Referendo para manter a URSS faz aniversário. Sem festa nem bolo

No último dia 17, um grande evento – um dos maiores da história política da humanidade – fez aniversário: o referendo para a preservação da União Soviética completou 20 anos. Era uma época turbulenta, ainda com Gorbachev à frente de uma URSS aos trancos e barrancos, que via, dia após dia, sua influência política sobre o ‘bloco comunista’ desaparecer.

Do oeste para leste, as reformas varriam o mapa político e, num esforço desesperado, o secretariado do Partido convocou o tal referendo, com a seguinte pergunta: «Считаете ли Вы необходимым сохранение Союза Советских Социалистических Республик как обновлённой федерации равноправных суверенных республик, в которой будут в полной мере гарантироваться права и свободы человека любой национальности». Ou, em bom português, “Você considera necessária a preservação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas como uma federação renovada de iguais soberanias entre as repúblicas, que irão de todas as formas garantir os direitos e as liberdades do indivídulo de qualquer nacionalidade?”

Cédula do referendo de 1991

Antes da divulgação do resultado, porém, o próprio secretário-geral e premiê da URSS, Mikhail Gorbachev, alertou que o mesmo era inútil, pois parar o processo de desintegração do bloco era inevitável. Por outro lado, Boris Yeltzin (aquele presidente louco, bêbado, dançarino e engraçado, lembra?), a oposição, deu um xeque-mate: convocou eleições presidenciais para a República Soviética Socialista Federativa da Rússia e, em junho, foi eleito.

Se pensarmos bem, foi uma loucura: embora 79% dos russos – da Rússia – tenham aprovado a manutenção da URSS, Boris Yeltzin foi eleito presidente da república da Rússia. Ou seja, havia um presidente nacional com mais força que um outro líder ‘nacional’. E, para ilustrar, enquanto isso, na Ucrânia, 90% aprovavam a ‘independência’, enquanto 70% aprovaram a manutenção da URSS. Foi aí, historicamente falando, que surgiu a famosa e contemporânea indagação da geração Y (provavelmente de ‘Yeltzin’): “comofaz?”

Mas, falando sério de novo, o referendo de 1991 – a primeira chance para os soviéticos de todas as nacionalidades votarem em 70 anos de união – mostrou apenas uma coisa: o povo não estava maduro o suficiente para tomar decisões políticas. Não se sabia o que era, como funcionava, para quê e se o serviria ou não. Votava-se, achando, em primeiro lugar, que era um tipo de pesquisa. Entretanto, o que influenciava profundamente os cidadãos era o medo: a maioria esmagadora, além de não entender, temia possíveis represálias a quem fosse contra o partido. As pessoas simplesmente não entendiam – e até hoje não entendem – conceitos como ‘democracia’ e ‘liberdade de expressão’.

Gráfico da RIA Novosti mostra o resultado do referendo

O gráfico da Ria Novosti mostra bem a ‘vontade’ do povo: em praticamente todas as repúblicas soviéticas, a manutenção da união teve vitória esmagadora. Hoje, muitos revisionistas contestam o resultado desse referendo – e com razão. Mas o fato é que os números são plenamente verossímeis, tendo em vista o medo, o desconhecimento e a imaturidade cidadã do bloco.

Mas o trem da mudança seguiu a todo vapor: houve o golpe, o GKChP (ГКЧП), disputas e, por fim, a dissolução integral da União Soviética e do sonho do comunismo. O fim era inevitável e assim foi.

Por isso, mesmo hoje, eu ainda acho estranho quando alguém faz referência à ex-URSS, quando fala de Rússia, Ucrânia ou Cazaquistão, por exemplo. Foi uma outra realidade, uma outra história, que, embora influencie aquela que acontece agora, tem outros paradigmas. É como se fosse uma outra dimensão, algo meio sem paralelos, extremamente dicotômico.

E pior, ainda há quem creia numa ‘ressurreição’ da URSS, em um molde moderno. Eu, pessoalmente, acredito na aproximação de repúblicas como a Rússia, a Bielorrússia, o Cazaquistão, por exemplo, em alianças que contemplem a soberania e a segurança. Mas, com a esmagadora maioria das RSs, não vai haver mais muita coisa, politicamente falando, além dos laços históricos. A mágoa, muitas vezes, é maior que a necessidade.

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5 respostas para “Referendo para manter a URSS faz aniversário. Sem festa nem bolo”

  1. Eu não entendo porque os ucranianos votaram contra. Deve ser por isso que os russos não gostam dos ucranianos.
    Mas, fica uma questão. Se o povo votou a favor da manutenção, porque o bloco se desfez?

    • fabyuri disse:

      Boas Marco,
      Acho que não se conseguia pensar numa fórmula que equilibrasse independência com URSS. Além, é claro, do acerto de contas com as feridas históricas. Mas o tempo provou que foi a melhor solução, eu acho.
      E a Ucrânia é apenas um exemplo representativo: queremos independência, mas queremos a URSS… Como fazer?

  2. ivan disse:

    Politicamente, geograficamente, economicamente e socialmente o fim da URSS foi o ato mais insano que o mundo já viu. Porque? primeiro, os americanos se tornaram a unica superpotencia, aí veio o caos; segundo os EUA foram atacados existiram os Terroristas, Israel se tornou um Estado terrorista, assassinou centenas de palestinos, sem que nenhum país fizesse alguma coisa contra eles, e terceiro o mundo ficou orfão como representante natural dos trabalhadores a URSS desintegrou por ganancia dos serviços secretos russos.

  3. Pedro Rubem disse:

    Vi uma pergunta ali q eu faria tb…Se a maioria era contra a dissolução então porque msm assim ocorreu o seu trágico fim? E outra coisa…há uma contradição “E, para ilustrar, enquanto isso, na Ucrânia, 90% aprovavam a ‘independência’, enquanto 70% aprovaram a manutenção da URSS” …estranho não??

    • Boas Pedro,
      Obrigado pela visita e pelo comentário.
      O ‘trágico fim’ demorou mais de uma década, com o colapso de uma estrutura monumental, baseado na ignorância social e econômica – embora sob o pretexto do maior sonho da humanidade.
      O referendo foi só uma tentativa de legitimar – ou não – um processo que já não tinha mais volta.
      A confusão na Ucrânia é perfeitamente normal. As pessoas não queriam a opressão, queriam ter suas vida e cultura de volta, embora também não quisessem ser abandonadas à própria sorte. Ou isso ou realmente algo estranho…
      Aliás, não sei se vc leu o gráfico, mas, em 70 anos, essa foi a primeira vez que o ‘regime do povo’ ouviu o povo. Isso sim é estranho, não acha?
      Abração!
      Fab

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