Repercussões do terrorismo na Rússia

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Pelas mãos da Marina Darmaros, que toca o ‘La Balalaika’, mais uma vez tive o prazer de participar da ‘Gazeta Russa’, que agora sai mensalmente na Folha de SP. Aliás, muito da evolução do cadernão, imagino que deva ser creditado às noites que ela cedeu ao trabalho. E confesso que fico bem orgulhoso cada vez que consigo cumprir alguma missão que me é dada pela amiga.

Minha colaboração, dessa vez, foi sobre os impactos psicológicos, econômicos e políticos dos ataques terroristas – especificamente o último, ao aeroporto Domodedovo, em Moscou – para a Rússia de hoje e do futuro.

Por sugestão da própria Marina, a opção era de um texto rápido, leve, mas com dados, exemplos e análises que dessem um panorama rápido e sem delongas do que é e do que pode vir.

Difícil é, sempre, falar com gente muito boa, que entenda do riscado e que trace os paralelos que objetivem sempre a melhor compreensão do leitor. Aquela matéria que o cara termine de ler e pense ‘humm, isso faz algum sentido’. Afinal, sobre o tema ‘Terrorismo na Rússia’ muita gente dá pitaco e muita gente fala, na minha opinião, abobrinha. E é difícil não se deixar levar por isso, admito. O fato é que, novamente, na minha opinião, generalismo não cabe. É preciso conhecer um pouco do Cáucaso e da Rússia para poder opinar.

Outra coisa que vale MUITO ler nessa edição da ‘Gazeta Russa’ é o artigo da Natália Solzhenitsina, nada menos que a viúva de Solzhenitsin, o homem que escreveu ‘Arquipélago Gulag’, o que – idiotamente comparando – seria uma espécie de ‘Os Sertões’ da União Soviética. Repito: vale muito a pena ler.

Para ler o e-paper da ‘Gazeta Russa’, é só vir aqui. O site com todo o conteúdo é o gazetarussa.com.br

Múltiplos traumas de um ataque terrorista
28/02/2011
Fabricio Yuri, especial para Gazeta Russa

Além da tragédia humana, grupos separatistas atingem também a economia russa, tanto no turismo quanto em investimentos estrangeiros.

Um grito seguido de uma explosão. Em seguida, o cenário de um filme de terror. Esse é o maior pesadelo dos russos, e ele voltou a se tornar realidade no dia 24 de janeiro, quando um terrorista suicida detonou uma bomba no hall de desembarque do maior aeroporto da país, o Domodêdovo, em Moscou.

Desta vez, foram 36 mortos e cerca de 180 feridos, bem longe das dolorosas marcas dos ataques ao Teatro Dubrovka, em 2002, quando 170 perderam suas vidas e outros 721 se feriram, ou ainda da invasão da escola em Beslan, na Ossétia do Norte, em 2004, que matou 385 pessoas e feriu cerca de 700.

Mas o que impressionou no Domodêdovo foi a ousadia. Atacar um aeroporto internacional minou praticamente toda a credibilidade de um governo que luta para reforçar a sensação de segurança para seus cidadãos e, consequentemente, para os turistas.

O que pesquisas mostram, no entanto, é que esse esforço não rende frutos em nenhuma das duas frentes. Segundo dados do Centro Russo de Compreensão da Opinião Pública (VTsIOM) publicados no início de fevereiro, 52% dos moradores de Moscou e São Petersburgo temem ser, eles próprios ou seus parentes, vítimas de um atentado terrorista.

No âmbito nacional, 80% dos russos compartilham esse medo. Esses altíssimos níveis de temor ultrapassam os índices verificados logo após os ataques ao metrô de Moscou, em março de 2010.

Ainda segundo os especialistas do VTsIOM, para 6% dos entrevistados a melhor forma de conter o terrorismo é com o endurecimento das leis de migração. Para 35% dos entrevistados, eliminar definitivamente o terrorismo é impossível para a Rússia.

Já para a companhia inglesa de análise de riscos Maplecroft, a Rússia saltou do 15º lugar, em 2010, para o 10º lugar, em 2011, no ranking de países que têm maior risco de ataques terroristas. “Avaliar a ameaça terrorista no mundo é imprescindível para um cálculo de risco nos negócios”, diz o diretor da Maplecroft, Alyson Warhurst.

Para Alberto Pinto, tradutor do russo para empresas brasileiras de grande porte, os ataques terroristas são pequenos desastres que vão minando dia após dia a imagem de país seguro, construída a um custo muito alto durante o regime socialista.

“A cada viagem, percebe-se cada vez mais o receio tanto das autoridades quanto de quem chega ao país a negócios. As pessoas perguntam se há riscos, pedem para encurtar a estadia e, em breve, vão começar a evitar lugares públicos”, acredita ele.

Medo que afasta

A ousadia dos criminosos e sua necessidade de chamar a atenção do mundo para sua causa – ainda que ao custo de muitas vidas – choca pessoas de qualquer lugar do planeta. “Mesmo sem querer, os ataques atingem qualquer um, pois geram compaixão e empatia. Você se projeta, se vê naquele aeroporto, esperando alguém que você ama”, diz a psicóloga Nádia Reis.

Essa empatia, no entanto, influi também na economia. “Sem dúvida, se um turista puder optar entre um lugar seguro e um lugar perigoso, não vai pensar duas vezes para escolher o mais seguro”, completa Nádia.

Em 2004 e 2005, a Rosstat (Agência Nacional de Estatísticas da Rússia) registrou a maior queda no turismo do país, 9,2% e 16,6%, respectivamente.

Em 2004, quatro grandes atentados ocorreram na Rússia: dois ataques ao metrô de Moscou, uma bomba detonada em um voo comercial e o trágico sequestro da escola em Beslan. Somente nesses ataques, 479 pessoas morreram e mais de mil ficaram feridas, de acordo com as estatísticas oficiais.

Segundo André Luís Woloszyn, especialista em terrorismo e consultor de organizações internacionais sobre conflitos, a lentidão do governo em relação aos ataques pode ter impactos devastadores para o turismo e outros setores da economia.

“Uma resposta imediata e com resultados positivos – a identificação dos culpados e sua punição – demonstra que o país está preparado para este tipo de crise e proporciona confiança no poder do governo para debelar tais episódios”, explica.

Woloszyn lembra ainda que o intercâmbio de dados entre as agências de inteligência e intensificação das revistas pessoais são fundamentais para a prevenção de novos ataques, sobretudo em áreas de grande concentração de pessoas. Mas ressalta que o endurecimento das regras de vigilância esbarram na resistência dos cidadãos: “Principalmente os turistas acreditam que tais medidas ferem alguns princípios da Carta de Diretos Humanos e incomoda terem de aguardar horas para embarque ou desembarque, ou verem seus pertences manuseados durante a revista”.

E os riscos tendem a aumenta. Tanto a Rússia como o Brasil vão sediar, nos próximos anos, eventos esportivos que os transformam em potenciais alvos para organizações terroristas – os Jogos Olímpicos (2014 em Sôtchi, 2016 no Rio) e as Copas do Mundo (2014 no Brasil, 2018 na Rússia).

“O Brasil, como qualquer outro país, não está imune a este fenômeno, e eventos internacionais desta magnitude, com a presença massiva da mídia mundial, se constituem em uma excelente oportunidade para ações terroristas, como a que ocorreu nas Olimpíadas de Munique, em 1972”, alerta Woloszyn.

Entrevista: professor doutor Marcial Garcia Suarez explica consequências de atentado em Moscou
2/03/2011
Fabricio Yuri, especial para Gazeta Russa
Entrevista com o professor doutor Marcial Garcia Suarez, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.

– Num primeiro momento, o que representa politicamente essa sequência de ataques terroristas à Rússia, um dos gigantes mundiais?

Ao tratarmos de terrorismo, devemos entender que ações do gênero são tipos específicos de táticas de combate que visam inocular no inimigo a percepção de insegurança constante e de falibilidade da sua capacidade em se proteger. Os ataques terroristas recentes em solo russo representam politicamente um desafio ao Estado e à sua capacidade fundamental, que reside em promover aos cidadãos a segurança básica da vida e dos direitos.

– Isso significa falta de habilidade do governo em vencer a guerrilha? Aliás, há uma forma correta de se lidar politicamente com um movimento que visa desestabilizar a sociedade?

-Para considerarmos se o governo russo falha ao lidar com grupos dissidentes em seu território, é importante pensar nos objetivos políticos que eles traçam e em que medida tais objetivos são aceitáveis para o governo. Em um sentido normativo, terroristas possuem uma vantagem estratégica sobre guerrilheiros. Um grupo guerrilheiro se caracteriza por fazer ações de enfrentamento ao Estado nos moldes clássicos, com identidade e tipificação de ações que se aproximam em algum grau do combate regular, isto é, o enfrentamento de forças opostas e que se identificam. Já o grupo terrorista se caracteriza por ser indistinto dos demais cidadãos, ou seja, não é possível identificar um terrorista no meio de uma multidão.

– A Rússia tradicionalmente não negocia com terroristas e prefere cortar na própria carne a ceder. Essa é uma tática correta?

A década de 1990 foi de declínio para o poder geopolítico russo, com o desmembramento da União Soviética. Pensar que se pode abrir espaço para o surgimento de novos Estados independentes em seu entorno parece pouco crível, principalmente na região do Cáucaso, posto que os principais gasodutos e oleodutos que abastecem a Europa por essa região passam. Logo, além de perda politica, haveria necessariamente um problema econômico.

Há uma contradição inerente às ações terroristas em uma proporcionalidade inversa. Quanto mais um grupo age, mais exposta está sua organização; no entanto, ele só poderá pressionar o Estado se for significativamente ativo. Isto pode levar a uma análise simples: um grupo terrorista está fadado a ser desmantelado, pois o seu sucesso é também a chave do seu fracasso. Obviamente, isto não ocorre, pois os atentados ocorrem de maneira randômica e não contínua.

O ataque ao aeroporto de Domodêdovo foi reivindicado por Doku Umárov, lider de um grupo de guerrilha que utiliza a ação terrorista para desenvolver o fenômeno do terrorismo. Assim, o elemento simbólico é importante. Não podemos nos esquecer da escola de Beslan, por exemplo, onde os próprios terroristas foram mortos levando consigo os reféns, entre eles crianças. Atacar um alvo público, um hub aeroportuário, é um claro desafio à capacidade do Estado em oferecer segurança aos cidadãos e à infraestrutura como um todo.

– Economicamente, o que representa um ataque em grande escala ao maior aeroporto de um país? Quais medidas a serem tomadas, no curto e no longo prazo, para evitar novos ataques?

A forma como o governo russo lidará com esta ameaça não deve diferir do que vem sendo feito até então: serviço de inteligência e busca dos principais líderes dos movimentos separatistas. Os reflexos no campo econômico devem ser sentidos num momento imediato, mas não devem persistir, pois o Estado não se mostra existencialmente ameaçado por esse movimento separatista. Contudo, não se pode ignorar que ações terroristas no território russo têm se mostrado frequentes. Isto pode levar as pessoas a questionar a capacidade da inteligência russa em prever e desenvolver ações de contraterrorismo que sejam eficazes.

– Existe alguma possibilidade de que o Brasil venha a ser alvo durante eventos internacionais, uma vez que ambos os países irão sediar eventos internacionais nos próximos anos, como Jogos Olímpicos e Copas do Mundo?

Traçar paralelos entre Estados e conjunturas políticas é algo bastante questionável. Poderíamos comparar o movimento separatista checheno com o crime organizado brasileiro ou com os eventos que assolaram a cidade do Rio de Janeiro recentemente? Acredito que não, pois a magnitude da ação russa se traduz por um perfil de uma densidade política maior. Podemos analisar ações em seu aspecto técnico e, ainda assim, encontraremos um abismo em termos de capacidade e exercício de violência, mas principalmente de agenda política. No caso brasileiro não há claramente definida uma agenda política por parte dos grupos criminosos, ainda que, em determinados momentos, possamos caracterizá-los como terroristas. Por outro lado, em relação aos chechenos, temos uma agenda com objetivos estratégicos e políticos definidos.

O que, de fato, se mostra como um paralelo preocupante é a questão do Estado em oferecer elementos para a defesa contra o terrorismo. Ao se tratar de ações terroristas, não é possível apontar um Estado com segurança total e é exatamente por esta razão que o medo tem se espalhado no globo, pois se trata de uma ação política com um excelente trade off para o ator insurgente. O Brasil será palco da Copa de Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016. Como se tratam de dois eventos internacionais, as ameaças à segurança serão de ordem regional ou local? Acredito que qualquer análise que vá nessa direção incorrerá em erro, pois as ameaças devem ser tomadas em sua magnitude. E a questão que encerra nossa análise é: o Brasil está preparado para não ser palco de ações terroristas?

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