Brasil coberto de neve e os bêbados na Rússia
jul 22, 2010 Na imprensa
Mais do que ninguém
eu sei que a gente precisa vender jornal. Aí precisa de um fato e
precisa dum colorido bom. Quer coisa melhor do que russos sofrendo com
calor, se embriagando e morrendo afogado no mar? Bom, se quiser, tem.
Brasileiros sofrem com nevascas, que cobrem todo o país em temperaturas
de até -20ºC.
Acha exagero? Pois é. Da mesma forma que a gente generaliza aqui,
dizendo que os pobres cossacos estão derretendo no calor absurdo de 35º,
40º, eles estão chocacos com as absurdas imagens da neve cobrino o
ensolarado Brasil, terra de macacos selvagens e de Copacabana. Os
russos, no Brasil, estão combinando seu eterno hábito de enxugarem
litros de vodka com refrescantes banhos em rios e mares, com os quais,
obviamente, não estão acostumados. Daí, centenas de afogamentos. Um
genocídio da Natureza.
Já os brasileiros estão morrendo como gado, sem ter como se aquecer
com o inexplicável e apocalíptico frio que assola o país tropical.
Provavelmente, não vai ter carnaval (que acontece no VERÃO) e os carros
já não rodam mais.
Exagero? Não, não. É a verdade. Que é publicada diariamente nos
jornais de lá e de cá. Todo mundo acredita. E nem 1 nem 2 russos, mas
vários, já vieram me questionar e prestar solidariedade pelas vítimas da
onda de neve e frio em meu amado país. Ao mesmo tempo, eu transmito os
sentimentos de toda uma nação morena de sol aos irmãos que, inaptos ao
mar e ao calor, afogam seu sofrimento em álcool e morrem nos braços de
‘Iemanjovna’ – adaptando para o russo a divindade semi-africana Iemanjá.
Bom, toda essa ironia pra dizer que a gente precisa ter crítica. A
informação circula e vai sendo retocada para ficar interessante. Mas,
vamos e convenhamos, há um limite né?
Você pode ler (em russo) sobre como o Brasil virou tema cotidiano na Rússia aqui, aqui, aqui e aqui. Detalhe para as fotos… Eu costumava dizer que, tão parecidos que somos com eles, o Brasil é a Rússia no forno. E a Rússia é o Brasil na geladeira. Agora, não sei mais quem é quem….
Quem foi que disse…
mai 26, 2010 Vida na Rússia
…que não venta em Moscou? Só pra me sacanear, tá um vento soprado pelo cão aqui. Ontem andei uma hora pela Leninskii prospekt e fiquei com as pernas doendo de tanto fazer força pra ir contra o dito cujo. E a temperatura esta tipo, com um dígito. Isso significa que minha boca já passou do estagio de estar ressecada e meu olho acho que ta queimado. Sem contar que eu, gênio, tirei todos os casacos da mochila antes de vir pra cá.
Como frio pouco é bobagem, hoje ainda teve uma chuvinha pra dar aquela ensopada, antes do vento gelado dar aquela soprada. Hoje dei um pulo no canal Russia Today – um dos meus favoritos e vou falar disso depois -, que fica no Zubovskyi Bul’var, metrô Park Kultury, linha radial. Não lembrava que ali era o cruzamento mais bizarro do universo. Pra você, amigo paulistano, ter uma ideia, são duas mãos, cada uma com SETE pistas, que quando cruzam com outras duas ruas (a Burdenko e a Zubovskaya) fazem a maior zona da Via Láctea. Se não estivesse chovendo para canudo, teria tirado ótimas fotos. Os russos têm uma habilidade ao volante ímpar. Fechavam o cruzamento de formas que você não consegue imaginar. Eu não sabia que os Pajeros e Mercedes tinham tanto jogo.
E pra atravessar o maldito bul’var, perto do predio da Ria Novosti? Exatos 10 minutos até o sinal abrir para pedestres. Dez minutos. E tinha 1 minuto e meio para atravessar sei lá, 14 pistas. E um engarrafamento que eu não via o fim. E a maioria dos carros tinha uma buzina, digamos, potente… Enfim,o Zubovskii Bul’var, com o Sadovoe Kolso, perto do prédio da Ria Novosti, em frente à livraria Bukva, é um lugar que você TEM que visitar, na hora do rush.
Ah, e agora o termometrinho da janela mostra 6 graus e tem uma vovó no banquinho em frente a minha janela só com um trapo no ombro. Tento ser educado e evitar mat, mas não dá: ohuyet prosto…
Vou ali enfiar a cabeça no micro-ondas e já volto.
Nevasca histórica, 1700km de trânsito e dicas contra o frio
dez 22, 2009 Trânsito, Vida na Rússia
É o frio. Ontem, segundo os institutos de meteorologia, muitas cidades da Rússia tiveram a maior nevasca dos últimos 130 anos. E, provavelmente, da história, já que, vai saber, como essas coisas eram medidas no tempo do onça. A média de temperatura foi de -22ºC com sensação térmica na casa dos -30º. Bom, o fato é que, quem mora lá, esta comendo o pão que o ‘chert’ amassou. E congelou. Se você é brasileiro e planeja conhecer a Rússia, é melhor pensar duas vezes. Com esse frio, tudo pode acontecer. E o que é pior, pode não acontecer.
Para se ter uma ideia do que aconteceu, ontem a capital russa parou. De acordo com o nosso índice ‘Yandex. Probki’, uma espécie de CET de lá, que mede o a fluidez do trânsito, foram 1700 km de trânsito parado em Moscou, quase a mesma distância de Moscou até Ekaterinburgo – para efeito de comparação, o recorde de SP gira em torno de 300km.
E o tão eficiente metrô também foi a nocaute: as estações ficaram absolutamente lotadas, já que os trens circulavam com intervalos de até 20 minutos, quando o normal é 90 segundos… Os aeroportos também funcionaram ao ‘Deus dará’: quando a pista era limpa e a nevasca dava uma trégua, eles despachavam o máximo de aviões possível. Voltou a cair gelo, fecha tudo de novo.


Sei que essas dicas são lá meio inúteis, já que poucos vão experimentar esse frio ao menos uma vez na vida, que dirá viver sob ele. Mas coletei aqui e ali umas info interessantes sobre como viver nesse ambiente para lá de inóspito.
Para começo de conversa, você deve estar se perguntando: as coisas funcionam? A resposta é: sob essa temperatura, não. Eletrônicos, coisas mecânicas e hidráulicas congelam a partir de -20ºC. Então, se você viajar e pegar esse frio, nada de sacar a máquina digital ou analógica, MP3 players, kindles e afins. Fundamentalmente, graças às baterias de íon-lítio, que perdem a propriedade abaixo de 5º em questão de minutos – baterias de níquel-cádmio, no entanto, têm resistência maior.
Outro problema para os aparelhinhos eletrônicos são os CIs – circuitos integrados. Potenciômetros, resistores e mesmo as soldas tendem a queimar/abrir quando você tenta ligar seu aparelho num ambiente de temperatura negativa. Ora, ele vai pular de -10 para +30. E eles não foram feitos pra isso. Logo, se você precisa usar seu note, chegue a algum lugar quente, espere uns minutos e mande brasa.
Já os celulares têm outro problema, além da bateria: o teclado. Seus contatos são de cobre, que perde a flexibilidade/contato abaixo de zero. Novamente, espere alguns minutos antes de usar. Como via de regra, quanto mais caro é seu ‘gadget’, menos chance ele tem de funcionar no frio. Se até seu chiclete vai para o espaço com essa temperatura, imagina seu MacBook…
Carros requerem cuidados especialíssimos. Os russos não lavam seus carros – ou lavam muito raramente – nessa época. A variação brusca de temperatura detona a pintura, a cera, os vidros e qualquer acabamento de borracha ou plástico. Afinal, a água estaria a, no mínimo, 10º, enquanto o ambiente, a -20º. Um deltaT de quase 30º, isso descontando o ‘negativo’.


Outro ponto crucial é a bateria. Seus elementos são placas e uma solução de ácido sulfúrico e água que, obviamente, pode congelar ou perder dramaticamente sua propriedade. Logo, ligar o carro direto pode decretar seu fim. O jeito é virar a chave para a posição 1, aquela que só as luzes ficam acesas. Depois de alguns segundos, dê a partida e fique alguns minutos parado.
Mais um fator decisivo é a gasolina. Essencialmente, não deixe ela chegar na reserva. Aliás, nem confie, pois o medidor pode não entender a compressão de volume com esse tempo. Sem contar que as impurezas do fundo e eventual cristalização de uma gasolina menos pura, aquela que fica no fundo do tanque, pode entupir o sistema de injeção – ou carburador, no caso dos Zhigulis. É tanque cheio. E com gasolina de qualidade. E não deixe entrar muito ar no tanque.
Ao abastecer, tente fechar o máximo possível do tanque com um pano, enquanto coloca a bomba. Ar frio no tanque = cristais de gasolina = carro parado. Aliás, se o carro parar por conta disso, ou de algo relacionado ao frio, ache um estacionamento com aquecimento e relaxe alguns minutos. Deve ser suficiente para o que quer que esteja deixando seu carro moribundo sumir.
No próximo post, vou falar sobre como cuidar de uma máquina um pouco mais avançada sob essa temperatura: o corpo.
Tags: congela, dicas, eletrônicos, frio, metrô, motor, nevasca, trânsito
Caixas automáticos congelam sob os -28º da semana em Moscou
dez 19, 2009 Vida na Rússia
Que o frio russo não é brincadeira, todo mundo já sabe. Agora, você já viu caixa eletrônico de banco congelar? Pois é. Foi um dos problemas que eles enfrentaram por lá, essa semana. É gente presa no aeroporto, é torre de controle congelada, estrada fechada, aulas suspensas, carro que não anda, máquina fotográfica travada e até relógio que para. Tudo isso é uma cortesia da onda de frio que atingiu a turma de lá na última semana. Temperatura média: -20º. Com picos de -28º. E olha que esses oito grauzinhos aí fazem uma diferença…
Voltando ao assunto ‘dinheiro’, foram dezenas de máquinas dos bancos Alfa-Bank, VTB-24, Vorzrozhdenie, e Banco de Crédito de Moscou que tiveram os mecanismos de liberação de dinheiro congelados, para surpresa de seus correntistas. Para resolver a situação, foram instalados aquecedores perto das máquinas, que só voltaram a funcionar normalmente após algumas horas.
Outros aparelhinhos que também não aguentaram a onda foram os interfones. Enquanto muitos tiveram os mecanismos de abertura simplesmente congelados, outros pifaram para sempre, deixando ou as portas escancaradas ou permanentemente fechadas. E nossos amados aparelhinhos do dia-a-dia também simplesmente fecham a cara e se recusam a ligar: players digitais, máquinas fotográficas, celulares, notebooks… Alguns são mais educados e simplesmente avisam que, sob tais temperaturas, a operação não é possível. Outros, menos polidos, acabam pifando ao ligar.
E o ‘General Inverno’ não poupou ninguém. Muito menos o Secretário-Geral da OTAN, Anders Von Rasmussen. Em visita a Moscou, o todo-poderoso acabou ficando preso no aeroporto depois que seu avião teve mecanismos de voo congelados. Mas tudo bem, muitos sistemas do próprio aeroporto também congelaram. Sobre os carros, os especialistas dizem que é preciso que a manutenção esteja em dia – lubrificantes idem – e que os sistemas de ignição especial sejam verificados. Usar combustível de baixa qualidade também pode causar paradas imprevistas.


Levar tombos na rua também é um ‘must’. Ouvir um ‘yo moyo’ seguido do barulho de um corpo batendo em algo – mais frequentemente, no chão – vira cena comum, quando há neve e gelo nas calçadas. Os atendimentos médicos disparam, salas de trauma lotam e é um tal de ambulância pra cima e pra baixo. Outra paisagem típica da capital é o amontoado de vendedores de tudo quanto é tipo de quinquilharia nos salões das escadas rolantes do metrô. Antes nas ruas, sob tamanho frio os ‘camelôs’ migram para onde há qualquer quentinho. E aí a voz daquelas vovós chatinhas que fazem ‘segurança’ ecoa: ‘Zdes’ nel’zya! Seichas na ulisu poidyote!’.


As portas das lojas, com aquecimento, viram ‘pit-stops’ para os transeuntes. As pessoas vão parando de porta em porta, para se aquecer, tomar um fôlego e seguir adiante. Sobretudo se você estiver tentando passear com uma criança pequena.
E as autoridades já avisaram: se o frio perdurar, o sistema energético do país não vai aguentar. Por dois dias consecutivos, o recorde de consumo diário de energia foi batido – marca que perdurava desde 2006, quando os termômetros atingiram -32º na capital russa.

Tags: cenas, congelado, frio, moscou, temperatura
Chuva e neve: casamento de quem?
abr 16, 2009 Vida na Rússia
Depois de alguns dias de sol e tempo bom, chuva, neve, vento e frio. Assim está sendo a quinta-feira em Moscou. Segundo uma amiga, é o pior tempo possível. Tudo fica sujo, escorregadio, o guarda-chuva nao protege e o vento deixa a cara toda queimada. Para quem reclama de uma chuvinha, lembre-se de que sempre pode ser pior. Temperatura, 3º positivos. E olha que já estamos em abril…
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