Cantinho da literatura: ‘Com Vista para o Kremlin’

O ‘Com Vista para o Kremlin’, de Vivian Oswald, foi um blog que acompanhei, quase que religiosamente, durante seus quase dois anos de existência. Claro que também contou a força do ofício, por eu trabalhar ‘na casa’. Mas foi interessante essa experiência de ver uma correspondente brasileira em ação na Rússia. Quase todos os que acompanho são americanos e europeus, que têm, claro, olhares um pouco distantes do nosso.

Quando eu morei lá, no início dos anos 2000, a internet ainda era meio incipiente, a economia, modorrenta, e eu não tinha nem tempo nem meios para quem blogar. Mas admito que poderia ter começado o ‘Falando Russo’ ainda em ‘Terra Russis’, coisa que não fiz por não ter tido, simplesmente, essa ideia. Mas é como diz a música, né? ‘Quem não sabe bate palma’.

Mas um problema da maioria absoluta dos correspondentes é um só: não falar russo. Acho que, em poucos casos nesse planeta, e aí posso estar falando uma abobrinha gigante, a língua é tão parte de um povo como o russo é dos russos. Não falar a língua de Púchkin te poda absurdamente. Vejo isso nos textos de alguns dos meus blogs favoritos – e de algumas matérias que poderiam ter sido excelentes.

Acaba que todo mundo vive em um gueto anglófono, que é bem forte em Moscou, e viajando high-society pelo país. E pior, dependendo de tradutores que, muitas vezes, ou são capengas ou são parciais. Lembro de um caso emblemático e muito conhecido de uma colega, que fez uma enorme entrevista com um especialista russa sobre o Cáucaso, para uma matéria, que lançou mão de uma tradutora georgiana! Óbvio que ela, a tradutora, manipulou tudo o que a russa falava. E isso se refletiu no trabalho.

O caso da Vivian era esse. Uma repórter experiente, dinâmica, com bom texto, mas que às vezes ficava encaixotada no idioma – embora o bom jornalista se vire até na China sem falar chinês, como a gente bem sabe. Mas essa é minha opinião pessoal, que certamente não é notada por 98% dos leitores interessados. Afinal, ser correspondente é uma etapa de sua vida. Embora você não tenha a obrigação de saber a língua de onde está, isso é um plus. Mas se você não tem planos futuros de ficar ali, qual a razão de empreender tempo e dinheiro na língua?

Pessoalmente, me chateia um pouco esse ‘oba-oba’ de ‘Nova Rússia’, ‘maioridade da Rússia’. Ainda mais quando você chega 20 anos depois, no maior clima fim de festa, não viu filas, não viu crise, não conhece uma Hrushevka, não sabe nem tomar uma vodca, enfim, e fica apenas olhando para a União Soviética e para os fatos que já foram exaustivamente analisados. Aí você acha estranho os moscovitas comprarem tantos Porsches, BMWs, Ferraris e afins, terem um dos custos de vida mais caros do mundo e, ainda assim, se comportarem meio que tribalmente. Não é estranho, é absolutamente lógico. A Rússia ainda é, como que para os românticos, o ‘bom selvagem’ da Europa cristã-ocidental.

De qualquer forma, acho mesmo que vale a pena dar uma conferida em seu livro e seus relatos (e novamente lembro que eu NÃO ganhei o livro, NÃO o li e NÃO estou escrevendo por jabá ou qualquer interesse corporativo).

Enfim, confere a sinopse do livrinho lá embaixo, veja a entrevista com ela aqui na Globo News e, se curtir, compre. Eu, como fã-crítico-chato do trabalho, comprarei.

Com vista para o Kremlin
Vivian Oswald

“A nova Rússia completou seus primeiros vinte anos em 2011. É uma história ainda recente. A imagem transmitida tantas vezes para milhões de televisores de todo o mundo — a troca da bandeira vermelha com a foice e o martelo pelo pavilhão branco, azul e vermelho da Federação da Rússia — parece ser de ontem. Era o fim do grande império que, por tantos anos, determinou o mundo bipolar da segunda metade do século XX”.

Assim começa a narrativa de Vivian Oswald em Com vista para o Kremlin: a vida na Rússia pós-soviética, reveladora de um novo cenário russo, oculto ou mascarado pelos filtros da simplificação e dos estereótipos. O olhar brasileiro ali inserido traz uma percepção única e geradora de proximidade jornalística com o leitor.

Com desenvoltura e critério, a autora transita da sucessão política do governo Putin a fatos prosaicos, como a necessidade de manter a geladeira aberta para suportar o calor dentro de casa, da espionagem da KGB a casamentos por interesse e aulas de sedução.

Colhendo, observando ou protagonizando histórias e acontecimentos, marcantes ou triviais, a jornalista presenteia o leitor com um universo às vezes curioso e exótico, às vezes tocante; um universo que se contamina lentamente com a normalidade inevitável do decorrer do tempo.

Sobre a autora

Formada em letras e comunicação, a jornalista Vivian Oswald começou a carreira no Jornal do Brasil. Desde 1999, trabalha no jornal O Globo, onde, atualmente, é repórter especial de economia na sucursal de Brasília. De 2004 a 2007, foi colaboradora do jornal em Bruxelas, base para coberturas sobre a União Europeia e diferentes países da Europa. Entre 2007 e 2009, foi a única correspondente brasileira em Moscou, onde também fez reportagens para Globo News, CBN e Radio France Internationale.

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O melhor da pesquisa sobre língua e literatura russa na UFRJ

Na última semana de outubro, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai sediar seu I Congresso Internacional de Estudos Orientais e Eslavos. Vai ser uma ótima oportunidade para quem quiser conferir de perto o que há de melhor na pesquisa acadêmica de estudiosos das línguas árabe, hebraica, japonesa e russa.

Como o assunto do blog é o russo, separei aqui a programação que vai rolar nos auditórios da Faculdade de Letras da UFRJ. Dentre minhas favoritas, destaco o trabalho da Profa. Dra. Tanira Castro, Profa. Dra. Maria de Fátima Bianchi (orientadora deste que vos escreve, na USP), Profa. Dra. Neide Jallages, Prof. Dr. Ângelo de Oliveira Segrillo, Profa. Dra. Cláudia Drucker, Profa. Dra. Cláudia Drucker, Prof. Dr. Bruno Barretto Gomide e Prof. Dr. Daniel Aarão Reis Filho.

Também há outros trabalhos interessantes de doutorandos, mestrandos e até bacharelandos. Destaco Márcio Fonseca Pereira (Doutorando em Teoria Literária – FL/UFRJ): A representação das transformações da sociedade russa em Os irmãos Karamázov, Lorena Leite Miranda (Mestranda em Literatura e Cultura Russa/USP): Dostoiévski e a Tradição Russa do Relato de Viagem, Luiza Nascimento Almeida (Mestre em Literatura e Cultura Russa/USP): A representação da morte na obra de Lev Tolstói, Graziela Schneider Urso (Doutoranda em Literatura e Cultura Russa/USP): Nabókov encontra Tchékhov.

Mas, obviamente, cada um vai escolher seus temas favoritos. Aliás, queria lembrar que as inscrições para ouvintes foram prorrogadas. Basta pagar a taxa de R$ 10 para ter direito ao certificado e preencher o formulário. Maiores informações, confira o blog do setor de Orientais e Eslavas ou mande email para orientaiseeslavas@letras.ufrj.br

Confira abaixo a programação referente aos assuntos e pesquisas de língua russa, algumas das quais, se eu puder, estarei lá. Para árabe, hebraico e japonês – que, aliás, também têm apresentações interessantíssimas – baixe o PDF com a grade completa aqui.

I CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS ORIENTAIS E ESLAVOS DA UFRJ VI ENCONTRO DE LETRAS ORIENTAIS E ESLAVAS
Revoltas, Revoluções, Transformações

24 de outubro (2ª feira)

MANHÃ
08:00 / 08:45 – Auditório G-1 Últimas inscrições, recebimento de crachás e entrega de kits.

11:00 / 12:30 – Auditório G-2 Mesa comunicações coordenadas 1: Linguagens e Revoluções.
Coordenação: Prof. Dr. João Henrique de Santos (FAU/UFRJ)

· Leandro Couto Carreira Ricon (Mestrando em História Comparada – PPGHC/IH/UFRJ): Uma vida pelo Tsar e uma ópera para o povo: a formação da música nacional no país de Glinka
·Guilherme Mathias Netto Galván (Bacharelando em Letras Português-Russo – FL/UFRJ): A causatividade em Russo
·Luciana Oliveira de Barros (Doutoranda em Literatura Comparada – FL/UFRJ): Intrigas ficcionais por verdades confortáveis – A 1ª Pessoa de Górki
·Adriana Zanela Nunes (Mestre em Linguística – FL/UFRJ): John Reed: o jornalista da revolução
·Profa. Dra. Tanira Castro (Instituto de Letras/UFRGS): A Revolução de 1917 e a Perestroika – realidade, ficção e cultura russa
·Prof. Dr. João Henrique dos Santos (FAU/UFRJ): A tentação futurista: apontamentos sobre a estética arquitetônica da URSS (1950-1989)

14:00/ 17:00 – Auditório E-2: Mesa comunicações Coordenadas 4: Literatura e Identidade Nacional
Coordenadora: Profa. Dra. Maria de Fátima Bianchi (USP)

·Prof. Dr. Paulo Donizéti Siepierski (Diretor do Departamento de História/UFRPE / Doctor of Philosophy -Ph.D. in Historical Studies): Os Irmãos Polacos [Bracia Polscy] e a liberdade
· Profa. Dra. Maria de Fátima Bianchi (USP): O fenômeno da figura do herói na literatura russa do século XIX
·Simone Pricoli de Mello (Mestranda em Literatura e Cultura Russa/USP): As Dicotomias na Poética de Ivan Turguénev na obra Um Mês no Campo
·Prof. Ms. Odomiro Barreiro Fonseca Filho (Mestre em Literatura/UFPE): Dostoiévski e o Niilismo Social na Década de 1860
·Márcio Fonseca Pereira (Doutorando em Teoria Literária – FL/UFRJ): A representação das transformações da sociedade russa em Os irmãos Karamázov
·Lorena Leite Miranda (Mestranda em Literatura e Cultura Russa/USP): Dostoiévski e a Tradição Russa do Relato de Viagem
·Prof. Dr. Mario Cesar Newman de Queiroz (UFRRJ): Subjetivação não individualizante em Guerra e Paz
·Luiza Nascimento Almeida (Mestre em Literatura e Cultura Russa/USP): A representação da morte na obra de Lev Tolstói

25 de outubro (3ª feira)

09:00 / 10:30 – Auditório G-2 – Mesa-redonda 2: Cinema Russo e Soviético
Moderadora: Profa. Ms. Sonia Branco Soares (Setor de Russo/Depto LEO/FL/UFRJ)

·Profa. Dra. Neide Jallageas de Lima (DLO/FFLCH/USP): História e cinema russo: Lenin e Stalin sob as lentes de Sokúrov e Chiaurelli
·Vanessa Teixeira de Oliveira (Agência Nacional do Cinema – Doutorado em Artes Cênicas/UNIRIO): O Laocoonte de Eisenstein: o paralelo das artes e a especificidade múltipla do cinema

11:00 / 13:00 – Auditório G-1 – Mesa-redonda 3: Línguas Orientais e Eslavas
Coordenadora: Profa. Dra. Bianca Graziela de Souza da Silva (Setor de Estudos Árabes/Depto LEO/FL/UFRJ)

·Russo: Prof. Ms. Diego Leite de Oliveira (Setor de Russo/ Depto LEO/FL/UFRJ): Aspectos linguísticos e culturais da tradução em língua russa: no limiar entre teoria e prática

14:00/ 17:00 – Auditório G-2 – Mesa de Comunicações Coordenadas 6: O cinema russo em questão: Eisenstein, Tarkóvski e Paradjanov
Coordenadora: Profa. Dra. Neide Jallages (DLO/FFLCH/USP)

·Erivoneide Marlene de Barros Pereira (Mestranda em Literatura e Cultura Russas/USP): O cinema poético russo
·Fabíola Bastos Notari (Mestre em Artes Visuais ASM/FASM): Ivan: entre gravar e revelar, vestígios de uma memória
·Juliana Rosa de Sousa (Bacharelado em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo): O princípio da montagem e a construção de sentido em Sergei M. Eisenstein
·Breno Morita Forastieri da Silva (Bacharelado em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo): Construções das imagens em Eisenstein
·Mônica Cristina Junqueira Berto (Bacharelado em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo): Além do detalhe: o primeiríssimo plano de Paradjanov

26 de outubro (4ª feira)

09:00 / 10:30 – Auditório G-2 – Conferência 4 Prof. Dr. Ângelo de Oliveira Segrillo (Departamento de História/USP): As Revoluções Russas: diferentes leituras

11:00 / 13:00 – Auditório G-2 – Mesa de Comunicações Coordenadas 9: Poética e Vanguarda
Coordenador: Prof. Dr. Mário Ramos Francisco Júnior (Departamento de Letras Orientais – FLCH/USP)

·Profª Drª Laura Estrín (UBA, Argentina): La elocuencia sin consuelo de la literatura rusa del 900: Una era en que los artistas eran elocuentes…”
·João Guilherme Siqueira Paiva (Bacharelando em Letras Português- Francês – FL/UFRJ): O simbolismo russo como Prólogo
·Prof. Dr. Mário Ramos Francisco Júnior (Departamento de Letras Orientais – FLCH/USP USP): Vencendo o tempo: morte e vida na poesia e no drama de Velimir Khlébnikov
·Paulo Sérgio de Souza Jr. (Doutorando – Instituto de Estudos da Linguagem – UNICAMP): DOIS MAIAKÓVSKI? — alguns contrapontos e um ponto de fuga
·Veronica Filíppovna (Mestranda em Poética – FL/UFRJ): Marina Tsvetáeva: A poesia da canção

14:00 / 17:00 – Auditório E-1 – Mesa de Comunicações Coordenadas 11: Teatro em contexto Pré-Revolucionário
Coordenador: Prof. Dr. Roberto Ferreire da Rocha (FL/UFRJ e PPGLA/FL/UFRJ)

·Profa. Dra. Cláudia Drucker (UFSC / PhD – Duquesne University): Dostoiévski, mestre de drama
·Anastassia Bytsenko (Mestre em Literatura e Cultura Russa/USP): Liev Tolstoi e o teatro
·Prof. Dr. Roberto Ferreira da Rocha (FL/UFRJ e PPGLA/FL/UFRJ): Anton Tchekhov, Tennessee Williams e A Caderneta de Trigorin
·Rodrigo Alves do Nascimento (Mestrando em Literatura e Cultura Russa/USP): Um dramaturgo russo em palcos brasileiros
·Prof. Dra. Tatiana G. Mariz (Setor de Russo/Depto LEO/FL/UFRJ): O sentido do trágico na obra de Tchekhov
·Rodrigo Ferreira de Lima (Mestre em Literatura e Cultura Russa/USP): A representação do feminino nos contos de Anton Tchékhov
·Graziela Schneider Urso (Doutoranda em Literatura e Cultura Russa/USP): Nabókov encontra Tchékhov
·Michele Almeida Zaltron (Mestre em Ciências da Arte/UFF): K. Stanislávski e a prática do etiud – instrumento de formação, de criação e de reno- vação para a arte teatral

27 de outubro (5ª feira)

09:00 / 10:30 – Auditório G-1 – Conferência 5 Alberto Mussa (escritor): Quem está diante do espelho

09:00 / 10:30 – Auditório E-1 – Conferência 7 Profa. Dra. Elena Vássina (USP): Lev Tolstói e Anton Tchékhov: dialética de transformação dos diálogos reais em intertextuais

Russo: Profª Dra Arlete Orlando Cavaliere (Profa. Titular – FFL- CH/USP): A cultura russa entre Ocidente e Oriente

14:00/ 17:00 – Auditório G-2 – Mesa de Comunicações Coordenadas 14: Reflexos na contemporaneidade
Coordenador: Prof. Dr. Bruno Barretto Gomide (USP)

·Prof. Dr. Daniel Aarão Reis Filho (Prof. Titular de História Contemporânea/UFF): Os bandidos de I. Babel
·Natalia Cristina Quintero Erasso (Doutoranda em Literatura e Cultura Russa/USP): A obra de Liev Tolstói e seus possíveis desdobramentos na literatura contemporânea
·Profa. Dra. Fabiola do Valle Zonno (FAU/UFRJ): “Arte na vida!” Ecos poéticos da vanguarda russa nas artes e arquitetura contemporâneas
·Márcia da Rocha de Jesus (Mestranda em Literatura/UFSC): A presença da cultura eslava na configuração do personagem vampiro contemporâneo
·Prof. Dr. Bruno Barretto Gomide (USP): Estratégias de difusão da literatura russa e soviética na América Latina (anos 30-40)
·Deise de Oliveira (Mestranda em Literatura e Cultura Russa/USP): As premiações e o mercado literário na Rússia

 

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São Paulo recebe Tolstoi e seu legado

Essa é para quem curte literatura e seu desenrolar. De 14 a 17 de setembro, o CCBB de SP vai receber o Seminário ‘O Legado de Lev Tolstói para o Século XXI’. O destaque vai para o trineto do escritor, Vladimir Ilitch Tolstoi, que é um dos convidados e vai abrir os trabalhos, no dia 14. E, para mediar esse bate-papo, ninguém melhor que a professora de Literatura Russa da USP, Elena Vássina (aliás, a quem tive o prazer de conhecer algumas semanas atrás!).

Tolstoi - por Leonid Pasternak

Fiquei sabendo do evento com a colega Luiza, que criou esse blog legal para ajudar a contextualizar os futuros participantes. E pouca coisa atrai tanta gente para a Literatura Russa – e para a Literatura em Geral – como Lev Tolstói. Se você quiser chamar de Leão Tolstói, também está valendo. ‘Guerra e Paz’, ‘Anna Karenina’, ‘A Morte de Ivan Ilitch’, ‘Ressureição’… Como não se envolver com pelo menos um desses gigantescos clássicos?

Ah, e também estarão presentes no evento Pavel Basinsky, cuja ficha diz ‘escritor e crítico literário russo, ganhador de importantes prêmios literários, membro do júri do Prêmio Literário “Iásnaia Poliana”/ Lev Tolstói, e Igor Vóguin. Desse eu posso falar. É um monstro da Literatura e do pensamento literário contemporâneo. Pesquisador, escritor, professor, o cara é fera. Assisti a palestras e aulas dele em Moscou, e sempre saí dessas confuso e chocado. Se eu pudesse optar por um dia, assistiria ao Voguin, embora todos os dias sejam imperdíveis. Tem umas aulas/palestras dele (sobre Dostoievski em sua maioria) no YouTube, dá uma conferida:

É um daqueles eventos que, se você puder dar uma conferida, sem dúvida vai ser muito interessante. Endereço do CCBB-SP é Rua Álvares Penteado, 112 – Centro. Maiores informações: 11 3113.3651 e a entrada franca. Ah, e dá uma conferida no blog do evento também.

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Mais clássicos ganham tradução direta do russo

Não gosto de postar releases (para quem não sabe, releases são textos de assessorias de imprensa que ‘vendem’ uma ideia de pauta para os jornalistas de redação), mas abro uma exceção nesse caso, em nome da arte. Toda tradução direta do russo de obras de arte é válida – visto que muito do que você leu por aí veio em versões tortas do espanhol, inglês e francês. Mas lembro que ‘A morte de Ivan Ilitch’ tem uma tradução que gosto muito, da brasileira Vera Karam, feita pela L&PM. Enfim, quem puder, confere e conta se ficou bom!

“A morte de Iván Ilitch e outras histórias”, de Tolstói, foi traduzido por Tatiana Belinky e “O duelo”, de Tckékhov, teve o trabalho de Klara Guriánova

Com o projeto gráfico e ilustrações de Hélio de Almeida, o selo Amarilys, da editora Manole lança dois livros, O duelo, de Anton Tchékhov, e A morte de Iván Ilitch e outras histórias, de Lev Tolstói, dando início à sua coleção de clássicos russos. Ambos são traduções diretas da língua russa e contam com prefácio da pesquisadora da USP e especialista em literatura russa Elena Vássina.

As capas apresentam um conceito ousado. Exclusivamente tipográficas, não exibem o título, nem o nome dos autores, apenas uma letra com efeito de profundidade. Além de conferir novo visual a obras clássicas, o objetivo é instigar o interesse do leitor em abrir o livro e explorar o que há por dentro dessas edições tão diferentes.

O duelo

Escrito por Anton Tckékhov, autor consagrado como “pai” do teatro moderno e célebre por suas narrativas breves, O duelo foi publicado no formato de folhetins em onze edições do jornal Nóvoe Vriémia (Novo Tempo), em 1891. A obra, há anos fora de catálogo no Brasil, se destaca na produção literária de Tchékhov. Composta de 21 capítulos, é relativamente longa, em comparação à produção de contos do autor, que insistia na máxima “brevidade, irmã do talento”. Além disso, é um dos raros exemplos de “novela ideológica” na obra de um escritor que ficou conhecido como o menos “engajado” de sua época.

No clássico, o zoólogo von Koren é defensor convicto do darwinismo social – corrente ideológica baseada no conceito da seleção natural como condição para o progresso da sociedade. Essas teorias, aliadas a certo fervor moralizante, fazem com que Von Koren nutra verdadeira ojeriza por Laiévski, um sujeito “depravado”, pouco afeito ao trabalho e amante de uma mulher casada.

A literatura russa aborda o duelo como possibilidade, sempre trágica, de resolução de um conflito. E é em um duelo que a antipatia mútua dos dois antagonistas resulta.

Apesar de repleto de referências às obras de Puchkin, Lermóntov e Tolstói, Tchékhov rompe com a tradição literária e cria aquele específico efeito de estranhamento (conceito introduzido pela escola formalista russa), contrariando as expectativas do leitor. Além disso, em O duelo se faz presente uma visão de mundo puramente tchekhoviana, tão bem descrita pelo escritor Vladimir Nabokov: “As coisas para Tchékhov eram engraçadas e tristes ao mesmo tempo, mas não se pode enxergar a tristeza se não se enxergar a comicidade, pois ambas estão ligadas”.

Klara Guriánova, pesquisadora e especialista em literatura russa, foi responsável pela tradução, cuja essência se manteve intacta por ter sido feita a partir do idioma russo original. As ilustrações ficaram por conta de Hélio de Almeida.

Sobre o autor: Anton Tckékhov nasceu em 29 de janeiro de 1860, no sul da Rússia. Detestava a severa educação recebida na infância, mas admirava o talento artístico do pai. Médico de formação, apesar de toda a fama literária que conheceu durante a vida, ele gostava de repetir: “A medicina é minha legítima esposa, enquanto a literatura é minha amante”. Dentre suas obras, encontram-se A dama do cachorrinho (1899), Tio Vânia (1899), As três irmãs (1900), O jardim das cerejeiras (1904), entre outras.

A morte de Iván Ilitch e outras histórias

“Descrição da morte simples de um homem simples” é sobre o que trata a novela A morte de Iván Ilitch que encabeça o título do livro A morte de Iván Ilitch e outras histórias, de Lev Tolstói. Porém, por mais simples que pareça, a história é tão complexa e instigante quanto o autor, que apreciava abordar o cotidiano com realismo.

A narrativa se inicia com a notícia da morte de Iván, o que leva o autor a abrir espaço para a descrição da vida regular e ordinária do personagem, envolvida pelo egoísmo humano.

Tolstói coloca em pauta as “questões malditas” da existência humana e critica o fútil e material. Para ele, um homem preso no egoísmo de seu bem-estar precisava passar pelo caminho da morte para perceber a futilidade da vida e, só assim, ingressar no mundo da liberdade. O crítico literário russo, Víktor Chklóvski, aponta que A morte de Iván Ilitch “não é sobre o horror da morte, mas sobre o horror da vida”. A aproximação da morte torna-se um momento de epifania, já que no fim encontra-se luz.

Para a pesquisadora da USP e especialista em literatura russa, Elena Vássina, o procedimento artístico em que “o realismo se intensifica no simbólico e atinge o transcendental” está presente na construção das quatro obras reunidas em A morte de Iván Ilitch e outras histórias.

Apesar da mensagem transmitida em suas histórias, o autor não queria ser encarado como moralista, preferindo apenas mostrar sua visão de mundo e instigar a autorreflexão, em um período em que o próprio escritor passava por uma fase de dúvidas e angústias. O famoso autor russo foi um reconhecido líder espiritual e, em seus últimos anos de vida, suas pregações chegaram a afastá-lo do ofício literário. Ainda assim, obras-primas, como A morte de Iván Ilitich e Senhor e servo, outro conto presente no volume, foram escritas nesse período atribulado da vida do autor.

Já O prisioneiro do Cáucaso e Deus vê a verdade mas custa a revelar, que compõem a seleção, são de uma lavra anterior e foram escritos especialmente para os “Livros Russos de Leitura”, cadernos voltados para proletários e leitores populares.

A narrativa forte de Tolstói é marcada pela simplicidade poética da linguagem que, segundo o escritor, colocada de forma artística, deveria refletir a Verdade, que é, no final das contas, simples e transparece onde existe amor ao próximo.

A morte de Iván Ilitch e outras histórias, lançado pelo selo Amarilys em homenagem ao centenário da morte do autor, também conta com ilustrações de Hélio de Almeida. A tradução, feita diretamente do idioma russo, ficou por conta de Tatiana Belinky, famosa autora de livros infantis, com mais de 90 anos, que nasceu na Rússia e hoje é uma das mais importantes escritoras do Brasil.

Sobre o autor: Lev Nikoláievitch Tolstói nasceu em 28 de agosto de 1828, em Iasnaia Poliana, e pertenceu a uma das mais nobres e antigas famílias russas. Criado em berço de ouro, apesar de não ter concluído o curso na Universidade de Kazan, obteve perfeita educação aprendendo diversas línguas. Além disso, chegou a ser eleito, em 1898, membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Dentre suas obras publicadas encontram-se: Infância (1852), Contos de Sebastópol (1855-1856), Guerra e Paz (1865-1869), Anna Kariénina (1875-1877), A morte de Iván Ilitch (1886), e outras.

Serviços

O duelo
Autor: Anton Tckékhov
Ilustrador: Hélio de Almeida
Páginas: 176
Acabamento: capa dura
Preço sugerido: R$ 39,00
Editora Amarilys – www.amarilyseditora.com.br
Tel.: (11) 4196-6000

A morte de Iván Ilitch
Autor: Lev Tolstói
Ilustrador: Hélio de Almeida
Páginas: 232
Acabamento: capa dura
Preço sugerido: R$ 44,00
Editora Amarilys – www.amarilyseditora.com.br
Tel.: (11) 4196-6000

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Tchekhov na GloboNews: uma gratíssima surpresa

Ontem, sem querer, esbarrei com o ‘Espaço Aberto Literatura’, da Globonews, com o Edney Silvestre, que falava sobre Tchekhov e uma exposição em sua homenagem que está acontecendo na Funarte SP. Não sou um profundo conhecedor de teatro, mas, lógico, gosto bastante de Tchekhov.

Corro o risco de ser óbvio, mas, particularmente, acho ele o mais universal e atemporal de todos os grandes nomes da literatura russa, embora algumas referências em sua obra sejam estranhas a não-iniciados na cultura russa. Mas qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer língua, monta uma peça de Tchekhov, a adapta, brinca com a linguagem e consegue um espetáculo de altíssima qualidade.

Gostei muito da forma didática que a Elena Vassina, professora da USP, conversou com Silvestre. Não precisa ser chato e sisudo pra falar de literatura (embora poucos saibam disso…), e Vassina foi bem espontânea. Mesmo que eu não consiga imaginar uma aula de literatura russa – em russo – com tamanha liberdade que a professora deu. Acho que é um viés pedagógico que só o Brasil e a língua portuguesa permitem! Enfim, não a conheço, mas a julgar pela sua produção, conforme mostra o currículo Lattes, está entre as tops do mundo, e parece ser muito bom tê-la em uma universidade brasileira.

Segue aqui um pouquinho mais sobre a tal exposição. Mais, você pode ler no Portal Funarte.

Entre 17 de setembro e 10 de novembro, a Fundação Nacional de Artes e o Festival Internacional de Teatro Anton Tchekhov, de Moscou, promovem em São Paulo o Espaço Tchekhov 2010. Com uma programação repleta de espetáculos, exposições e palestras, o projeto oferece ao público a oportunidade de assistir a diversas experiências cênicas desenvolvidas com base na vida e na obra do consagrado dramaturgo e escritor Anton P. Tchekhov (1860-1904). O evento, que ajuda a estreitar lanços culturais entre Brasil e Rússia, terá atividades realizadas no Complexo Cultural Funarte São Paulo e no Teatro de Arena Eugênio Kusnet.

E aqui, o programinha da GloboNews, na íntegra, com a professora Vassina. Recomendo muito que você assista!

Ah, e, se vale a sugestão, também recomendo esse artigo da Vassina aqui, que saiu na Revista Cult, no último mês de março.

E pra não dizer que não critiquei nada, pelo amor de БОГ, parem de uma vez por todas de seguir a estúpida cartilha do Estadão e falar Checov. Eles transliteraram de acordo com a ‘tabela internacional da transliteração bundalelê’. É TCHEKHOV, ou TCHERRÓV, viu, Edney?

Em tempo: БОГ = DEUS em russo

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