O céu sob o coração: rockdoc imperdível do DDT
mar 28, 2012 Cultura, Vida na Rússia
Nesta terça-feira, 27/03, aconteceu a première do novo filme/documentário/show do DDT, talvez a maior banda do rock russo de todos os tempos. A sessão de “Небо под сердцем” (Nebo pod sertsem, ou “O céu sob o coração”) aconteceu no cinema 35mm, um dos melhores de Moscou, que também recebe o Festival Brasileiro de Cinema. Sobre o DDT e seu líder/compositor/vocalista Yuri Schevchuk eu já escrevi muito, em vários posts, mas nunca é demais falar deles.
Shevchuk x Putin: inteligência e poder cara a cara
Nascidos na URSS: um pouquinho do mundo DDT
As músicas ‘desencorajadas’ que criticam Putin
Primeiro álbum solo do líder do DDT
Pelo que andei lendo, o filme é dividido em duas partes: a primeira traz um show da banda, gravado no “Olimpiiskii”, em Moscou, dia 9 de novembro de 2011. Além do concerto, também são mostrados pedaços da vida artística do grupo, bastidores, brincadeiras, discussões e escolha de repertório. Se a forma parece repetitiva, o formato é uma novidade para o grupo, que contou com uma superequipe, comandada por Yuri Burak, que não faz quaisquer entrevistas com os músicos. Deixa a ação correr, no melhor estilo documentário/reality show.
Em entrevista à “Novaya Gazeta” (talvez o único jornal relevante na Rússia que não pertence ao estado), Burak diz que o foco, claro, é Schevchuk. “Não queríamos que o filme repetisse informações que existem na internet, como os atos políticos e a conversa de Schevchuk com Pútin, por exemplo. Queríamos fazer um cinema informal, mostrar o lado artístico, de poeta e músico dele, mas também como político. Afinal, ele próprio diz ‘minha política é minha música’. Todos os seus pontos de vista ele coloca em seus versos e em suas performances”.
É claro que ainda não vi o filme, mas já está na lista que Paul Torrentóvski vai trazer das estepes. Por enquanto, algumas fotos e o trailer. Se você quiser ler um review legal (em russo), dá uma espiada nesse aqui, do blog campeão nashrock.
Tags: ddt, nebo pod sertsen, rock, schevchuk, небо под серцем
As músicas ‘desencorajadas’ que criticam Putin
out 2, 2011 Cultura
Como todo mundo ficou sabendo – oficialmente, claro -, essa semana o premiê russo Vladimir Vladimirovitch Putin (V.V. ou Vova, para os amigos), decidiu se candidatar à presidência da Rússia. O ex-agente da KGB já ocupou o posto mais importante da Rússia de 1999 a 2008, e desde então se mantém no poder como primeiro-ministro.
Seus críticos o acusam de ser autoritário, ditatorial e forjar uma democracia, nos mesmos moldes de Hugo Chávez. Seus defensores dizem que ele restaurou o ‘orgulho russo’, reconstruiu o país e prendeu boa parte dos ladrões e oligarcas que chupinharam o espólio da União Soviética.
Já Yuri Shevchuk é a voz do DDT, uma das mais importantes e lendárias bandas de rock de todos os tempos da Rússia (já falei deles aqui), e ferrenho representante da oposição a Putin. Seu último embate foi memorável. O fato é que, em vez de tentar analisar o momento político do presidente, posto aqui duas músicas do Shevchuk que, senão censuradas, tiveram sua execução desencorajada nas rádios. São críticas bem ácidas. Muito melhor que um analista, a gente precisa saber o que os artistas pensam…
Когда закончится нефть
Когда закончится нефть
Ты будешь опять со мной
Когда закончится газ
Ты вернешься ко мне
Мы посадим леса
И устроим рай в шалаше
Когда закончится все
Настанет объем в душе
Когда закончится нефть
Наш президент умрет
И мир станет немного свободней
А слезами гренландский мед
И проиграв эту битву
Мерседесы сдадут ключи
И вновь оседлают коней
Герои вынут свои мечи
Когда закончится все
Настанет век золотой
И мы снова будем летать
Без огня за своей спиной
А наши крылья окрепнут
И наши помыслы станут чисты
Когда закончатся все деньги
И все банки, блин, будут пусты
Мух глобальных проектов
Рыба сожрет в реке
И страна заживет
На своем родном языке
Рухнет вся безопасность
И зло завистливых глаз
Нам будет легче дышать
Когда закончатся нефть да газ
И мы вновь научимся любить
И дружить со своей головой
И прекратится эта чертова халява
И наши вечные ссоры с тобой
И все кащеи и ведьмы
И все будут молиться за нас
Когда мы выпьем всю нефть
Когда мы выкурим этот, блин его, газ.
Quando se acabar o petróleo
Quando se acabar o petróleo
Você estará novamente comigo
Quando se acabar o gás
Você voltará para mim
Nós usaremos madeira
E construiremos o paraíso em uma cabana
Quando tudo se acabar
Começará uma plenitude na alma
Quando se acabar o petróleo
Nosso presidente morrerá
E o mundo ficará um pouco mais livre
Com lágrimas de mel de uma terra verde
Tendo perdido essa batalha
Mercedes entregarão suas chaves
E outra vez selarão cavalos
Herois erguerão suas espadas
Quando tudo se acabar
Começará uma era de ouro
E iremos voar outra vez
Sem fogo nas nossas costas
E nossas asas endurecerão
Nossos intentos purificarão
Quando se acabar todo o dinheiro
E todos os bancos, droga, ficarão vazios
Moscas de projetos globais
Peixes devorarão no rio
E o país reviverá
Em sua língua nativa
Todos os perigos desmoronarão
E o mal de olhos invejosos
Ficará mais fácil respirar
Quando se acabarem o petróleo e o gás
E nós reaprenderemos a amar
E ficarmos em paz com a consciência
E acabará essa brutalidade infernal
E as brigas eternas entre nós
E todos feiticeiros e bruxas
Todos irão rezar por nós
Quando nós bebermos todo esse petróleo
Quando nós fumarmos todo esse maldito gás
В гостях у генерала ФСБ
Я пил вчера у генерала ФСБ
Он был могуч, как вся его квартира
Я пил в бассейне, кабинете, бане, тире и т.д.
Я ценил фаянс японского сортира…
Я пил в бассейне, кабинете, бане, тире, всё без Б…
Я ценил размах японского сортира…
“Ты что, поешь? Да, вроде бы пою…
Твои коллеги – дрянь да пидорасы
Я этот юмор бы собрал разок в ГУЛАГовском раю
А ты ниче, талантливый очкастый
Я этот юмор бы собрал разок в ГУЛАГовском раю
А ты ниче, ты наливай, очкастый”
“Ну что, сынок, давай поднимем за В.В.
Хотя достал он нас конечно тоже
Мы все имеем: дачи, стражу, уваженье и лавэ
Но так хотелось, чтоб страна цвела построже…”
“Державу рвет от олигархов и воров
Мы скоро спросим всех и все за все ответят
Я умереть за нашу Родину несчастную готов
Но к сожаленью есть семья и дети
Да, славу Богу, демократии пиздец
Давай, чтоб Русь цвела, да вера пела”
Я после третьей осмелел, спросил: “На чьи труды дворец?”
А он ответил “Не твоё собачье дело”
Я после пятой осмелел, спросил: “На чьи труды дворец?”
А он ответил “Эх, сынок, блин ***”
Мы пили за Чечню и за Афган
Под водку шли объятья и маслята
И думал я очкастый, смирный, небогатый ветеран
Средь генералов есть кайфовые ребята
И думал я очкастый, смирный, небогатый ветеран
Средь генералов есть фартовые ребята
Под утро он вовсю уже рыдал
То ставил к стенке, то гадал на партбилете
Но самой страшной главной тайны к счастью вам не рассказал
Ведь у меня свои семья и дети
Я завтра пью у адмирала МВД…
Eu ontem bebi na casa do general da FSB
Eu ontem bebi na casa do general da FSB
Ele era poderoso, como parecia todo seu apartamento
Eu bebi na piscina, no escritório, na sauna e por aí vai
Eu avaliei até a faiança de uma latrina japonesa
E você o quê, canta? Sim, eu penso que canto
Teus colegas são uns lixos, uns pederastas
Eu enfiaria esses tipos num Gulag no fim do mundo
Mas você tudo bem, é um quatro-olhos talentoso
Eu enfiaria esses tipos num Gulag no fim do mundo
Mas você tudo bem, serve mais aí, quatro-olhos
E aí, filho, vamos brindar ao V. V.
Mesmo que ele também já tenha nos enchido
Nós temos tudo: dachas, guardas, respeito e Love
Mas mesmo assim queríamos que o país estivesse mais forte
O estado é dilacerado por oligarcas e ladrões
Nós inquirimos todos e todos a tudo respondem
Eu estaria pronto para morrer pela nossa infeliz pátria
Mas, infelizmente, tenho família e filhos
Mas, graças a Deus, a democracia se fudeu
Vamos lá, que a Rus floresça, e a verdade cante
Após o terceiro brinde eu criei coragem e perguntei:
‘De onde veio esse seu palácio?’
E ele respondeu ‘não é de sua conta, cachorro’
Após o quinto brinde eu criei coragem e perguntei:
‘De onde veio esse seu palácio?’
E ele respondeu ‘eh, meu filho, cacete ***’
Nós bebemos ao Afeganistão e à Chechênia
Sob a vodka seguiam-se abraços e petiscos
E eu pensei sou um pacífico, humilde e quatro-olhos veterano,
Entre os generais existem pessoas legais
E eu pensei sou um pacífico, humilde e quatro-olhos veterano,
Entre os generais existem pessoas de aventais
Já de manhã ele soluçava por todos os lugares
Ou encostava na parede, ou
mas o mais medonho e importante segredo eu não lhes revelei
Eu tenho a minha família e filhos
Eu amanhã beberei na casa do Almirante da Marinha…
‘My Perestroika’: será que é mais do ‘antes era melhor’?
nov 23, 2010 Cultura, Língua Russa, Vida na Rússia
Hoje, a amiga Clarice me lembrou de um filme que tou há tempos pra postar aqui sobre. Trata-se de ‘My Perestroika’ (de Robin Hessman), uma espécie de ‘documentário-reconstituição’ da vida na União Soviética, feito a partir de relatos de alguns personagens que nasceram sob a URSS, cresceram em meio à ‘perestroika’ e agora vivem na espécie de limbo ‘capitalista-selvagem-niilista-monarquista’ que é a Rússia (e Ucrânia, Bielorrússia, Azerbaijão, Uzbequistão e ex-RSSs afins.)
Como ainda não vi o filme, dei uma espiada em algumas resenhas na internet. Achei essa aqui bem interessante. Me parece que traçar um paralelo entre os 2 lados da então ‘Cortina de Ferro’ é uma ideia interessante, porém arriscada.
Também confesso que já meio que tendo a torcer o nariz pra esses docs de americano-inglês. Já torço quando eles fazem sobre a vida aqui no Brasil, idiotizando a vida no Nordeste ou nas favelas, ou nas duas coisas. Passei a torcer também quando eles fazem sobre a ‘vida no mundo dos comunistas’. Ora, eles ainda têm medo do comunismo (vide a reforma no sistema de saúde dos EUA). Ainda não atingiram uma independência moral pra analisar muita coisa.
Mas vamos ver, vamos ver. Esse doc pelo menos parece honesto, com algumas histórias honestas. O fato é que, hoje, por lá, muito pouco se glamuriza a URSS. No interiorzão, até tem uma saudade – o famoso раньше было лучше ‘ran’she bylo luche’ (‘antes era melhor’, famosa frase, usada pelos saudosistas em referências à URSS) – mas no geral as pessoas sabem, mesmo lá no fundo, que o saldo atual é positivo.
Mas o fato é que, entender a URSS, pouca gente hoje ainda entende. Pensa bem: quem está na casa dos 30 anos, ou daí pra baixo, viveu muito pouco sob a égide do partidão. Quem tem entre 30 e 50, geralmente, toca algum ‘business’ ou tem alguma ‘herança’ do regime do povo, logo, vive razoavelmente bem. Quem lembra mesmo, com ‘toska‘, são os velhinhos. Mas, levando-se em consideração que a média de vida do homem na Rússia é de 55 anos, e a da mulher é 68… Faz a conta aí e você vê que saudade da URSS, por lá, é algo em extinção. E, se pra eles mesmos ainda é complicado, imagina prum estrangeiro…
Ah, só pra esclarecer: muita gente ainda teima em achar que ‘perestroika’ tem um enooorme significado semântico. Nem. Significa puramente ‘reconstrução’. Depois do Gorbachev, claro, ganhou esse ar de ‘ERA’, a ‘Era da Perestroika’. Mas, assim como ‘glasnost’, que significa ‘transparência’, é uma palavra que você vai ouvir um zilhão de vezes na vida cotidiana regada à língua russa, sem ter a menor relação com a política.
Outra coisa: ‘My Perestroika’ é uma puta referência a um dos hinos do fim da URSS, a música ‘Moya Perestroika, mama’, do grupo ‘Chizh & Co.’. Assim como Рожденный в СССР (‘Rozhdenyi v SSSR’), do DDT, acho que são duas DAS músicas do (fim do) tempo. Aliás, vale lembrar que eu acho ‘Rozhdenye v SSSR’ um dos melhores álbuns da história, com uma capa simplesmente chocante…
… da mesma forma que o hino extra-oficial da URSS era Мой адрес Советский Союз ‘Moi adres Sovetskii Soiuz’ (Meu endereço é a União Soviética), do grupo ‘Samotsvety‘ (Самоцветы). Era A canção e até hoje todo mundo para pra cantar. Então, se você tá estudando russo, trata de aprender essa música. É a hora do êxtase do ‘ran’she bylo luche’!
Tags: Chiz, ddt, filme, musica, my perestroika, Samotsvety, urss
Стих
ago 18, 2010 Língua Russa
Если был ты, старик, на неправой войне, Что ответить тебе? Я тебе не судья, не герой и не врач. Я одно знаю точно: Ты не был неправ, подыхая в пыли чужой, Когда ты молчишь, я верю в одно - ветры с тобой. (Ю.Шевчук)
Moscou não se construiu de uma vez
mai 25, 2010 Turismo, Vida na Rússia
Agora tou aqui em Moscou e, não importa o quanto de coisas legais e bizarras que eu veja, enquanto gasto a sola do meu sapato novo pelas prospekts e ulisas, chego à conclusão – junto com a genial e agora oficialmente mestre Marina – de que gostar dessa cidade, só de duas formas: ou a cidade fez macumba ou há um certo quê de que há um tipo de masoquismo que só as pessoas teimosas têm…
Enquanto tento arrumar tempo para começar a contar as histórias, postar fotos e vídeos daqui, vou dividir com vocês duas músicas que, na minha humilde opinião, são a cara dessa cidade apaixonante e cruel. A primeira vem DO filme que traz A definição do que é essa cidade. Embora tenha sido feito em outros tempos, ainda continua estranhamente atual. ‘Moskva slezam ne verit’ (Moscou não crê em lágrimas). A letra da música está aqui, para os russófilos e googletranslatófilos.
A outra é mais de um plano romântico-melancólico, do filme ‘Antonina obernulas’, que nem sei se saiu no Brasil. É uma poesia absoluta, que ainda tem o ritmo da cidade, não importa quantos porsches e ferraris você veja na rua, ou quantas pessoas te empurrem no metrô. A letra está aqui.





















