Shevchuk x Putin: inteligência e poder cara a cara

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No último dia 31 de maio, segundo me avisou o amigo Shashkov, aconteceu um esperado e inusitado encontro entre o primeiro-ministro e ex-presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, e um dos maiores artistas populares da Rússia e União Soviética, líder do grupo DDT, poeta, escritor e músico, Yuri Shevchuk.

Provavelmente, foi a primeira vez que Shevchuk teve a chance de falar, olho no olho, tudo o que pensa sobre a situação atual de seu país para o líder. E o músico não perdeu a viagem: avisou que tinha sido ‘aconselhado’ a não fazer perguntas ‘incisivas’ e ‘políticas’ a Putin, mas mesmo assim perguntou sobre o futuro do país, sem liberdade de expressão, afogado na corrupção e dependente de uma oligarquia extremamente autoritária.

Foi uma entrevista, um papo, de sonho para todos os cidadãos críticos do país, uma chance de ver alguém que pensa como eles dizer, na cara do homem mais poderoso da história da Rússia pós-soviétiva todas as insatisfações que afligem os não-ufanistas, os não-direitistas. E Vladimir Putin também foi incisivo e acalorou o debate, com seu tom belicoso e autoritário, respondendo às provocações do músico com sua habitual mão-de-ferro, mas sem dizer nada.

Em primeiro lugar, fiquei chocado com o deboche de Putin, depois da explanação inicial de Shevchuk: ‘Me desculpe, qual o seu nome?’. ‘Yuri Shevchuk’. Seria como se José Serra se virasse e perguntasse ‘qual seu nome?’ a Gilberto Gil ou Caetano Veloso. Em segundo, quem foi o idiota que convidou Shevchuk? E ainda ligou para dar orientações! É muito imbecil, esse ser. Achou que o líder do DDT, um dos mais vorazes críticos do absolutismo russo fosse tomar chá quietinho e falar de amenidades?

E, depois da entrevista, Shevchuk falou ao ‘Svobodanews.ru’. ‘Eu consegui perguntar o que queria para ele. Queria perguntar em qual país vão viver nossas crianças? E Putin concordou comigo. Sem igualdade de todos perante a lei, sem democracia no país a Rússia não tem futuro. Essas foram palavras dele. E eu respeito quem não perguntou nada a ele em outros encontros. Mas eu acho que é indispensável falar. É melhor falar do que guerrear’.

Bom, toda a conversa está no vídeo abaixo. E a transcrição está nesse link aqui. Como aqui em cima falei da ‘explanação inicial’ de Shevchuk, destaco ela aqui embaixo, para que vocês possam ter uma ideia da sutileza e do tom crítico do músico.

“Eu tenho alguns questionamentos. O primeiro é a liberdade. Essa palavrinha. Liberdade de imprensa, liberdade de informação, porque o que está acontecendo agora no país – é um país de classes, milenar. Há príncipes e boiardos com carros piscando luzes, e existe um povo atolado em impostos – e um abismo enorme entre eles. O sr. sabe de tudo isso.

Por outro lado, a única saída é: que todos sejam iguais perante a lei. Os boiardos e o povo que paga impostos. Para que os mineiros não entrem nas galerias cheios de dívidas. Para que tudo fosse mais humano, para que a individualidade fosse livre nesse país, e tivesse respeito por si mesma. E, em seguida, poderiamos estimular o patriotismo. Porque não temos mais espaço para o patriotismo de ‘plakat’, e nós temos muito disso, eu vejo, e eu não estou só (a inteligentsya, digamos assim), nós vemos muito disso.

Nós vemos este plakat, essas manifestações superficiais. Uma tentativa de construir o patriotismo, a consciência do país através dos hinos e marchas e assim por diante. Por tudo isso nós já passamos. Só com uma sociedade civilizada e com igualdade de todos perante a lei – todos, absolutamente (e o sr. e eu) -, só então alguma coisa vai começar. Nós vamos construir e hospitais, e ajudar as crianças… mendigos, aleijados, velhos. Tudo isso vai acontecer da alma, com sinceridade e honestidade.

Mas para isso é necessária a liberdade de imprensa, porque hoje ela não existe. Existem centenas de jornais e meia televisão. Na verdade, o que vemos na “caixa” – não chega nem a criar polêmico, são as mesmas marchas e hinos.

E, na verdade, o eleitorado de protesto no país está crescendo, o sr. sabe, também. Muitos estão descontentes com a situação. O que o sr. me diz, entrará em seus planos uma absoluta e séria, honesta e verdadeira democratização do país? Para que não se perfumasse tanto as organizações estatais, para que nós parássemos de ter medo dos policiais nas ruas, porque os policiais servem somente às suas carteiras, não mais ao povo.

Em geral, nós temos muitos órgãos repressivos. Eu honestamente faço essa pergunta. E complemento com outra: nesse dia 31 vai acontecer a ‘Marsh nesoglasnih’ (marcha dos opositores) em Piter. Ela será dispersada?”

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