin anunciou que iria concorrer às eleições, a nova geração de novos russos – criada à base de compras em Miami, NY, Paris e Milão e educada na Alemanha e Inglaterra – associou isso a um comportamento ditaduresco. E é, claro. Mas, em vez de articular, criar uma coalizão, o movimento ficou restrito a circulos intelectuais da internet, bem no estilo russo do século 18, quando Púshkin e cia. tramavam contra o tzar em meio a recitais de poesia em salões aristocratas. A oposição ficou tuitando, vendo no que ia dar.

A deixa foi o pleito de 4 de dezembro, quando foi formada a Duma que iria governar com Pútin. Ora, o mesmo carrossel, os mesmos esquemas, a mesma ladainha de sempre… Não era surpresa. Mas agora, todo aquele circo mambembe e tosco chocou a nova geração, que tinha a ilusão de viver em um país democrático. Muitos deles, inclusive, votavam pela primeira vez. E isso foi explorado pelos partidários de Pútin. Gente entre 25-30 anos, que estava no exterior nas eleições anteriores ou era simplesmente playboy-yuppie demais para ligar para política antes. Mas, sobretudo, gente que não viveu nem o ouro nem o couro da URSS. Essa geração plantou, em dezembro, uma semente que NÃO vai germinar agora. Talvez dê frutos em 2018, talvez não. Mas agora nasce um movimento com a alma política ocidental.

Apelou, perdeu

Entretanto, há que se observar uma coisa: protestar, tudo bem. Mas querer melar o jogo democrático é fatal. Os protestos de hoje em Moscou tiram a razão da nova oposição (nota: 8 mil opositores foram protestar contra as eleições no centro de Moscou. 15 mil estiveram lá para apoiar o atual premiê). Se Pútin estiver minimamente preocupado com isso, estará feliz. Naválny e cia. estão fazendo seu jogo. Ao aparecerem tumultuando o centro do coração da Rússia, vão ser presos, claro. Afinal, para protestar na Rússia você precisa de uma autorização, que não vai ser dada. E, se forem presos, vão ser filmados. Por mais que tenham twitter, facebook e vkontakte, o que vai prevalecer é o jornal das 20h mostrando os baderneiros, vendidos aos EUA, tentando dar um golpe na democracia e derrubar o homem mais popular do país. Aquele que fez até os operários poderem tirar férias na Tailândia e na Turquia…

O resultado? Todo mundo em cana. Naválny foi preso por estar parado, Udaltsov, Yashin, foi deputado da Duma, candidato, filho de político… Todo mundo preso, fichado, pagando multa, como manda o figurino. Um repórter da Ekho Moscou foi espancado, outros tantos apanharam e foram ameaçados. Aliás, em qual outro país o líder da oposição (=Naválny) tira uma foto de toda a trupe dentro do camburão, seguindo para a DP, com seu iPhone, e posta no instagram? É, essa é a Rússia!

O melhor sobre o dia de protestos eu deixei para o final. É um artigo do Foreign Policy, da Julia Ioffe, que narra a tensão durante a manifestação contra as eleições e tem esse título: ‘This Is How You Elect a Fucking President?’ Imperdível!

Silêncio dos ocidentes

Pútin, em seu famoso discurso para 130 mil pessoas no estádio Luzhniki, disse “Peço a todos que não olhem para o estrangeiro, não andem às escondidas e não traiam a pátria, mas estejam juntos conosco”. A cutucada, direcionada ao ocidente surtiu efeito: hoje, nenhum líder mundial apareceu para dar as tradicionais congratulações ao recém-eleito presidente: todos foram reticentes e cheios de ressalvas. Quer dizer, Hugo Chavez, Ahmadinejad, Hu Jintao e Kim Il Sung já ligaram.

Guerra dos artigos

Hoje, li muitos e muitos artigos, de blogueiros e jornais conceituados. Para exemplificar os dois lados, cito aqui Andy Young, do Siberian Light, que cobre a Rússia desde 2004, e tem uma opinião absolutamente sensata. Ele diz: “Ônibus de carrosseis não são suficientes para mudar uma eleição / Quando o melhor candidato que a oposição pode arranjar é Gennady Zyuganov…”. Leia aqui.

Por outro lado, Jackson Diehl, outro expert em Rússia, do Washington Post, decreta o “Fim do Putinismo”. Em uma comparação com a China (!?!), Diehl diz que “a classe média emergente de China e Rússia não vai tolerar ser excluída da tomada de decisões políticas por mais 10 anos”. Leia aqui, faça sua reflexão e diga: a Rússia vai mudar da noite para o dia, com uma oposição que tem apenas 3 meses de vida?

Eleições: o show de Truman, o show da vida

O fato é que as eleições viraram um enorme Big Brother – ou ‘Dom 2’, como o reality acabou se popularizando por lá. Sob o custo de US$ 4 milhões, todas as seções eleitorais foram filmadas e isso foi exibido via webcams para quem quisesse ver. Teve festa, xadrez, ginástica, baralho, zoeira, soneca, moonwalk, beijo… Dá uma olhada no vídeo da RT.

Aham, além de virar um BBRússia para fanfarrões dos quatro cantos do país, as eleições também inspiraram bolões virtuais ou não. O objetivo? Acertar exatamente a porcentagem de Pútin e de seus pobres opositores. O mais popular, o bolão do Kireev, premia até o “pior prognozista” com um selo, que pode ser orgulhosamente ostentado em seu blog. Eu até fiz minha fezinha, mas acabei no bolo da mediocridade. Não me peçam dicas para a Mega Sena…

O prisioneiro do Cáucaso

Muita gente vê e ouve os números das eleições no Cáucaso Norte, que é o Sul da Rússia, e se choca: “Como podem os caucasianos apoiarem tanto assim Pútin?” Os números são chocantes, mas nada de especial, se levarmos em consideração os números de 2004, por exemplo. Vladimir Vladimirovich foi eleito com 98,2% dos votos na Inguchétia, 94,6% no Daguestão e 92,3% na Chechênia. Agora, Pútin recebeu 91% na Inguchétia, 91,13% no Daguestão e 99,8% na Chechênia.

Mais aí cabem três considerações:

1 – O percentual de votos do Cáucaso gira em torno de 6% do total da Federação Russa. A estimativa de fraude é rigorosamente a mesma: 6%. Ou seja, irrelevante.

2 – Pútin É popular ali. Sobretudo depois que abriu as torneiras de dinheiro do Kremlin para a reconstrução dos 3 países. As obras são incríveis e você pode ver isso aqui no blog mesmo, nos posts do “Não Conta Lá em Casa”.

3 – No Cáucaso, onde somente na Ossétia do Norte não predomina o islamismo, tradicionalmente, há o voto familiar, ou irmandade, como quer que se traduza “vird”, algo complexo de se explicar. Esses clãs religiosos determinam em quem a família ou a irmandade vai votar. E ninguém contraria a ordem. Imagine, se em uma vila, homogênea em sua composição, onde foi determinado o voto a Pútin, ele não irá receber 100%?

Ufa, enfim, o fim!

Bom, se você sobreviveu ao texto enorme, você é realmente muito interessado em Rússia e em política internacional. Espero ter iluminado mais do que confundido. Meu ponto é só um: o pleito na Rússia é muito mais do que “Pútin vence em eleições fraudulentas”. Deveria ser “Pútin é eleito em primeiro turno presidente da Rússia; organizações internacionais denunciam irregularidades”. Percebem a sutileza?

8 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns, nobre Fabrício, pela aula. Isso sim é que é explicação de um assunto muito deturpado pela mídia ocidental e seus pseudo-experts, sempre atentos para dar a “sua versão dos fatos”, mas que estes fatos sequer existam, hehehe.
    Parabéns mais uma vez
    Este blog é excelente
    Abs

  2. Ola Fabricio. há tempos acompanho seu blog e sou fã de seu trabalho. Vim lhe pedir um post. Você poderia fazer uma postagem (ou uma série delas) sobre os quadrinhos na rússia e em russo? Não encontro nada sobre isso com qualidade na net em inglês, e não há quase nada em português sobre isso na net. Daria uma excelente postagem.

    • Boas Diorge,
      Obrigado pelos elogios, visita e comentários!
      Engraçado vc falar isso. Outro dia estava remexendo as coisas do armário e lembrei de um festival de humor gráfico com russos, que ajudei a organizar mais de 10 anos atrás.
      Vou procurar e te aviso. Aliás, vc não tem nem nomes, estilos, revistas, sei lá, qq coisa sobre os russos? Ando total por fora do meio HQ.
      Abração!

  3. Caro Fabricio,
    Agora que o tsunami eleitoral russo já passou ( já passou? ), qual a sua opinião sobre como serão os próximos seis anos de Vladimir Putin no comando da Rússia? Ele cederá em algumas coisas, ou a tendência é endurecer com os oposicionistas?
    Abs

    • Boas Felipe,
      Pelo que tenho lido, um pouco das duas coisas. Deve endurecer com protestos não autorizados e coisas que fujam à ordem. Mas deve ceder muito também, já que agora há uma oposição. A questão parece ser: como e até que ponto essa oposição vai se organizar? Tudo depende deles agora. Menos dos protestos que, sinceramente, não devem levar a lugar nenhum, e mais da política.
      E vc, o que acha?
      Abraço!
      Fab

  4. Fabrício tudo bem,

    Geralmente analiso todas as movimentações da política internacional pela ótica geopolítica e geoestratégica. Qual sua opinião quanto á permanência de Putin no poder pelos próximos 12 anos?

    • Boas Wandard,
      Obrigado pela visita e pelo comentário!
      Minha opinião: é perfeitamente verossímil Putin ficar por mais 12 anos. O autoritarismo dele se manifesta pelo controle da mídia, coisa que não vai mudar. Se a oposição não se organizar para ocupar um espaço que ainda é ocupado pelos comunistas, ele vai ficando. Mas a pressão vai ser enorme, né? Tanto interna quanto externa.
      Te deixo a pergunta também: o que vc pensa?
      Abraço!

  5. Penso que para que exista um equilíbrio geopolítico, por enquanto Putin é a melhor solução. Desastres como a década de 1990 não devem se repetir.

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