Chernobyl – textos, fotos e vídeos no post do ano
abr 26, 2011 Ex-repúblicas, Na imprensa
Hoje foi um dia especialmente triste. Qualquer pessoa um pouco antenada com o planeta não esquece o dia 26 de abril, aniversário do maior acidente da história da humanidade, quando a gente viu que brincar de Deus pode ter um preço alto. Nesse dia, 25 anos atrás, o reator número 4 da AES (atomno eletro stansya, usina eletro atômica) de Chernobyl explodia, jogando no ar mais de 500 tipos de radiosótopos altamente letais na atmosfera, num espetáculo bizarro e único, que iluminou o céu da pequena cidade de Pripyat.
A história todo mundo conhece. Ano a ano, a gente lembra, mas a gente também esquece. Por isso, hoje, todos os jornais e sites fizeram matérias, com repórteres que se arriscaram, muitas vezes, para recontar essa história. Profissionais cujo sacrifício – mesmo que os motivos não sejam tão nobres – deve ser lembrado: se não fossem esses jornalistas, a tragédia ficaria no esquecimento.
É dia também de lembrar dos mártires, que se sacrificaram para evitar uma tragédia ainda maior. E das vítimas, que, muitas vezes, morreram e nem souberam a causa. Dos inocentes que sofreram e sofrem apenas por terem nascido. E dia de lembrar que, a maior lição de Chernobyl é nunca esconder a verdade. Espero que o exemplo soviético inspire as autoridades contemporâneas – sobretudo quando temos um desastre prestes a acontecer, no Japão.
Ao longo do dia, li bastante coisa e fiz um compiladão do mais interessante sobre a tragédia. Essa matéria, da Radio Free Europe, me impressionou em algumas partes. A correspondente ucraniana da RFE, Natalia Churikova, que tinha 14 anos à época da tragédia, conta sua história, que você pode ler aqui. Mas uma coisa me chamou muita atenção: quando ela fala que debates na TV, após a exposição da tragédia, traziam especialistas que diziam “com a cara lavada, que radiações como aquela, em pequenas doses, haviam sido comprovadamente benéficas para ratos”….
Já em outra matéria, da Chernobyl-International, uma ONG que faz um trabalho espetacular com as vítimas da tragédia ao longo dos anos, conta a história de Leonid Budkovskiy, um dos homens que entregavam as correspondências ‘top-secret’, quando os liquidadores (homens que ajudavam a dissipar os elementos contaminados) começaram a desembarcar nas áreas afetadas. Me chamou atenção quando Budkovskiy diz “em Chernobyl ninguém sabia o quão sério tudo era. Nós nem usávamos roupas especiais…’. Mais você pode ler aqui.
Aliás, por falar em “liquidadores”, bom, não há muito o que falar sobre eles. Falando francamente, muitos deles queriam sim, ajudar. Embora não soubessem que seriam mártires. Acreditavam no governo quando este dizia que estava tudo sob controle. Jamais souberam que tinham recebido uma sentença de morte. Vinham de toda parte da União Soviética, com a missão de ajudar após terem passado por um treinamento risível. São mártires involuntários. Mas não houve relatos de nenhum deles sequer hesitando em seu trabalho, mesmo após os primeiros sintomas. E eles foram aos milhares. Logo nos primeiros meses, cerca de 25 mil morreram. Nos anos seguintes, outros 70 mil sofreram as consequências da radiação. O relato de um deles, sobre como eles “extrairam a pele” de quilômetros e quilômetros de áreas afetadas é impressionante. Leia aqui e assista a esse vídeo aqui, narrado por um dos liquidadores da época, o Major Stanislav Titov, um pedaço vivo da história da tragédia.
Vimos também, em vários e vários sites e jornais, muitos profissionais em viagens a Pripyat e Chernobyl. Eu chuto que tenha lido umas 3 ou 4 dezenas. Mas pouquíssimos podem tocar a superfície do problema – principalmente pela barreira linguística, já que poucos falam russo. Além do mais, há a barreira do conhecimento. Poucos são iniciados no tema, ignoram a física e as ciências envolvidas no processo. Não é o caso do Vadim, um geofísico e jornalista de Moscou, do mais alto gabarito, e que tem um dom incrível de escrever a coisa certa. Além de tirar excelentes fotos. Seu relato – e suas fotos - estão em seu blog e podem ser vistas aqui. Tudo está em russo, recomendo um google translate (para o inglês), mas as fotos são imperdíveis.
O Greenpeace Rússia – que tem feito excelentes ações contra a energia nuclear – não ficou de fora. Na praça principal da Universidade Estatal de Moscou (onde eu tanto enrolei esperando aulas…), a famosa MGU, eles organizaram um protesto imponente, uma espécie de flashmob. Está escrito “STOP AES”, que a gente já sabe ser a sigla em russo para usina nuclear.
Outra coisa que muita gente esqueceu é de que em Kiev existe um museu impressionante sobre Chernobyl. Lá tem fotos da época, histórias, vídeos, documentos top-secret, enfim, um sem fim de informações absolutamente impressionantes e chocantes sobre a tragédia. Para quem já foi, é comparado a Auschwitz, ao Museu do Terror, em Budapeste, e ao Museu da Resistência de Varsóvia, na capital polonesa. História viva e chocante. O Vadim também fez excelentes fotos lá e cronizou todas. Se você não viu esse museu, ao menos virtualmente, não entrou na história de Chernobyl. Confira aqui.
Alguns fatos de Chernobyl, segundo o Greenpeace e a Chernobyl International:
CRIANÇAS:
> Hoje, na Ucrânia, 6.000 crianças nascem a cada ano com defeitos cardíacos genéticos. Mais de 3.000 morrerão por falta de atendimento médico.
> Crianças nascidas a partir de 1986 tiveram um aumento de 200% nos defeitos de nascença e um aumento de 250% em deformidades congênitas.
> 85% das crianças da Bielorrússia são consideradas vítimas de Chernobyl: eles carregam “marcadores genéticos” que poderiam afetar sua saúde a qualquer momento e podem ser transferidos para a próxima geração.
> O UNICEF constatou aumentos nas taxas de doença das crianças, incluindo 38% de aumento em tumores malignos, 43% das doenças do aparelho circulatório do sangue e 63% em distúrbios musculares, ósseos e de tecidos conectivos.
> Cada criança que vive em uma instituição, como um orfanato ou asilo para doentes mentais, recebe apenas 1€ por dia para viver.
> Em 2004, quase 26 por cento das crianças menores de 17 anos viviam abaixo da linha da pobreza.
> Mais de um milhão de crianças continuam a viver em zonas contaminadas.
SAÚDE:
> Sete milhões de pessoas que vivem nas áreas afetadas receberam a maior exposição à radiação conhecida na história.
> Médicos bielorrussos identificaram aumento no número de cânceres, incluindo um aumento de 200% no câncer da mama, 100% na incidência de câncer e leucemia, e um aumento de 2.400% na incidência de câncer de tireóide.
> As taxas de mortalidade entre a população já superam suas taxas de natalidade.
MEIO AMBIENTE:
> 99% da terra da Bielorrússia foi contaminada em diferentes graus acima dos níveis internacionalmente aceitos.
> 2.000 cidades e vilarejos foram evacuados, e mais de 400.000 pessoas foram realocadas de suas casas desde 1986. Décadas mais tarde, outros 70.000 estão ainda à espera de evacuação.
> A zona de exclusão, conhecida como “Vale da Morte”, foi elevada de 30 a 70 quilômetros quadrados. Nenhum ser humano jamais será capaz de viver nele de novo.
> Alguns dos contaminantes no solo e contaminar o ar, como o plutónio, tem uma meia-vida de 24.400 anos.
ECONOMIA:
> O custo da explosão de Chernobyl e suas conseqüências estão sendo realizadas pelos sobreviventes e serão entregues aos seus filhos por gerações.
> Os custos desastre de Chernobyl na Bielorrússia é de 20% do seu orçamento anual nacional.
> Estima-se que as conseqüências do desastre custarão à Bielorrússia 235.000 milhões de dólares.
> 5% dos adultos bielorrussos vivem com menos de 2,50 € por dia.
> 1,7 milhões vivem na pobreza, e 178.000 destas vivem em “pobreza extrema” (menos de metade do nível mínimo de subsistência)
> As crianças são o setor mais pobre da população, diante do risco 1,5 vezes maior de pobreza do que o nível médio em todo o país.
CHERNOBYL:
> O acidente lançou radiação 200 vezes maior que a liberada pelas duas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.
> Inicialmente, estimavam que 100 milhões de curies de radiação haviam sido lançados na atmosfera. Hoje, muitos cientistas acreditam que esse nível chegou perto de 250 milhões de cúrias.
> 70% da radiação caiu para a população de Belarus, afetando sete milhões de pessoas.
> Os cientistas temem que uma nova explosão possa ocorrer, produzindo uma força de 3-5 megatons, e expondo toda a Europa a enorme contaminação radioativa.
> 800.000 homens arriscaram as suas vidas e se expuseram a níveis perigosos de radiação para conter a situação.
> Pelo menos 25 mil desses homens morreram e 70 mil ainda estão desabilitados. 20% dessas mortes foram suicídios.
Tags: acidente, bielorrússia, chernobyl, tragédia, ucrânia
Mais um aniversário de Chernobyl…
abr 25, 2011 Ex-repúblicas, Na imprensa
Olha, nessa semana, já estava preparado pra enxurrada de matérias de/sobre Chernobyl. Como eu mesmo não tive tempo de preparar nada, aplico o princípio do ‘quem não sabe, bate palma’. Entre uma e outra coisa lida aqui, descobri que o camarada Rafael Maranhão, parceiro dos idos tempos de faculdade, tinha ido pra Ucrânia fazer uma cobertura especial. Fiquei preocupado quando soube da viagem do amigo pra Chernobyl, mas aí o cara falou que tomou as precauções e torcemos para que tudo permaneça bem.
Sobre o desastre nuclear, não há muita coisa nova para se falar. Mas vou reproduzir aqui a matéria do craque para o ‘Globoesporte.com‘. Aliás, bato palmas de pé, sobretudo para o lide da matéria, um dos melhores, mais sutis e sensíveis já escritos sobre a tragédia.
Pripyat fica no norte da Ucrânia, a duas horas de carro da capital Kiev e bem próxima da fronteira com a Bielorrússia. Tem um hotel de seis andares, um grande centro comercial, um centro cultural com salas de teatro e cinema, um parque de diversões e uma piscina olímpica coberta com área para saltos ornamentais. O que Pripyat não tem são moradores.
Vou postar somente um bom pedaço do texto. Mas recomendo fortemente que você clique aqui e leia o resto, além de ver a galeria de fotos. Vale a pena.
“Pripyat fica no norte da Ucrânia, a duas horas de carro da capital Kiev e bem próxima da fronteira com a Bielorrússia. Tem um hotel de seis andares, um grande centro comercial, um centro cultural com salas de teatro e cinema, um parque de diversões e uma piscina olímpica coberta com área para saltos ornamentais. O que Pripyat não tem são moradores. Há 25 anos, todos os 50 mil foram evacuados às pressas. Não faziam ideia do perigo que corriam com o acidente ocorrido um dia antes no reator 4 da central nuclear de Chernobyl que, de tão próxima, podia ser vista do topo dos edifícios onde viviam. Achavam que estariam de volta dentro de alguns dias e que assistiriam à inauguração do estádio de futebol da cidade. Viraram os primeiros refugiados de um acidente nuclear da história.
Quase uma década depois do acidente alguns moradores foram autorizados a voltar a Pripyat caso quisessem recuperar seus pertences. A maioria nunca pisou lá novamente. A cidade fantasma virou cenário de jogos de videogame, objeto de estudos científicos e ponto turístico. Entra-se lá apenas acompanhado de guias autorizados, que seguem de perto os passos dos visitantes para evitar a retirada de objetos contaminados pela radioatividade e atos de vandalismo, como os que danificaram bastante o interior dos prédios.
Hoje quem circula pela principal praça da cidade, antigo cartão postal de Pripyat com o centro cultural e o Hotel Polissya, são pequenas cobras que se escondem na vegetação contaminada. É difícil vê-las entre as raízes das árvores, até que a presença dos seres humanos faz com que se agitem e dispersem em busca de abrigo. Esse é o caminho até o ginásio central de Pripyat, localizado atrás do centro cultural. Na quadra, as balizas ainda estão no lugar para uma partida de handebol que ou foi interrompida ou nunca chegou a ser disputada.
O esporte mais popular ali, porém, era outro. As paredes de um dos lados da quadra, entre as portas dos vestiários, têm molduras cobertas com dezenas de fotos e recortes de jornais e revistas sobre jogos de vôlei. São imagens empalidecidas, faltando pedaços, em sua maioria registros de partidas da seleção da União Soviética. Numa é possível identificar que se trata dos então ainda recentes Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, em que os soviéticos conquistaram a medalha de ouro nos torneios masculino e feminino.
Do lado oposto da quadra, pelas janelas sem vidraça do ginásio central, surge a roda gigante que não se move desde 1986 e que virou marca da cidade abandonada. Logo atas dela vê-se os postes dos refletores do estádio de Pripyat, que estava em fase final de construção. Parque de diversões e estádio seriam inaugurados oficialmente no feriado de 1º de maio, Dia do Trabalhador e uma das mais importantes celebrações do período comunista. Cinco dias antes o reator 4 de Chernobyl explodiu espalhando resíduos radoativos pelo ar.
O estádio onde a bola nunca rolou seria a maior praça de esportes da região, com arquibancada central coberta e uma pista de atletismo ao redor do gramado. Até então havia apenas um pequeno campo nos arredores da cidade, com arquibancadas de madeira. Após o acidente, o novo estádio de Pripyat virou base para helicópteros de transporte dos soldados que arriscavam a vida despejando areia e chumbo para tentar conter o incêndio no reator. Eram medidas desesperadas contra um acidente sem precedentes, causado por uma falha no que deveria ter sido um teste de segurança. O estádio também foi usado como pista de pouso para retirada de doentes e feridos. Por isso, ainda é um dos locais com níveis de radiação mais altos da cidade.
Pripyat começou a ser construída em 1970, batizada com o nome do rio que corta a região e que motivou a escolha do local para a instalação do complexo de Chernobyl, a apenas 3 km de distância dali. Era uma das “atomograd”, as “cidades nucleares” projetadas para os funcionários das usinas e seus familiares, exemplos de modernidade e do sucesso do programa energético da antiga União Soviética. Pripyat foi elevada à categoria de município em 1979. A maior parte de seus moradores viveu menos de uma década lá.
Há sete anos, alguns deles resolveram criar uma comunidade virtual, o site Pripyat.com, que acabou virando um ponto de encontro dos que foram obrigados a abandonar suas casas em toda a área de exclusão de 30 km criada após o acidente nuclear. Os responsáveis pelo site tentam manter viva a história de Pripyat e lutam para que a cidade seja preservada como um museu ao ar livre, protegida contra invasores e com limites para atividades turísticas. Um dos idealizadores do movimento, o fotógrafo e ex-morador de Pripyat Alexander Sirota escreveu certa vez sobre o lugar de onde veio.”
O resto está aqui.
Tags: acidente, atômica, chernobyl, globoesporte, matéria, nuclear, rafael maranhão
Brincadeira mortal: vale visitar o buraco negro ‘Chernobyl’?
mar 16, 2011 Ex-repúblicas, Na imprensa
Hoje vi na Globo News a chamada para um especial sobre os 25 anos do acidente nuclear de Chernobyl. Fiquei um pouco chocado ao saber que (mais) um repórter (nosso, o Marcos Losekann) esteve por lá. Claro que sei que repórteres vão a Chernobyl o tempo todo. E repórteres, fotógrafos, escritores, curiosos, o diabo a quatro… Enfim, quero muito assistir ao programa – embora tenha certeza de que tudo que possa ser compreensível aos não-cientistas já tenha sido escrito, dito e mostrado. Sempre acompanhei bem de perto o tema, fiz entrevistas, conheci pessoas, bati papos e tentei ir lá algumas vezes. Felizmente, e o tempo provou isso, não deu certo.
Chernobyl e outros lugares ‘proibidos’ do planeta são o sonho de qualquer repórter. Mas o palco da maior tragédia causada pelo homem na História é um buraco negro. Lembro que todas as teorias sobre os efeitos da radioatividade são hipotéticas. Afinal, nunca ninguém viveu ou nenhum estudo durou centenas de anos para atestar isso. As primeiras experiências datam do final do séc. XIX, embora teorias já tenham sido formuladas mesmo antes de Cristo. E nunca houve um desastre nuclear das proporções da ucraniana. A ação da radiação na natureza – e no ser humano – é pura especulação, assim como a meia-vida dos elementos. É como estipular a duração de um CD, ou de uma LCD, ou mesmo de quanto tempo você pode ficar exposto a uma TV de tubo.
Logo após a tragédia na usina de Chernobyl, diziam que nunca nada iria nascer por lá, e isso já caiu, literalmente, por terra. O ‘decaimento’ dos elementos acontece de forma mais rápida que o previsto, assim como a absorção dos mesmos pelo ambiente. No entanto, não se sabe como e até quando isso influencia e vai influenciar a vida – em todos os seus aspectos – por lá.
Voltando ao programa, Losekann diz que ficou ‘exposto’ 15 minutos, que é o tempo máximo de tolerado. Isso ao redor do sarcófago, construído sobre o reator que explodiu e jogou no ar uma nuvem radioativa que se espalhou pela Europa. No total, ele diz, você pode ficar até 4h, deixando aí uma enorme margem de segurança, já que o cálculo de exposição não-letal máxima seria ficar 12h sob ataque da radiação. Dizem que o núcleo fusionado do reator ainda está ativo, e isso implicaria numa reação ainda não conhecida e pouco estudada pelo homem. Logo, uma cógnita teórica, mas uma incógnita prática. Pelo menos a gente já sabe que a ‘Síndrome da China‘ é uma enorme ficção.
O repórter passou pela máquina que detecta radioatividade. Ucraniana. Um amigo alemão, repórter também, foi a Chernobyl alguns anos atrás. Levou consigo um aparelho medidor de radiação alemão. E ficou estarrecido com as discrepâncias entre a aferição dos equipamentos locais e de seu próprio. Nem precisa dizer que ele pagou (muito caro) pelo tour e guia, e este insistia que tudo era ‘seguro’… Dica 1: leve seu medidor de radiação.
Losekann cita também o caso dos moradores que ficaram na ‘Zona Morta’, por dizerem que ‘não sentem cheiro de nada, não veem nada’. E diz que é justamente isso que é o perigo da radiação. Achei curioso ele estranhar isso e estar incorrendo no mesmo erro, na minha opinião. Recomendo o textinho ‘um pouco sobre radiação’, abaixo.
Já falei com um bocado de gente – e fiz outras tantas entrevistas com gente de lá, que morou lá e que estuda lá, na ‘Zona de Exclusão’. Todos, todos foram unânimes: Pripyat é um perigo, Chernobyl é um lugar morto e que deveria ser, no máximo, estudado, jamais espetacularizado. Os ‘guias atômicos’, que existem desde o fim da União Soviética, usam medidores de radiação adulterados, os equipamentos ucranianos são ultrapassados e os banhos químicos, falsos. As roupas têm eficácia duvidosa e a segurança é uma piada. Lembro que, por mais que digam, NADA é oficial. E se você vai depender de tradutores, uma arapuca é inevitável.
Então, se você realmente não tiver muito amor à vida e for a Chernobyl, mais uma dica: segundo os experts no assunto, não saia da trilha, não ande onde nunca se andou e não toque em nada que não tenha sido tocado. Andar um metro fora do caminho, respirar uma poeira assentada há anos, pode significar uma exposição a matéria radioativa até 10 mil vezes superior ao tolerável por um ser humano. É assim que a Elena Filatova, uma outra figura polêmica e acusada de ser fraude, frequenta a área. E segue viva. Por enquanto…
Desta forma, a condução de estudos na região é altamente controlada e perigosa. Daí, as recorrentes revisões sobre pesquisas anteriores. Volto a dizer: Chernobyl é um buraco negro e a efetividade de toda medida de segurança tomada por lá é uma incógnita. Como funciona, se funciona, pode-se apenas especular. Para piorar, recentemente, o governo ucraniano, desesperado com um estado falido e ávido por qualquer receita, anunciou que pretende estimular o turismo na ‘Zona Morta’, e até ‘agricultura controlada’. Uma bizarrice, uma estupidez absolutamente sem tamanho que, certamente, não será seguida pelo Japão, caso um acidente nuclear venha a se repetir.
Em suma: o programa sobre Chernobyl vai ser ótimo. Mas… Valeu a pena?
Recomendo esse texto, para você ver que tudo sobre Chernobyl é um macabro ‘mais do mesmo’, onde o homem coloca sua sanha, sua curiosidade mórbida em ação. E este, para você ver que muita coisa sobre Chernobyl é falácia.
Algumas coisas que aprendi sobre a radiação
Lembre-se: você não respira radiação. Você não é contaminado pela radiação. Você é contaminado por elementos radioativos.
A radiação alfa é aquela que não vai muito longe – apenas alguns metros e é bloqueada por uma simples folha de papel ou pela primeira camada de pele -, mas é absurdamente danosa. Quando uma partícula que emite radiação alfa pousa em algo, se dá a ‘contaminação’. Se você inspira poeira contaminada, seu corpo praticamente vai sendo destruído por dentro, enquanto as células são arrasadas pela interação das partículas. A radiação alfa é 20 vezes pior que as outras, pois ela ‘rasga’ átomos, no processo chamado ‘ionização’.
A radiação beta se propaga por distâncias maiores, mas é menos danosa. Vai alguns metros mais longe, mas pode ser bloqueada por uma pequena camada de chumbo. Ela pode penetrar na pele, até a camada primária, onde danifica a criação de novas células (gerando tumores e queimaduras, no longo prazo). Tem potencial ionizante menor que a alfa – rasga menos átomos.
Mas temos que ter em mente uma coisa: se ela se propaga melhor, vai danificar menos, claro, mas danifica MUITO MAIS células. E mais células danificadas podem ser tão destrutivas quanto poucas células aniquiladas. Mas seus perigos são maiores se inalada ou ingerida. É por isso que a radiação beta é a mais utilizada para tratar o câncer: imagine, as células cancerígenas se multiplicam muito mais rápido que as células normais. Logo, uma emissão beta vai danificar mais células cancerosas e menos células normais, em seus processos de reprodução. Essa ‘matemática fatal’ diz se um paciente sobrevive ou não.
A radiação gama é emitida pelo decaimento das radiações beta ou alfa. Ou ambas. Normalmente, ela atravessa nossos corpos e tudo o que há pela frente. Num voo internacional, você é bombardeado por radiação gama. Ou seja, ela é cumulativa, e é como um raio-x, que pode ser bloqueada por uma grossa camada de chumbo. A radiação gama é usada para medir, esterelizar e ‘ver’ dentro de pacientes, com ajuda de reagentes.
Então, por que a radiação gama é mais perigosa que a alfa e a beta? Simples: ela ultrapassa tudo, ultrapassa nosso corpo, ionizando tudo e propagando mais energia. Por isso ela é cumulativa. Por outro lado, as radiações alfa e beta não ultrapassam nossos tecidos. Causam danos com maior frequência à pele, mucosas, olhos, boca e nariz. Seu perigo é sua inalação/ ingestão. Compare a radiação gama com levar um tiro e as alfa e beta com levar pequenas pedradas: são necessárias muitas pedrinhas para te matar, mas basta um tiro.
Daí, concluímos que as radiações alfa e beta são como ‘bombas-relógio’. Vão atuando silenciosamente, às vezes por anos, até que explodem com tumores e mutações. A radiação gama pode te matar em horas.
Com um medidor de radiação, você conta o que o ambiente ao seu redor emite. Mas você não pode mesurar a quantidade de partículas alfa e beta que você respira. E esse é justamente o perigo de Chernobyl. Quando o medidor grita, já é tarde: você já inalou elementos contaminados demais.
Gosto de um exemplo que a Elena Filatova dá: a gente poderia jogar bilhar com bolas feitas de puro plutônio. A radiação beta emitida viaja, no máximo, por 12 centímetros. E não penetra tecidos, por ter muita massa. Logo, ela ficaria retida nas células mortas que cobrem nossa pele. O problema seria engolir uma dessas bolas, por acidente…
Tags: acidente, chernobyl, globonews, losekann, pripyat, radiação, radioatividade, tragédia, usina nuclear
Turismo em Chernobyl é piada de péssimo gosto
dez 14, 2010 Ex-repúblicas, Turismo
Chernobyl é um assunto com o qual sou muito reticente. E a notícia de que a Ucrânia planeja, de alguma forma, explorar a zona de exclusão para um tipo de turismo extremo me deixa mais cabreiro ainda. Como assim, uma das maiores tragédias da humanidade, vai virar atração? Nem se tem ideia dos riscos reais da usina para a região, que dirá para visitantes.
Bom, como eu disse, sou reticente. Cheguei perto demais de ter um envolvimento pessoal e físico para aceitar isso. Explico: em 2002, se não me engano, tinha agendado a viagem, tudo certo. Só faltava o visto ucraniano. Que, por dessas razões cósmicas, acabou não saindo. Melhor. Pesquisando e falando com algumas pessoas, tempos depois, descobri que, se tivesse ido, talvez esse blog seria psicografado.
O fato é que nem as autoridades ucranianas – e nem as autoridades bielorrussas – têm ideia do que acontece por lá. Trata-se de um enorme buraco negro dentro do planeta Terra. Há muito estudo, muita especulação, e pouco fato concreto. Teorias sobre exposição, sobre meia-vida, sobre não-ionização, sobre a atual situação do reator e do sarcófago pipocam a cada momento. Por outro lado, a gente sabe que a Ucrânia enfrenta uma gravíssima crise econômica, já tendo, inclusive, feito uma espécie de chantagem com o resto do mundo: ou vocês financiam essa herança maldita – a construção de um novo sarcófago sobre o reator que explodiu – ou as consequências serão sentidas por todos.
ONGs dizem que é impossível contar o número de vítimas diretas ou indiretas do acidente com o reator 4, ocorrido em abril de 1986. O fato é que mais de 130 mil pessoas foram evacuadas de suas casas nas cidades mais próximas, após uma explosão 500 vezes mais potente que as bombas de Hiroshima e Nagasaki juntas. Hoje, trabalham nas instalações cerca de 2.500 funcionários da Ucrânia e de entidades internacionais. Sabe-se lá em quais circunstâncias.
Com a crise, o governo é pressionado para abrir uma área controlada num raio de 50km ao redor do reator, para quem esteja disposto a pagar por isso. O detalhe é que, mesmo com algumas dezenas de ONGs e empresas de turismo provendo passeios pela ‘zona morta’, oficialmente, nunca ninguém que não estivesse em missão oficial esteve lá.
Os poucos tours – e aí eu aconselho aos amigos que, se tiverem essa vontade, esqueçam -, são enormes falcatruas. Usam aparelhos viciados, dão falsos banhos químicos, manipulam dosímetros e oferecem trajes inadequados. Lembro que a Elena Filatova, uma das referências no assunto, alertou: ‘Circular 1 metro fora do traçado determinado pode significar uma dosagem de radiação até mil vezes maior que o tolerável’. Isso pode determinar a diferença entre a vida e a morte (lenta e sofrida, na maioria das vezes)
Por isso, deixo o alerta: turismo em Chernobyl, jamais. E, se o governo da Ucrânia oficializar, aí mesmo é que você não deve confiar.
Tags: acidente, bielorrússia, chernobyl, nuclear, radiação, ucrânia, zona de exclusão
Namorada de Mel Gibson pede ajuda para Chernobyl
dez 16, 2009 Ex-repúblicas
Ontem, vi um vídeo com uma iniciativa legal. A namorada de Mel Gibson, a russa-ucraniana Oksana Grigorevna, em conjunto com a Chernobyl Children’s Project International (Projeto Internacional para as Crianças de Chernobyl), pede ajuda para a campanha. Achei bacana ela usar sua recente popularidade para chamar atenção para um tema chocante e muito importante. E pouca coisa nesse mundo poderia ser mais chocante que a tragédia de Chernobyl.
Segundo a CCPI, Ucrânia e Bielorrússia têm hoje cerca de 6 mil crianças com doenças cardíacas de origem genética – causadas pela radiação remanescente do acidente. Os dois países têm capacidade apenas para operar um quarto desse número e conta com a ajuda da comunidade internacional para que as outras não morram.
O vídeo, apesar de obviamente triste e chocante, mostra algumas das crianças antes e depois das operações. A iniciativa da Oksana é bacana, e torço aqui para que a organização seja séria e ajude a terminar com o efeito dominó que a radiação causou na população. Maiores informações podem ser obtidas pelo email do CCPI, que é info@chernobyl-international.org, ou na página deles, http://www.chernobyl-international.com. E eles recrutam profissionais da área médica para ajudar com trabalho voluntário.
E a ajuda da nova Sra. Mel Gibson veio junto com uma notícia muito triste: segundo a revista Wired, o césio e o plutônio espalhados pela ‘zona morta’ – área contaminada pela radiação após a explosão da usina – não estão decaindo. Suas meias-vidas (tempo estimado para que o elemento perca metade de suas propriedades radioativas) eram de 30 anos, mas 23 anos depois, eles continuam bombardeando sem perder força. E os cientistas não sabem explicar. A nova estimativa de tempo, para que a área seja repopulada com segurança, hoje é de 320 anos. No mínimo.
Confira o vídeo da Oksana:
Tags: acidente, chernobyl, crianças, nuclear, oksana grigorevna, radiação
























