Petróleo e gás na Rússia – passado, presente e futuro
mai 17, 2012 Economia, Ex-repúblicas
Sempre me interessou a história do petróleo na Rússia. Mas, por falta de tempo, nunca pesquisei ou entendi direito. O Felipe Goltz, amigo do blog e ótimo debatedor, resolveu resumir e contar aqui pra gente. O texto pode ser longo, mas vale muito a pena. Confira!
Por Luis Felipe Goltz, especialíssimo para o ‘Falando Russo’
A indústria do petróleo na Rússia origina-se em meados do século XIX quando o então Canato de Baku, situado às margens do Mar Cáspio, transformou-se em uma verdadeira Meca do petróleo. Poucos sabem, mas foi graças ao empreendedorismo de três irmãos suecos – até então desconhecidos do grande público, Ludwig, Alfred e Robert Nobel – que a cidade azeri tornou-se a maior produtora deste hidrocarboneto no mundo. Os irmãos Nobel foram os pioneiros em conceber uma nova dinâmica ao florescente negócio naquela região atrasada do mundo: construíram as primeiras refinarias privadas, assentaram o primeiro oleoduto e distribuíram o petróleo russo via navios-petroleiros construídos pelos próprios suecos.
Até então, carregava-se o petróleo de Baku em barris sobre o lombo de burricos. De acordo com a pesquisadora sueca Brita Asbrink, quando Alfred Nobel criou, em 1901, o prêmio que contém o nome de sua família, parte dos recursos que custearam este projeto – que perdura até hoje, como é sabido – provinha da empresa de petróleo dos irmãos Nobel, a Nobel Brothers Petroleum Company ou Branobel, como ficou conhecida entre os russos, uma corruptela de Bratiá Nobel, ou Irmãos Nobel em português. Pois Baku, uma antiga e esquecida cidade nos confins meridionais do velho império czarista, logrou a façanha de superar um país inteiro, os Estados Unidos da América, até então lideres mundiais na produção de petróleo, graças à mitológica Standard Oil Company, fundada em 1870 pelo não menos mitológico John Davison Rockefeller.
A situação da então nascente e próspera indústria do petróleo local tomou um rumo dramaticamente diferente com a queda do czarismo em 1917 e posterior fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) em 1922. Com a planificação e coletivização compulsórias da economia por decreto de Lenin, todos os empreendimentos, refinarias, oleodutos e afins na região de Baku foram estatizados pelo governo soviético sem quaisquer compensações ou reparações a seus antigos proprietários, como os irmãos Nobel, por exemplo. Pelo contrário. Não foram poucas as violências cometidas pelos bolcheviques durante os tempos de confisco.
Apesar das profundas mudanças políticas, o petróleo permaneceu soberano, assim como nos tempos dos czares, constituindo a pilastra econômica mais sólida e confiável da União Soviética. Com o fim da antiga superpotência em dezembro de 1991, a recém-formada Federação Russa não podia mais contar com os importantes centros produtores de petróleo e gás natural da era soviética, como o Azerbaijão, a bacia de Shah Deniz, no Mar Cáspio, as imensas reservas de gás natural do Turcomenistão e os ainda inexplorados e promissores campos do Cazaquistão. Para o Kremlin, não era mero detalhe explorar e descobrir outras regiões que contivessem em suas entranhas o ouro negro. Era uma questão de sobrevivência.
O eixo do petróleo e gás natural começou a tomar outro rumo na antiga União Soviética com a descoberta de uma gigantesca reserva na Sibéria em 1965, na região de Tyumen: o campo de Samotlor, hoje controlado pela companhia anglo-russa TNK-BP. Trata-se de um colosso com centenas de quilômetros quadrados. Até hoje, um dos maiores campos petrolíferos do planeta, apesar de 47 anos ininterruptos de exploração. Habitar ou explorar uma região antologicamente conhecida por ser tão erma e inóspita como a Sibéria sempre foi um desafio. Se durante o famoso inverno siberiano atingem-se facilmente temperaturas próximas a 60 graus negativos, durante o verão, a tundra siberiana descongela-se parcialmente, com a formação de pântanos com enxames de mosquitos e outros insetos, tornando a vida dos moradores locais um constante desafio às leis de Darwin.
Mas a necessidade russa de aumentar as suas combalidas receitas durante os caóticos anos 90 fez Vladimir Putin, ao assumir o poder em 2000, mudar inteiramente a atitude do Kremlin para com a sua maior preciosidade. O antigo Ministério do Petróleo e Gás soviético havia sido desmembrado em uma série de novas corporações como a Gazprom, Yukos, SIDANKO, ONAKO, RUSIA Petroleum, Slavneft ( estas quatro últimas, junto com a inglesa BP, foram agrupadas em uma única companhia nos anos de 2003 e 2004, a Tyumenskaya Neftyanaya Kompaniya/British Petroleum ou TNK-BP ), Lukoil, Sibneft, Rosneft, Surgutneftgaz, Tatneft e Bashneft, sendo privatizadas – ou roubadas, de acordo com muitos russos – em sua grande parte durante o turbulento governo de Boris Yeltsin. Explicação etimológica: “neft” em russo significa petróleo.
Quando o assunto é petróleo, sempre foi e continua sendo complicado fazer negócios com os russos. A coisa se torna ainda mais difícil quando o petróleo é extraído no país deles. Todas as grandes companhias de petróleo do mundo sabem disso, mas também sabem que não podem ter a ousadia de impor quaisquer exigências “desagradáveis” ao Kremlin, sob pena de não participarem de um dos últimos eldorados do ouro negro do mundo. Nos anos 90, a BP inglesa teve um investimento de mais de US$ 500 milhões na antiga SIDANKO, digamos, “furtado” por seus parceiros russos.
Pode parecer um contrassenso, mas os ingleses decidiram passar uma borracha no passado conturbado que tiveram com os seus antigos sócios e fazer novamente negócios com as mesmíssimas pessoas que desfalcaram a companhia britânica na era Yeltsin. Fácil entender: uma companhia de petróleo vale tanto quanto tem de reservas provadas em suas mãos. Como há pouquíssimos lugares ainda “virgens” disponíveis e/ou financeiramente factíveis, a proverbial fleuma britânica da BP não resistiu e teve de se sujeitar à maneira pouca ortodoxa dos russos nos negócios. É o tal “russkie bizinetz”, onde só um lado ganha, ou seja, sempre os eslavos.
Vladimir Putin percebeu que, apesar de seu país ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo e gás natural, menos de 15% desse negócio estava nas mãos do Estado. A maior parte do bolo pertencia aos chamados oligarcas, como Mikhail Khodorkovsky (Yukos), Vagit Alekperov e Leonid Fedun (Lukoil), Boris Berezovsky e Roman Abramovich (Sibneft), Mikhail Fridman e Viktor Vekselberg (TNK-BP) e Vladimir Bogdanov (Surgutneftgaz). A fim de resgatar a Rússia da enorme decadência pós-soviética em que se encontrava, era crucial reavivar a economia e eliminar o mandarinato político que exerciam os oligarcas.
Segundo o projeto de Vladimir Putin, isso só seria possível realocando a maior parte dos recursos energéticos do país sob o pálio do Kremlin e retirando de cena aqueles magnatas que se opusessem ao planos do governo. Se necessário fosse, a ferro e fogo. E assim, um implacável e draconiano Vladimir Putin foi como um rolo compressor atrás deste objetivo. Em 2000, o oligarca mais poderoso da Rússia, Boris Berezovsky, então aliado e mentor de Putin, exilou-se em Londres. A Procuradoria de Justiça de Moscou incriminava-o em um cipoal de denúncias: participação em máfias, inúmeras fraudes fiscais, assassinatos de jornalistas – como o do famoso apresentador da TV russa Vladislav Listyev – e empresários, envolvimento com a guerrilha separatista chechena, dentre outras acusações graves.
Com a sua prisão uma mera questão de tempo, isolado e sem poder contar com o seu agora inimigo Vladimir Putin, o polêmico oligarca vendeu o que pôde ao seu antigo protegido e sócio, e agora igualmente inimigo, Roman Abramovich e fugiu. Com isso, Abramovich, aliando-se ao interesses de Vladimir Putin, passou a ser o único dono da gigante Sibneft. Em 2005, em um jogo de cartas marcadas, o proprietário do clube de futebol inglês Chelsea vendeu à Gazprom – na qual o governo é acionista majoritário – a sua participação acionária na empresa. A Sibneft foi extinta pelo Kremlin e formou-se a Gazprom Neft. Vitória de Putin.
Próximo passo, Mikhail Khodorkovsky, então o homem mais rico do país foi preso em um aeroporto na Sibéria em 2003 sob alegações semelhantes às de Berezovsky: mandante de assassinatos de rivais políticos e de negócios, fraude e evasão fiscal em massa. Bilhões de dólares em impostos e taxas atrasados. A solução? Liquidar a então maior empresa privada de petróleo do país, a Yukos. O comprador? A estatal Rosneft. Os defensores do antigo magnata alegam perseguição política. Khodorkovsky atualmente está preso em uma penitenciária na Carélia, próximo à fronteira com a Finlândia, até 2017. Todos os pedidos de vistas de seu processo ou perdão pelo governo russo foram categoricamente recusados até o momento.
A prisão de Khodorkovsky, apesar de muitos considerarem uma vitória de Pirro de Vladimir Putin, cristalizou o retorno inequívoco do Kremlin a um “quase-monopólio” sobre as imensas reservas energéticas russas, evocando, ao menos parcialmente, os tempos de domínio absoluto do setor pela antiga União Soviética. Além disso, também serviu como um importante recado de Putin aos demais oligarcas: as empresas que estes bilionários detêm (adquiridas – em sua imensa maioria – através da ilegalidade durante a era Yeltsin, diga-se de passagem) apenas permanecerão com os atuais donos enquanto estes colaborarem com o governo. Caso contrário, perderão tudo. Inclusive a própria liberdade.
Uma das principais políticas de Vladimir Putin é promover as empresas petrolíferas russas – estatais ou privadas, não importa – em “national champions”. Em outras palavras, corporações de âmbito global que operam nos mais diversos países, projetando desta maneira os próprios tentáculos geopolíticos do Kremlin mundo afora. Assim o fazem as firmas americanas – do setor de energia ou não – há muitas décadas. A maior empresa petrolífera privada da Rússia, a Lukoil, atua em lugares tão díspares como Iraque, Irã, Bélgica, Bulgária, Turquia, Colômbia, Venezuela, Uzbequistão e Egito. Além de ser dona de milhares de postos de combustível nos EUA, quando adquiriu as operações da Getty Oil em 2000 e as operações da Exxon-Mobil em Nova Jersey e Pensilvânia, em 2004.
Os russos, desde os tempos czaristas, sempre viram com enorme desconfiança a participação de estrangeiros no “seu” petróleo. Vladimir Putin, a contragosto, aprovou a aquisição de 20% da Lukoil pela americana ConocoPhillips em 2004, assim como 50% na TNK também em 2004 pela inglesa BP. A francesa Total é dona de 12% da Novatek, segunda maior empresa de gás natural do país. Apesar desta “invasão estrangeira” aos olhos de Vladimir Putin, que chegou a dizer que o acordo assinado entre a russa TNK e a londrina BP mais se assemelhava a um “tratado colonial”, os russos sabem que não há outra saída. O país possui reservas de hidrocarbonetos valiosíssimas, mas localizadas em territórios inóspitos, com clima inclemente a maior parte do ano, cuja obtenção com eficiência e segurança ambiental só pode ser obtida mediante a participação de empresas estrangeiras, detentoras de tecnologia de perfuração e extração em condições extremas de temperatura e profundidade que os russos ainda não possuem.
Em agosto de 2011, foi anunciada uma parceria estratégica para a exploração do Mar de Barents, considerado a “Arábia Saudita do Ártico”, entre a estatal Rosneft e os eternos “inimigos americanos” da Exxon-Mobil, não apenas a maior empresa de petróleo do planeta, mas a mais valiosa dentre todas as empresas do mundo. Em abril deste ano, a italiana ENI, velha parceira dos russos desde os tempos soviéticos, também confirmou a sua participação no projeto. Além disso, deve-se mencionar a faraônica empreitada, a tapas e pontapés, entre o Kremlin e a Shell desde 2002, nas Ilhas Sakhalinas, reserva de enormes depósitos de gás natural de imenso potencial econômico. O Japão está logo ali, a poucos quilômetros de distância ao sul, e necessita desesperadamente de novas fontes energéticas, após a hecatombe com o reator nuclear de Fukushima.
Segundo especialistas, é altamente provável que os japoneses sejam forçados a abdicar de grande parte de suas usinas nucleares (nota: nesta semana, o Japão desativou, possivelmente para sempre, seu último reator nuclear), face à sempre iminente possibilidade de novas tragédias naturais. Para não perder tempo, a Mitsui e a Mitsubishi juntaram-se a Shell e a Gazprom em 2006. A condição dos russos à participação estrangeira invariavelmente é: aos russos, sempre com a maior fatia de lucros futuros, mas sempre com os menores custos operacionais – sempre gigantescos – em projetos desta envergadura. Assim que iniciar à distribuição de gás natural sob, muito provavelmente, a forma LNG, Coréia do Sul, China e até a Índia – economias altamente dependentes da importação de energia – certamente serão prospectadas como futuros clientes.
Portanto, por mais que o Kremlin saiba que é fundamental diversificar e modernizar a economia russa para um maior desenvolvimento do país como um todo – e alguns passos, um tanto modestos ainda, estão sendo dados nesta direção, como o fomento às indústrias de alta tecnologia e setor de serviços – não resta sombra de dúvida quanto ao profundo “gosto russo” pela riqueza que sempre o alimentou e que provém das profundezas de seu subsolo, desde tempos preteritamente longevos: o velho e valioso petróleo.
Tags: economia, gás natural, história, neft, oligarcas, petróleo, rússia
Cegonhas: uma triste história da Guerra Mundial
nov 16, 2011 Cultura, Vida na Rússia
Na minha primeira viagem à Rússia passei algum tempo no Cáucaso, em Vladikavkaz, na Ossétia do Norte. E, durante uma das viagens pela região, parei para tirar essa foto, especificamente neste monumento com sete cegonhas unidas pelas asas, em formação. A honraria fica à beira da estrada que liga Vladikavkaz a Alagir, uns 30km a oeste da capital norte-ossetina, antes da ponte sobre o famoso rio Fiagdon.
Antes, nunca poderia pensar que iria passar por um ‘monumento de cegonhas’, dos muitos espalhados pela Rússia, muito menos por esse, especificamente, que era o primeiríssimo de todos. Havia ouvido a história dele, algum tempo atrás, e fiquei muito emocionado. Bom, vou contar aqui algumas partes que lembro e de mais detalhes que achei na internet.
No pequeno povoado de Dzuarikay, na Ossétia do Norte-Alania, as notícias da Guerra Patriótica chegavam sem fim, no ano de 1941, dando conta de que todos eram necessários no front. E os sete filhos de uma das famílias da cidade, os Gazdanov, se apressaram e correram para a batalha. Magomed, Dzarahmat, Hadzhismel, Maharbek, Sozryko, Shamil’ e Hasanbek.
O mais novo deles, Hasanbek, quando foi convocado tinha apenas 17 anos. Mesmo sem ter sapatos ou saber como voltar para seu povoado, não se furtou à luta. Dzarahmat, que partiu em 1941, foi o único a ter se casado e deixou a esposa grávida. Alguns meses depois, ele soube por carta do nascimento da filha, Mila.
Mas a sorte não sorriu para a família. Os Gazdanov realizavam funerais um após o outro. Hadzhismel e Magomed morreram em Sevastopol, Dzarahmat – em Novorossisk, Sozriko – em Kiev, Maharbek em Moscou, Hasanbek – na Bielorrússia, Shamil’ foi ferido mortalmente na véspera do Dia da Vitória, às portas de Berlim.
A mãe, Tassa Gazdanova, dia e noite esperava notícias de seus filhos e ia, todos os dias, até a estrada por onde os viu partir, à espera de cartas, que quase nunca chegavam até este remoto povoado no Cáucaso. Mas o que apareciam eram as notícias das mortes, uma atrás da outra. Após o terceiro luto, porém, ela não aguentou e morreu, com a pequena filha de Dzarahmat, Mila, no colo.
A família tinha uma enorme casa de dois andares. Logo após a partida do último dos irmãos Gazdanov, uma bomba alemã caiu e destruiu metade dela. Hoje, na escola do povoado, há um pequeno museu com uma maquete da casa e alguns dos pertences dos herois da URSS, bem como medalhas e honrarias. E, eventualmente, alguém da família recepciona os convidados.
Além da filha Mila, Dzarahmat teria hoje seis netos e 13 bisnetos. De emblemática, a União Soviética teve dois famosos casos de famílias que praticamente sumiram com a guerra: os Ivanov, que tiveram nove irmãos mortos; e os Gazdanov, com sete.
O monumento foi criado em 1963 pelo artista Sergei Pavlovich Sanakoev (1920-2002). É um pedestal, de onde partem para o céu sete cegonhas, unidas pelas asas. Sob a pedra, chora a mãe Tassa Gazdanova. Mas, de onde vem a ideia dos soldados mortos virarem cegonhas?
Em 1968, o poeta dagestani Rasul Gamzatov, em visita a Hiroshima, no Japão, ficou muito impressionado com a destruição da guerra e com aquelas pequenas cegonhas* feitas em origami por uma criança japonesa, em um monumento. Então, escreveu o poema ‘Cegonhas’, na língua Avar (do norte do Cáucaso). Algum tempo depois, Naum Grebnyov, um famoso tradutor de línguas caucasianas e colega de Gamzatov, fez sua versão em russo para a obra, que foi publicada na revista ‘Novyi Mir’.
Original (na língua avar)
Къункъраби
Дида ккола, рагъда, камурал васал
Кирго рукъун гьечIин, къанабакь лъечIин.
Доба борхалъуда хъахIил зобазда
ХъахIал къункърабазде сверун ратилин.
Гьел иххаз хаселаз халатал саназ
Нилъее салам кьун роржунел руго.
Гьелъин нилъ пашманго, бутIрулги рорхун,
Ралагьулел зодихъ щибаб нухалда.
Боржун унеб буго къункърабазул тIел,
Къукъа буго чIварал гьудулзабазул.
Гьезул тIелалда гъоркь цо бакI бихьула —
Дун вачIине гьаниб къачараб гурищ?
Къо щвела борхатаб хъахIилаб зодихъ
ХъахIаб къункъра лъугьун дунги паркъела.
Гьелъул гьаркьидалъул ракьалда тарал
Киналго нуж, вацал, дица ахIила.
Tradução original de Naum Grebnyov
Журавли
Мне кажется порою, что джигиты,
С кровавых не пришедшие полей,
В могилах братских не были зарыты,
А превратились в белых журавлей.
Они до сей поры с времен тех дальних
Летят и подают нам голоса.
Не потому ль так часто и печально
Мы замолкаем, глядя в небеса?
Сейчас я вижу: над землей чужою
В тумане предвечернем журавли
Летят своим определенным строем,
Как по земле людьми они брели.
Они летят, свершают путь свой длинный
И выкликают чьи-то имена.
Не потому ли с кличем журавлиным
От века речь аварская сходна?
Летит, летит по небу клин усталый -
Мои друзья былые и родня.
И в их строю есть промежуток малый -
Быть может, это место для меня!
Настанет день, и с журавлиной стаей
Я улечу за тридевять земель,
На языке аварском окликая
Друзей, что были дороги досель.
Расул Гамзатов.
Покуда вертится Земля.
Махачкала, “Дагучпедгиз” 1976.
Após a publicação, o famoso cantor soviético Mark Bernes adaptou a letra e, junto com a melodia de Yan Frenkel, compôs uma das mais belas e conhecidas canções sobre a Grande Guerra Patriótica – a nossa II Guerra Mundial. Chamada ‘Cegonhas’, é cantada sempre e emociona todo mundo. Uma daquelas que você tem que aprender e saber, se quiser entrar um pouquinho na língua e na alma russa, aliás, não só russa, mas soviética. Meu conselho? Aprenda. Ela é de um tempo que evoca uma grande verdade nos russos, explicitada em um comentário no vídeo do YouTube:
Это советская песня. И люди, которые писали, пели и играли ее – советские. Советские люди не делили друг друга по национальностям.
Советские люди дополняли друг друга своими национальными особенностями.
Сейчас национальными особенностями все больше разделяют друг друга.É uma canção soviética. E as pessoas que compuseram, cantaram e tocaram essa canção eram soviéticas. Pessoas soviéticas não separavam uns aos outros por nacionalidade. Elas completavam umas às outras com suas particulariedades nacionais. Hoje, as particulariedades nacionais cada vez mais separam uns aos outros.
Essa é a versão de Bernes. Abaixo, minha humilde tradução.
Мне кажется порою, что солдаты
С кровавых не пришедшие полей,
Не в землю нашу полегли когда-то,
А превратились в белых журавлей.
Они до сей поры с времен тех дальних
Летят и подают нам голоса.
Не потому ль так часто и печально
Мы замолкаем глядя в небеса?
Летит, летит по небу клин усталый,
Летит в тумане на исходе дня.
И в том строю есть промежуток малый -
Быть может это место для меня.
Настанет день и журавлиной стаей
Я поплыву в такой же сизой мгле.
Из-под небес по-птичьи окликая
Всех вас, кого оставил на земле.
Мне кажется порою, что солдаты
С кровавых не пришедшие полей,
Не в землю нашу полегли когда-то,
А превратились в белых журавлей.
Me parece por vezes que os soldados
que de sangrentos campos não voltaram
quando não descansaram em nossa terra
transformaram-se em brancas cegonhas
Eles desde estes tempos tão distantes
Voam e descaem vozes para nós
Não será por isso, frequente e tristemente
Que silenciamos olhando para o céu
Eles voarão e voarão pelo céu, fatigados
Eles voarão pela névoa até o dia terminar
E naquela formação há um pequeno vazio
Pode ser que seja um espaço para mim
Chegará o dia que com a revoada de cegonhas
Eu flutuarei na mesma bruma plumbosa
Sob o céu, chamando como um pássaro,
por todos vocês, a quem eu na terra deixei.
*Segundo apontou a leitora Adriana Romano, a tradução correta seria ‘grou’ e não ‘cegonha’. Tem um texto muito bom sobre isso no blog ‘Muito Japão’, dá uma lida.
Tags: barnaul, cáucaso, cegonhas, história, musica, ossétia do norte
Passaportização: belo documentário e um pouco da história dos sobrenomes russos
jun 28, 2011 Cultura, Ex-repúblicas
Sempre me lembro das histórias que me contavam, na Rússia, sobre como era o país na passagem dos séculos 19 para o 20. Cerca de 75% da população não-urbana não possuía nome de família, ou mesmo nome. Usavam algo como apelidos – no sentido brasileiro da palavra.
Tudo começou, mais ou menos, durante o recrutamento para a Primeira Guerra com o Japão, a partir de 1904, e a Primeira Guerra Mundial. Como contam os historiadores, a maioria dos sobrenomes vinha ou do nome do pai – e não estou falando do ‘otchestvo’, ou família – ou de características físicas relevantes, notadas pelos sargentos ou pelos escreventes. Daí tantos ‘Ivanov’, dada a quantidade de filhos de Ivan ou ‘Ryzhov’ (ruivo), ‘Nosov’ (narigudo), ‘Ryabov’ (barrigudo), ‘Belov’ (branco), ‘Tchernov’ (preto), ‘Kudryavsov’ (de cabelo encaracolado), ‘Veselov’ (alegre), ‘Gorbachev’ (corcunda)…
Mas a mais popular ainda era a ‘Smirnov’, que vinha da palavra ‘Smirno’, o comando militar ‘sentido’. Havia ainda a leva de sobrenomes distribuída de acordo com a especialidade militar. Daí tantos ‘Karaulov’ (da guarda), Shtykov (da baioneta), Kapralov (cabo), Sabling (de sabre)…
Ainda assim, foi necessário um enorme esforço nacional, durante um processo chamado ‘passaportização’ (passportizasya em russo), que aconteceu durante a primeira década do regime soviético. Mais de metade da população, enfim, ganhou nome, sobrenome e documentos do estado.
Outro drama foi a gigantesca quantidade de homens e mulheres mortos na União Soviética durante a II Guerra Mundial (ou ‘Grande Guerra Pátria’, como eles chamam por lá). Foram 25 milhões de mortos e um país inteiro que desapareceu do mapa. Para se ter uma ideia, o holocausto judeu vitimou 6 milhões…
Daí, uma infinidade de crianças que perderam os país – e casas e documentos – simplesmente não sabiam seus sobrenomes. Os que ainda viveram o período soviético – ou estudaram um pouco mais da história – certamente viram o documentário ‘Ot vsei dushi’, que contava a história da família ‘Avtostroev’.
Para encerrar esse enorme preâmbulo, lembro que a população de Moscou beira os 10 milhões. Dentre eles, mais de 150 mil levam a família ‘Ivanov’. E quase 4 mil são ‘Ivan Ivanovich Ivanov’. Sendo que ‘Ivanovich’ significa ‘filho de Ivan’ e ‘Ivanov’, a família.
Bom, voltando ao processo chamado ‘passaportização’, ele aconteceu recentemente na Ucrânia, onde mais de 40% da população não-urbana ainda tinha documentos soviéticos, isso mais de 20 anos após o fim do regime. Para as aspirações ucranianas – aliás, sede do próximo torneio europeu de futebol junto com a Polônia – de entrar na União Europeia, isso seria um desastre.
O governo, então, decidiu gastar milhões em um novo processo de passaportização. Para isso, centenas de funcionários do Serviço Social rodavam o país obrigando as pessoas, que viviam nas mais inimagináveis condições, a ter novos documentos.
Sobre essa situação, e como foram as condições do novo processo, um fotógrafo chamado Alexander Chemenev fez esse absolutamente lindo – e triste – mini documentário. O conceito, pra mim, foi absolutamente um choque. O que há por trás dos rostos daqueles idosos que nós vemos naqueles passaportes? E para quê isso?
Assistam. Se puderem, dêem um pulo no site do ‘liberty.su‘. Tem muita coisa bacana por lá. Ah, e se você não entender russo, tem uma tradução rápida logo abaixo do vídeo embedado.
Eu tinha que fazer fotos para documentos, fotos para passaportes novos. Eu recebi essa ordem do Serviço de Assistência Social. Eu ia pelos asilos e casas de retiros, pois estava acontecendo uma nova ‘passaportização’, a troca dos passaportes soviéticos pelos ucranianos. Eu deveria ir as casas das pessoas, mas, em vez de levar comprimidos, remédios, leite e pão gratuitos, levava um ‘fotógrafo de graça’.
E as coisas que eu vi, como vivem essas pessoas, como elas sobrevivem neste século… Eu lembro de uma senhora cega… Eu não sabia que ela era cega, e pedi que ela olhasse para a lente. Aí ela falou ‘Eu não posso ver, será possível, para quê uma idosa cega precisa de passaporte?’
Houve um dia em que eu fotografei 60 pessoas, se eu não me engano. Todos vinham, os velhinhos, fundamentalmente, pessoas idosas, eles vinham em fila, sentavam na mesa, por trás seguravam um fundo branco, os funcionários do serviço social… No dia seguinte, quando eu distribuía as fotos, precisamente não no dia seguinte, mas alguns dias depois, quando eu distribuia as fotos, descobri que um deles havia morrido…
Eu fiquei em choque uma vez que cheguei em uma casa e percebi que uma senhora havia preparado um caixão. Ela vivia em um quarto e o caixão, em outro. Ou seja, ela já estava pronta, a princípio, para sair dali… E teve uma outra vez, de um senhor que tinha mais de 90 anos, também esperava seu fim, colocou um
caixão, cinza, e quando serviu a garrafa da branquinha, colocou de volta no caixão. E quando o caixão ficava cheio de garrafas vazias, ele doava o caixão e dizia ‘É, bom, não chegou a minha hora’. E quando fomos lá fotografá-lo, ele estava com os sobrinhos, bebendo vodka devagarzinho…
Havia pessoas com deficiências mentais, psicológicas, eles não entendiam para que aquilo tudo, para que os sentavam, para que o fundo, para que eles estavam sendo fotografados, ou mesmo se tinham consciencia de qualquer coisa ao seu redor. Havia um senhor de cama, e o levantaram, dois o apoiaram e outros dois seguravam o fundo branco, ou seja, ele também precisava de passaporte…
É, eu fotografei o que eu fotografei, naquela época, e era exatamente assim. Eu seguramente não sei, se alguém ainda está vivo, daqueles que eu fotografei. Ainda que eu deseje muito que estejam, mas eu duvido muito. Foi muito difícil fotografar quando… as pessoas choravam e gritavam ‘nos deixe em paz’ ou ‘não temos muito tempo’…
Eu acho que poderíamos ter passado sem essa ‘passaportização’, sem essa obrigação. Que diferença faz com que passaporte o ser humano deixa esse mundo?
Tags: censo, família, história, passaportização, população, rússia, sobrenome, ucrânia
Referendo para manter a URSS faz aniversário. Sem festa nem bolo
mar 19, 2011 Ex-repúblicas, Na imprensa, Política
No último dia 17, um grande evento – um dos maiores da história política da humanidade – fez aniversário: o referendo para a preservação da União Soviética completou 20 anos. Era uma época turbulenta, ainda com Gorbachev à frente de uma URSS aos trancos e barrancos, que via, dia após dia, sua influência política sobre o ‘bloco comunista’ desaparecer.
Do oeste para leste, as reformas varriam o mapa político e, num esforço desesperado, o secretariado do Partido convocou o tal referendo, com a seguinte pergunta: «Считаете ли Вы необходимым сохранение Союза Советских Социалистических Республик как обновлённой федерации равноправных суверенных республик, в которой будут в полной мере гарантироваться права и свободы человека любой национальности». Ou, em bom português, “Você considera necessária a preservação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas como uma federação renovada de iguais soberanias entre as repúblicas, que irão de todas as formas garantir os direitos e as liberdades do indivídulo de qualquer nacionalidade?”
Antes da divulgação do resultado, porém, o próprio secretário-geral e premiê da URSS, Mikhail Gorbachev, alertou que o mesmo era inútil, pois parar o processo de desintegração do bloco era inevitável. Por outro lado, Boris Yeltzin (aquele presidente louco, bêbado, dançarino e engraçado, lembra?), a oposição, deu um xeque-mate: convocou eleições presidenciais para a República Soviética Socialista Federativa da Rússia e, em junho, foi eleito.
Se pensarmos bem, foi uma loucura: embora 79% dos russos – da Rússia – tenham aprovado a manutenção da URSS, Boris Yeltzin foi eleito presidente da república da Rússia. Ou seja, havia um presidente nacional com mais força que um outro líder ‘nacional’. E, para ilustrar, enquanto isso, na Ucrânia, 90% aprovavam a ‘independência’, enquanto 70% aprovaram a manutenção da URSS. Foi aí, historicamente falando, que surgiu a famosa e contemporânea indagação da geração Y (provavelmente de ‘Yeltzin’): “comofaz?”
Mas, falando sério de novo, o referendo de 1991 – a primeira chance para os soviéticos de todas as nacionalidades votarem em 70 anos de união – mostrou apenas uma coisa: o povo não estava maduro o suficiente para tomar decisões políticas. Não se sabia o que era, como funcionava, para quê e se o serviria ou não. Votava-se, achando, em primeiro lugar, que era um tipo de pesquisa. Entretanto, o que influenciava profundamente os cidadãos era o medo: a maioria esmagadora, além de não entender, temia possíveis represálias a quem fosse contra o partido. As pessoas simplesmente não entendiam – e até hoje não entendem – conceitos como ‘democracia’ e ‘liberdade de expressão’.
O gráfico da Ria Novosti mostra bem a ‘vontade’ do povo: em praticamente todas as repúblicas soviéticas, a manutenção da união teve vitória esmagadora. Hoje, muitos revisionistas contestam o resultado desse referendo – e com razão. Mas o fato é que os números são plenamente verossímeis, tendo em vista o medo, o desconhecimento e a imaturidade cidadã do bloco.
Mas o trem da mudança seguiu a todo vapor: houve o golpe, o GKChP (ГКЧП), disputas e, por fim, a dissolução integral da União Soviética e do sonho do comunismo. O fim era inevitável e assim foi.
Por isso, mesmo hoje, eu ainda acho estranho quando alguém faz referência à ex-URSS, quando fala de Rússia, Ucrânia ou Cazaquistão, por exemplo. Foi uma outra realidade, uma outra história, que, embora influencie aquela que acontece agora, tem outros paradigmas. É como se fosse uma outra dimensão, algo meio sem paralelos, extremamente dicotômico.
E pior, ainda há quem creia numa ‘ressurreição’ da URSS, em um molde moderno. Eu, pessoalmente, acredito na aproximação de repúblicas como a Rússia, a Bielorrússia, o Cazaquistão, por exemplo, em alianças que contemplem a soberania e a segurança. Mas, com a esmagadora maioria das RSs, não vai haver mais muita coisa, politicamente falando, além dos laços históricos. A mágoa, muitas vezes, é maior que a necessidade.
Tags: história, independência, política, referendo, urss
Revivendo os dias de luta pela liberdade
dez 18, 2010 Cultura, Vida na Rússia
Dando um break na série ‘conflitos étnicos’, nesta semana aconteceu na Rússia uma das coisas que ainda vou ver nessa vida: uma recriação fiel das grandes guerras do século passado no país: primeira, segunda e guerra civil.
As simulações acontecem em várias partes do país, geralmente no outono e no inverno. Segundo os historiadores e fanáticos por guerras, foram nessas épocas que o país conseguiu suas maiores vitórias – e mudou por várias vezes o curso da história de todo o mundo.
Ao longo dessa semana, aconteceu em Stupino, nos arredores de Moscou, e reuniu centenas de aficcionados, que trouxeram blindados, armas, roupas e tudo mais para recriar os conflitos. E as nevascas deram ainda mais o clima.
Deviam chamar essa molecada que faz esse papelão pelas ruas russas pra irem lá ver como é que se defendia a liberdade e a pátria.











































