Rússia para iniciantes: parte 1

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No dia-a-dia, tento me esquivar do assunto Rússia. Mas acaba virando recorrente nos meus papos diários com amigos. Muito mais pela falta de fontes do que pela qualidade, admito. Mas enfim, como vira e mexe recebo email de gente pedindo dicas ou então simplesmente – no blábláblá com amigos – as perguntas surgem, vou postar algumas coisas que aprendi sobre o cotidiano do maior país do mundo. Nem todas são necessariamente 100% verdade, mas juro que todas são as impressões que me causou compartilhar dias inesquecíveis do outro lado do mundo.

Começo a sessão pela língua russa. Sim, eu acho imprescindível para qualquer ser humano que queira entender pelo menos um pouco como funciona tudo aquilo lá e entrar na alma do país. E não, não considero imprescindível para quem quer ver o Kremlin de Moscou, a Praça Vermelha, o metrô, o Hermitage e tirar foto com as centenas de sósias de Stalin que você acha pelas ruas de lá.

Para os marinheiros de primeira viagem, recomendo pelo menos saber ler em cirílico. Na maioria das vezes – bom, quase 100% das vezes – não há nada escrito no alfabeto latino. Então, nomes de ruas, cardápios, mapa do metrô, propaganda, enfim, TUDO está em cirílico. Aí você pensa ‘ora, mas que povo orgulhoso e egoísta’. E eu respondo: é o alfabeto deles, a vida deles e a cultura deles. Se você vai para lá, nada mais justo que você aprender…

Russo é muito difícil, mas não é mais difícil do que inglês, francês ou suahili. Demanda tempo, dedicação e vivência. Você não vai aprender russo em 1 mês, 6 meses ou 1 ano. E, mesmo depois de alguns anos, ainda não vai conseguir ler “Guerra e Paz” ou “Crime e Castigo” no original. E, ao ver dois russos conversando, não esquente. Um papo entre dois melhores amigos muitas vezes nos parece uma discussão de futebol. E também não se encante com as mocinhas que falam suavemente e cantado. Não há nada de especial, provavelmente é um jeito de te convencer a comprar algo…

A língua russa tem declinações – ou seja, tudo depende muito de seu domínio de sintaxe. Tudo é marcado nas orações de acordo com a função sintática que exerce na frase. Por isso, é necessário ser craque também em português para não errar nos sufixos. Os verbos são modais – perfeito e imperfeito. Ou seja, só há futuro perfeito e imperfeito, passado perfeito e imperfeito. E isso complica muito mais a vida do que ajuda. Há dezenas de prefixos que mudam completamente o sentido das palavras, e todos devem ser dominados. E há um sistema complexo de verbos de movimento. Um verbo para ir, um verbo para ir e voltar – ou movimentos repetitivos.

Como em todo lugar do mundo, russos amam quando os estrangeiros tentam ou falam alguma coisa no idioma deles. Ao fazer isso, você ganhou um amigo. E mais uma nuance: cerca de 30% são bilingues – falam o russo e o idioma nativa de seu país ou região. Há mais de 100 línguas e dialetos falados por todo o país. A mais falada delas é a língua tártara (Tatar – 3% da população). Em muitos rincões, há inclusive pessoas que não falam russo. Eu ouvi ossetino, tatar, yakut, kabardino, checheno, bashkir e adygue – minha esposa ficou fascinada pelos brindes intermináveis em 3, 4 línguas. Se você tiver contato com pessoas de outras regiões, aprenda algo na língua delas.

No trato pessoal, jamais use “ty” (tu) com desconhecidos. É como se você estivesse rebaixando a pessoa com quem fala, uma ofensa grave. Use sempre “vy” (vós). Sempre pergunte antes se a pessoa fala inglês – vy govorite po angliski? – pois é muito comum para nós, brasileiros, pronunciarmos tudo sem sotaque (fonologicamente somos parecidos com eles). E aí o russo vai começar a te explicar tudo na língua dele…

Qualquer contato com policiais, agentes de aeroporto, diretores, secretários, deputados, presidentes e afins, que não dominem inglês (caso você não fale russo) deve ser evitado ao máximo possível. Paciência não é o forte de quem ocupa esses cargos por lá. E não espere boa vontade. Seja direto, objetivo e jamais, jamais ande “errado”.

Russo é russo, ucraniano é ucraniano, polonês é polonês e búlgaro é búlgaro. Se for tentar falar um com o outro, tenha convicção. Muitas vezes falar russo com algum “vizinho” vai te fechar portas, em vez de abrir. E não é tão fácil quanto parece. Imagine um sueco que aprendeu espanhol europeu. Será que é fácil pra ele entender português, italiano ou mesmo o castelhano da Venezuela?

No geral, a língua russa abre portas, é interessantíssima e encantadora, mas difícil e traiçoeira. Não falar russo não vai te impedir de conhecer muita coisa legal por lá, mas ao menos ler já vai te abrir muitas portas.

Alguns links pra dar uma ajuda:

Alfabeto cirílico (russo) seus sons e correspondências

Frases em russo, em português, e como se lê

Frases úteis para todos os momentos

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