Quebrando o gelo na “Piauí”

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Muito legal o diário de viagem de Martha Nowill, de 28 anos, na revista Piauí deste mês. O companheiro de trabalho Léo Panço fez a gentileza de trazer um exemplar e achei um barato. A moça deixou São Paulo para passar um mês estudando Stanislavski e aplicando tudo ao “Tio Vânia”, delícia teatral-literária de Tchekhov. (Só não vale falar Tchecov, como o Estadão insiste. É Tchêrrov, alou!).

A mocinha fez um tour pelos países bálticos – Lituânia e Letônia – sabe-se lá o motivo. E chegou à capital russa no meio do inverno, cinco de janeiro, já com uma simplória temperatura de -16 graus. Com seus olhos atentos, ela notou uma coisa muito legal: a vida que os russos levam nos trens (ela pegou o poderoso “expresso Tolstói” Helsinqui-Moscou. Tem vídeozinho dele aqui, ô curioso). São piqueniques, chás, jogos de cartas, papos com seus companheiros de coupê, passeios pelos vagões, fumódromo entre os carros… Enfim, tudo que pode ser feito para amenizar as longas horas gastas ouvindo “tátá-tátá” pelos infinitos caminhos férreos do maior país do mundo.

Como foi estudar no Gitis, deve ter se assustado um pouco com o aspecto do prédio, sobretudo no inverno. E conta que foi avisada do “terrível frio russo”. Mesmo assim ignorou. Eu sempre, sempre, sempre evito o inverno lá. É bonitinho, branco e frio. Mas é absolutamente inóspito. Gosto do outono e da primavera. Mas verão e inverno, na Rússia, evito.

Já nas primeiras aulas, a Nowill sofrou com a metodologia “lyod” (gelo) russa: fria, transparente, impiedosa e dura.

Enquanto lia as grosserias do tutor dela, me lembrava da pedagoga responsável pela minha pós lá. Foram meses e meses ouvindo uma vovozinha com cara de doce me agredir moralmente, duvidar da minha capacidade, punir o mínimo erro meu na língua DELA com ridículos e, sobretudo, me tratar 10 vezes pior do que os americanos, alemães e franceses que eram meus colegas de turma. “Lugar de brasileiro é na Inglaterra, na França. Aqui não é lugar pra vocês”, dizia ela, sem pena. Claro, tudo uma encenação acadêmica, para separar docente de discente, instigar os brios e blábláblá. Mas eu só fui entender isso muitos meses depois, tomando um chá na casa da malvadona…

Valentin, o tutor delas, dava as broncas em russo e era traduzido para o português. Achei isso molezinha, já que na “grande e poderosa”, os caras descascam mesmo. Dá vontade de socar. “Pergunta pra elas se elas sentem pena delas mesmas”, “Essa atriz tem problema?”, foram alguns dos “estímulos” que Nowill e sua amiga receberam durante a prática na Rússia…

Adorei a frase “esse russo filho-da-puta está destruindo meu ego
dia após dia”. É tudo o que eu pensava após cada aula, após cada nova
teoria lingüística, após cada fracasso em traduções bizarras, pequenas
monografias espezinhadas ou derrotas nas “sessias”. É isso aí: os caras
destroem você para te reconstruir de novo. Meio que uma síndrome de
inverno. Você zera tudo com o frio de -30 e renasce na primavera.
Aliás, Martha teve uma colher de chá. Esse ano foi um dos invernos mais
quentes dos últimos tempos…

Entre passeios pela cidade, namoricos no alojamento (aliás,
alojamentos eu também recomendo evitar, pois não são seguros e
raramente têm alguma infraestrutura. Prefira alugar um quarto numa casa
de família), as alunas brasileiras foram melhorando e até arrancaram
elogios de Valentin. Mas aí veio uma outra instrutora, a Zinaida, e deu
o golpe final: um esporro após ver que as brasileiras não levantaram
quando ela entrou na sala. Informalidade é pecado por lá. Aluno é
aluno, mestre é mestre. Todas as cerimônias devem ser mantidas. Tratar
estranhos, sobretudo professores, por “Ty” (tu) é absolutamente
imperdoável. “Ty” reabaixa o interlocutor. Usar “Vy” (vós) é
absolutamente imperativo. E levantar para mestres no recinto, também.
Adorei relembrar, já que tomei uns 10 esporros desse até aprender…

Outras duas anotações legais foram o teatro e o táxi. Ir ao teatro na Europa é uma coisa sui generis. Na Rússia, isso extrapola todos as expectativas. A comparação dela foi ótima: é como um jogo de futebol aqui. A platéia vibra, chora, aplaude, lota – todos os teatros com peças boas estão sempre lotados – e cumprimenta os atores, os heróis, ao final do espetáculo. Já o táxi, bom, existem táxis ocidentais? Sim. Mas são caros e chatos. O legal é fazer sinal na rua, e esperar algum louco parar. Aí você combina o preço e, se topar, entra no carro. Se não topar, bate a porta. O detalhe é que qualquer carro pode ser táxi. É um costume soviético. Voltando para casa você quer um troco para a gasosa? Pega um passageiro. Simples assim.

Mais uma consideração, talvez a mais importante do diário de Martha, é sobre a vodca russa. “Ela não dá ressaca, não mesmo”. Vivo repetindo isso por aqui, e sempre ganho um nariz torto. Tive que trazer uma garrafa de lá e enxugar com uns amigos, para eles entenderem. “Acho que é por isso que os russos vivem bêbados”, explica. E mais para frente, conta que o professor veio dar aula “sob efeito”. Outra coisa absolutamente normal por lá. Até assistente de professor me deu aula bêbado. Fato que depois matamos a garrafa da bizarra vodka “Oryol” no corredor do prédio principal da MGU, mas isso é outra história…

Ela também lembrou outra delícia que me deixou com água na boca: a “kasha-grechnevaya“, ou trigo sarraceno, como ela descreve. É um grão marrom, que se come como arroz com tudo o tempo todo. Odiei no início, mas depois não consegui viver sem. Trouxe uns dois sacos ano passado, mas a Air Berlin fez o favor de perder minha mala. E ela acabou na Bulgária, onde os malandrinhos acabaram embolsando os pacotes, junto com duas garrafas da mais pura “starorrusskaya”. Uma perda lastimável e que foi chorada por dias e dias…

Martha aproveita a deixa e cita “Moscou não acredita em lágrimas”. Perfeito para ilustrar o namorado que não se despediu dela. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1980, conta a história de duas camponesas que vão tentar a sorte em Moscou. Com elipses temporais, dá um fast-forward na vida de uma delas, após ser abandonada pelo amado. Absolutamente, um show de cinema e, sobretudo de atuação. Confere o filme no vídeo aí no fim do post. Mas acho que o filme, soviético, não tem muito de georgiano…

Para fechar, conta ainda que não sentia saudade de SP ou da vida que levava. Sempre que topo com alguém que morou/estudou lá, é notório: a Rússia muda você de tal forma, sobretudo quando você entra na língua russa, que fica impossível não perceber. É uma cultura que preenche, uma vida rica, sensível e familiar, amistosa e única. Por isso que vibrei tanto com o texto da moça. Um olhar total “outsider”, mas que conseguiu captar, com a sensibilidade de uma atriz, coisas que muitas vezes muita gente que passa anos lá não consegue enxergar: a alma.

PS.: Ah, Martha, acho que “sdratsia” não quer dizer muita coisa mesmo não… =)))

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