Mais do mesmo: nova Rússia de novo. Agora, na ‘Veja’
nov 14, 2011 Cultura, Na imprensa
Sem querer ser muito amargo, hoje em dia está difícil de ler coisas interessantes sobre a Rússia. E, sempre que sai alguma coisa em algum grande veículo, algum amigo lembra de mim e dá o toque. Essa semana, me avisaram que a ‘Veja‘ tinha um especial sobre ’20 anos do fim da União Soviética: a Nova Rússia’. Claro, a gente confere, sempre com a esperança de pintar um bom texto.
(AVISO: as linhas abaixo refletem minha opinião pessoal sobre o texto de uma revista. Logo, concordar ou discordar é válido. Mas sempre com respeito! E não sou nenhum comuna de DCE que odeia a Veja. Não gosto, na maioria das vezes, admito, mas tem muito trabalho de qualidade lá sim)
Peguei a revista e admito ter ficado um bocado frustrado. Ora, se já se passaram 20 anos do fim da grande piada que foi URSS, como é que uma matéria fica enfileirando clichês repetidos ad nauseam? Enfim, uma tristeza só. Como material complementar, tem até um vídeo… do Metrô de Moscou! Para quem isso é alguma novidade? Com tanta coisa legal rolando por lá, eventos, museus desconhecidos, paisagens incríveis, políticos fantásticos, figuras excepcionais, metrô de Moscou de novo???
E até tem esse vídeo aqui, sobre a ‘Mosfilm’, que é muito mais interessante e muito menos hypada. Teria, por si só, sido uma pauta excepcional. Mas claro, só quando você conhece coisas do cinema russo contemporâneo, né?
A matéria até começou interessante, com uma ‘estudante de linguística’ de 22 anos, epitetada como ‘da primeira geração de russos sem nenhuma memória pessoal em que sua pátria era o centro de um arranjo imperial totalitário’. Esse era o gancho, na minha opinião. Quem são esses jovens? Como vivem? O que pensam? E o que pensam da URSS? Mas aí a casa caiu.
A seguir, um encadeamento de críticas ao sistema democrático russo. Aliás, outra crítica vazia. Se o cara é eleito em um sistema defeituso, uma enorme, gigantesca parcela de culpa disso aí é do povo, que é apático. O russo adora dizer que ‘a eleição está definida’, que ‘o governo controla tudo’ e fazer piadinhas com eleições e Putin. Ora, mas se você não usar a coroa, tenha certeza, alguém vai usar. Hipocrisias postas de lado, aqui também temos um czar que tem poder para eleger pessoas absolutamente desconhecidas e, se quiser, ficar até mais tempo que Vladimir Putin no poder. Acho de uma deselegância – para não falar cara de pau – monstruosa o sistema brasileiro criticar o sistema russo, no viés eleitoral.
Três páginas se passam e a gente ainda está debatendo Putin, Medvedev, Brejnev e a URSS. Sem nenhum ponto novo. Um box e coisas como Brics (como se alguém ainda acreditasse e aguentasse Brics) e aquele papo de história x modernidade de Moscou. Sendo que ninguém mostra a modernidade. Você, leitor da grande imprensa, sabe algo sobre o fantástico complexo de negócios ‘Moscow City‘, nem tão novo assim?
Um box sobre a ‘Guerra Fria’. Sem comentários. Mas teve uma entrevista com Mikhail Prokhorov, o oligarca-gente-fina que queria ser presidente e foi ‘caçado’ por ser um… bandido oligarca! É, o cara que é sócio do Jay-Z no New Jersey Nets e tem uma fortuna de US$ 20 bilhões, sendo um dos 40 homens mais ricos do mundo, segundo a Forbes. Realmente, coitado. Mas, cadê a entrevista com o cara? Essa iria ser legal. Mas não, não tem…
Enfim, uma matéria legal para quem gosta de reler coisas antigas, mas não tem nada de novo. Muito bem escrita, demonstra uma cultura e uma memória googleana, um texto encadeadinho, fotos bem escolhidas, mas, novidade que é bom, nada. Talvez nos cinquenta anos do fim da URSS, alguém resolva contar coisas legais – e novas!
E, para poupar tempo da turma, deixo aqui uma dica pros ‘analistas’, um ‘como fazer uma matéria sobre a ‘Nova Rússia pós-soviética’ em 10 passos. Siga e você terá uma lindeza de texto do século passado!
1 – Encadear eventos históricos a partir de Gorbachev
2 – Fazer paralelos com a Guerra Fria
3 – Explicar a formação dos oligarcas a partir das reformas de Yeltzin
4 – Falar da ‘falta de liberdade e democracia’ da Rússia de Putin (lembrando que, entre alhos e bugalhos, o dito cujo foi eleito democraticamente em pleitos que nunca foram sequer questionados por quaisquer órgãos internacionais. Ou seja: Vladimir Putin e Dimitri Medvedev lá estão – e estarão – por vontade, ou falta de, do povo)
5 – Falar das medidas paternalistas e populistas ‘absurdas’ URSS-style da Rússia (bolsa-família, alguém?)
6 – Dizer que Putin explora o ‘sentimento de nostalgia’ da URSS na Rússia
7 – Explicar as ‘perseguições políticas’ que a Rússia vive hoje
8 – Falar, en passant, que a Rússia ocupa o 154o lugar no ranking de corrupção do mundo (o Brasil é o 69o)
9 – Ter como intérprete uma bela loirinha estudante de linguística
10 – Entrevistar um especialista dos EUA ou da Europa Ocidental.
Fiz um recorte do PDF só com a matéria. Se você quiser ler – e eu acho que vale a pena – faz o download veja_ed_2242_russia_final
Tags: cliche, matéria, nova rússia, veja
Rio de Janeiro vira matéria na revista do trem-bala russo
jul 7, 2011 Cultura, Na imprensa
Talvez nem todos saibam, mas a Rússia tem um trem-bala que liga Moscou-São Petersburgo-Nizhnyi Novgorod. Como em todo serviço premium, nele circula uma revista chamada ‘Sakvoyazh’ (Саквояж). É mais ou menos como as revistas de bordo de companhias aéreas, com variedades, destinos de viagem e tal. Pois bem, em maio, uma enorme matéria sobre o Rio de Janeiro chamou minha atenção na revista.
Bem escrita, do jeitinho que o turista gosta, o texto é assinado por Darya Tchurikova, que parece até se virar bem pela Cidade Maravilhosa. Para os russos, o Rio é sinônimo de verão sem fim, mas a autora já abre o texto avisando: não é bem assim, chove muito nessa cidade, sobretudo no verão. Pois é, a gente avisa, mas ninguém de lá escuta…
O que gostei da matéria é que ela realmente parece ter passeado pela cidade, e já começa dando uma ‘zoada’ nos turistões, no caso, da Alemanha. ‘…passeio pelos lugares turísticos. Mas é melhor fazer isso não como um turista alemão – enfiado em um ônibus – mas de metrô ou a pé’.
E ela vai narrando como desce no Largo do Machado, anda até Laranjeiras, chega na subida do Cristo, o que se ver lá em cima – e até conta um pouco da história de tudo. Dali, parte para as praias (Copacabana x Ipanema) e comenta até da Prainha e Grumari! E outra coisa que achei engraçada, que ainda não tinha notado: ‘Sentar-se nos banquinhos de madeira do bonde de Santa Teresa é como se tornar participante de um reality-show: – Oi Ricardo, como está sua perna? – Bem, obrigado, vai melhorando. Como tá o José?’. Imagino que ouvir esses nomes, esse papo e saber dos detalhes da vida de todos, para os russos, seja uma coisa bastante curiosa…
E, para fechar, Tchurikova fala dos preços absurdos da hospedagem no Rio. Dali, umas dicas de restaurantes – como toda boa turista russa, a repórter ficou em Copacabana, comeu no Carretão, no Sushi Leblon e passeou pelo Rio Sul e Botafogo Praia Shopping.
É muito bacana ler sobre seu país na imprensa internacional. Mesmo que não fale assim tão bem, é bom ter outros pontos de vista. E você imagine, cruzando as estepes entre as duas cidades mais importantes da Rússia, um país absolutamente longíquo, abrir uma revista e dar de cara com… o Rio de Janeiro? Exótico. Mas legal!
Se você puder, taí a matéria escaneada. Bom para quem ficou curioso ler e para quem está aprendendo, praticar. Afinal, há de chegar o dia em que todo estudante de russo vai ter que falar sobre seu país em alguma aula…
Tags: matéria, revista de bordo, sakvoyazh, sapsan, trem-bala
Mais um aniversário de Chernobyl…
abr 25, 2011 Ex-repúblicas, Na imprensa
Olha, nessa semana, já estava preparado pra enxurrada de matérias de/sobre Chernobyl. Como eu mesmo não tive tempo de preparar nada, aplico o princípio do ‘quem não sabe, bate palma’. Entre uma e outra coisa lida aqui, descobri que o camarada Rafael Maranhão, parceiro dos idos tempos de faculdade, tinha ido pra Ucrânia fazer uma cobertura especial. Fiquei preocupado quando soube da viagem do amigo pra Chernobyl, mas aí o cara falou que tomou as precauções e torcemos para que tudo permaneça bem.
Sobre o desastre nuclear, não há muita coisa nova para se falar. Mas vou reproduzir aqui a matéria do craque para o ‘Globoesporte.com‘. Aliás, bato palmas de pé, sobretudo para o lide da matéria, um dos melhores, mais sutis e sensíveis já escritos sobre a tragédia.
Pripyat fica no norte da Ucrânia, a duas horas de carro da capital Kiev e bem próxima da fronteira com a Bielorrússia. Tem um hotel de seis andares, um grande centro comercial, um centro cultural com salas de teatro e cinema, um parque de diversões e uma piscina olímpica coberta com área para saltos ornamentais. O que Pripyat não tem são moradores.
Vou postar somente um bom pedaço do texto. Mas recomendo fortemente que você clique aqui e leia o resto, além de ver a galeria de fotos. Vale a pena.
“Pripyat fica no norte da Ucrânia, a duas horas de carro da capital Kiev e bem próxima da fronteira com a Bielorrússia. Tem um hotel de seis andares, um grande centro comercial, um centro cultural com salas de teatro e cinema, um parque de diversões e uma piscina olímpica coberta com área para saltos ornamentais. O que Pripyat não tem são moradores. Há 25 anos, todos os 50 mil foram evacuados às pressas. Não faziam ideia do perigo que corriam com o acidente ocorrido um dia antes no reator 4 da central nuclear de Chernobyl que, de tão próxima, podia ser vista do topo dos edifícios onde viviam. Achavam que estariam de volta dentro de alguns dias e que assistiriam à inauguração do estádio de futebol da cidade. Viraram os primeiros refugiados de um acidente nuclear da história.
Quase uma década depois do acidente alguns moradores foram autorizados a voltar a Pripyat caso quisessem recuperar seus pertences. A maioria nunca pisou lá novamente. A cidade fantasma virou cenário de jogos de videogame, objeto de estudos científicos e ponto turístico. Entra-se lá apenas acompanhado de guias autorizados, que seguem de perto os passos dos visitantes para evitar a retirada de objetos contaminados pela radioatividade e atos de vandalismo, como os que danificaram bastante o interior dos prédios.
Hoje quem circula pela principal praça da cidade, antigo cartão postal de Pripyat com o centro cultural e o Hotel Polissya, são pequenas cobras que se escondem na vegetação contaminada. É difícil vê-las entre as raízes das árvores, até que a presença dos seres humanos faz com que se agitem e dispersem em busca de abrigo. Esse é o caminho até o ginásio central de Pripyat, localizado atrás do centro cultural. Na quadra, as balizas ainda estão no lugar para uma partida de handebol que ou foi interrompida ou nunca chegou a ser disputada.
O esporte mais popular ali, porém, era outro. As paredes de um dos lados da quadra, entre as portas dos vestiários, têm molduras cobertas com dezenas de fotos e recortes de jornais e revistas sobre jogos de vôlei. São imagens empalidecidas, faltando pedaços, em sua maioria registros de partidas da seleção da União Soviética. Numa é possível identificar que se trata dos então ainda recentes Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, em que os soviéticos conquistaram a medalha de ouro nos torneios masculino e feminino.
Do lado oposto da quadra, pelas janelas sem vidraça do ginásio central, surge a roda gigante que não se move desde 1986 e que virou marca da cidade abandonada. Logo atas dela vê-se os postes dos refletores do estádio de Pripyat, que estava em fase final de construção. Parque de diversões e estádio seriam inaugurados oficialmente no feriado de 1º de maio, Dia do Trabalhador e uma das mais importantes celebrações do período comunista. Cinco dias antes o reator 4 de Chernobyl explodiu espalhando resíduos radoativos pelo ar.
O estádio onde a bola nunca rolou seria a maior praça de esportes da região, com arquibancada central coberta e uma pista de atletismo ao redor do gramado. Até então havia apenas um pequeno campo nos arredores da cidade, com arquibancadas de madeira. Após o acidente, o novo estádio de Pripyat virou base para helicópteros de transporte dos soldados que arriscavam a vida despejando areia e chumbo para tentar conter o incêndio no reator. Eram medidas desesperadas contra um acidente sem precedentes, causado por uma falha no que deveria ter sido um teste de segurança. O estádio também foi usado como pista de pouso para retirada de doentes e feridos. Por isso, ainda é um dos locais com níveis de radiação mais altos da cidade.
Pripyat começou a ser construída em 1970, batizada com o nome do rio que corta a região e que motivou a escolha do local para a instalação do complexo de Chernobyl, a apenas 3 km de distância dali. Era uma das “atomograd”, as “cidades nucleares” projetadas para os funcionários das usinas e seus familiares, exemplos de modernidade e do sucesso do programa energético da antiga União Soviética. Pripyat foi elevada à categoria de município em 1979. A maior parte de seus moradores viveu menos de uma década lá.
Há sete anos, alguns deles resolveram criar uma comunidade virtual, o site Pripyat.com, que acabou virando um ponto de encontro dos que foram obrigados a abandonar suas casas em toda a área de exclusão de 30 km criada após o acidente nuclear. Os responsáveis pelo site tentam manter viva a história de Pripyat e lutam para que a cidade seja preservada como um museu ao ar livre, protegida contra invasores e com limites para atividades turísticas. Um dos idealizadores do movimento, o fotógrafo e ex-morador de Pripyat Alexander Sirota escreveu certa vez sobre o lugar de onde veio.”
O resto está aqui.
Tags: acidente, atômica, chernobyl, globoesporte, matéria, nuclear, rafael maranhão
Mais Baryshnikov no Brasil: texto para a Gazeta Russa
out 7, 2010 Cultura, Matérias, Na imprensa
E aqui vai o textinho sobre o Baryshnikov, publicado na Gazeta Russa de 4 de outubro. Como disse no post anterior, infelizmente, não consegui falar com o próprio. Embora um pouco frustrado, fiquei feliz em ver a entrevista dele ao Globo, para a Fernanda Godoy, que mora em Nova York. Coisas da vida… Ao texto, então:
“Quando o Brasil e Mikhail Baryshnikov se reencontrarem, no próximo dia 19 de outubro, em SP, ambos vão perceber que muita coisa mudou desde os últimos passos dados por aqui, no palco do Centreventos Cau Hansen, em Joinville, em 2007. Aos 62 anos, mas com um vigor de garoto, a lenda viva da dança esbanja maturidade, agora ao lado da espanhola Ana Laguna. E o país do samba prova, a cada visita do bailarino, que há lugar em seu coração para os movimentos precisos, firmes e delicados da dança contemporânea.
Baryshnikov, nascido na Letônia, acolhido pelos EUA – onde brilhou nos palcos, no cinema, e na TV – já conhece bem os palcos verde-amarelos: essa é sua 5ª visita ao país. Após uma visita solo, em 1998, e outra com sua companhia, a Hell`s Kitchen, em 2007, traz o espetáculo Três Solos e Um Dueto, com coreografias dos renomados mestres Mats Ek, Benjamin Millepied e Alexei Ratmansky.
E o espetáculo em parceria com Ana Laguna é mesmo especial. Trata-se de sua maior turnê pela América Latina – além das cinco cidades pelo Brasil, ele se apresenta ainda na Argentina e no Peru, onde nunca esteve. E uma viagem dessa natureza, para profissionais com a idade mais avançada (Mikhail tem 62, Laguna, 54) requer cuidados especiais. Ambos viajam com uma equipe própria de profissionais para tentar minimizar o impacto dos voos, compromissos, ensaios e 12 apresentações em menos de um mês. Uma rotina pesada mesmo para simples mortais, que dirá para dois experientes ícones da dança.
E, se o nome Baryshnikov inspira grandiosidade, sua simplicidade e humanidade sempre surpreendem a todos. No RJ, ele não fez nenhum pedido de estrela. Nada de centenas de toalhas brancas ou dezenas de frutas exóticas em hoteis cinco estrelas. O que ele exige, única e exclusivamente, é poder ensaiar muitas horas por dia, nas vésperas das apresentações. Segundo Maria Rita Stumpf, produtora da turnê, Baryshnikov só fez dois pedidos: não ser tratado como celebridade, mas sim como bailarino; e que seus espetáculos tenham preços, senão ‘populares’, pelo menos acessíveis a todos os públicos – e isso se confirma com os lugares mais baratos sendo vendidos a módicos R$ 50, coisa impensável quando se tem em mente espetáculos de dança contemporânea desse nível.
Mas, afinal, qual a diferença entre as turnês? O que poderia atrair o público, já que esta é a quinta visita do artista ao país? Para Maria Rita, cada aparição é única. E o espetáculo de agora, ao lado de Ana Laguna, é mais especial ainda, pois pode ser a última chance de vê-lo em ação por aqui. ‘Ele não quer ficar fazendo turnê o ano todo, todo ano. Mas incluir a América do Sul acontece em função da apreciação que ele tem pelo nosso país’, diz a produtora, explicando ainda que foram dois anos de montagem do espetáculo e a negociação para a vinda da dupla ao Brasil. Um longo caminho até os aplausos do público verde-amarelo.
Além de encantar o público, Misha – apelido em russo derivado de seu nome, Mikhail – também pretende cumprir outros objetivos em terra brasilis. O primeiro e mais importante é sempre lapidar novos bailarinos, ajudar a formá-los e a criar espaços. Para isso, além de manter seu centro de referência, o Baryshnikov Arts Center, em Nova York (www.bacnyc.org), sua equipe vai dar ‘master classes’ nas praças das apresentações por aqui. Serão entre 15 e 20 sortudos bailarinos, com boa qualificação e selecionados para um treinamento inesquecível com algumas das maiores lendas da dança de toda a história.
O outro de seus objetivos, em sua nova passagem pela América Latina, é divulgar seu ainda pouco conhecido trabalho como fotógrafo. Ele traz consigo ‘Dominican Moves’, seu portfólio de fotos feitos na ilha caribenha, onde ele tem uma casa de veraneio, em Punta Cana. A exposição, que já passou por lugares como o Museu Pushkin, em Moscou, o Metropolitan Opera House, em NY e o Kennedy Center, em Washington, retrata movimentos de dançarinos do país da América Central, em uma surpreendente fusão de ritmos.
E estar em nosso país, mesmo após todas essas visitas, não deixa de ser um encanto para Baryshnikov. ‘Ele gosta muito daqui, tem fascínio pelo Rio de Janeiro, está muito empolgado para conhecer o Peru. Toda essa turnê deixa ele muito empolgado’, diz Maria Rita. De fato, uma coisa comum aos russos é o encanto pela Cidade Maravilhosa – e pelo tão prometido calor dos países latinos. ‘Poder vir ao Brasil, trabalhar aqui, estar aqui, parece sempre ser um privilégio para Misha’, completa a produtora. E para a gente, certamente, também é.
Onde e quando:
São Paulo (19 e 20 de outubro, no Teatro Alfa
Porto Alegre (27 de outubro, no Teatro do SESI)
Rio de Janeiro (29 e 31 de outubro, no Theatro Municipal),
Brasília (4 de novembro, no Teatro Nacional Cláudio Santoro)
Manaus (14 e 15 de novembro, no Teatro Amazonas)
Detalhes do espetáculo (texto da assessoria):
Em Três Solos e Um Dueto, Mikhail Baryshnikov e Ana Laguna brilham em um programa de quatro peças . O primeiro é Valse-Fantasie, com coreografia do russo Alexei Ratmansky, no qual Baryshnikov dança o tema do compositor Mikhail Glinka (1804-1857), considerado o pai da música erudita russa. A seguir Ana Laguna dança uma versão de Solo for Two, criada especialmente para ela pelo coreógrafo sueco Mats Ek, com quem é casada. O terceiro segmento traz uma nova versão do incensado número Years Later, em que Baryshnikov dança à frente de imagens de si mesmo jovem, em coreografia do francês Benjamin Millepied, o principal nome do New York City Ballet. No encerramento, os dois artistas voltam juntos ao palco em Place, peça de 22 minutos coreografada por Mats Ek, na qual Baryshnikov e Ana Laguna interagem, em movimentos harmoniosos, com uma mesa e um tapete, trazendo os elementos cenográficos ao centro da narrativa.”
Tags: baryshnikov, brasil, dança, gazeta russa, matéria, serviço
Baryshnikov em ‘O Globo’
out 6, 2010 Cultura, Matérias, Na imprensa
Como o Globo Digital só traz um trechinho da matéria, reproduzo aqui as perguntas publicadas no site, da entrevista feita pela Fernanda Godoy com o Baryshnikov. Lembro que o sujeito é muito avesso a entrevistas e, qualquer chance de lê-lo ou ouvi-lo não deve ser desperdiçada!
Algumas coisas ditas por ele me foram confirmadas pela produtora Maria Rita Stumpf, com quem falei para fazer a materinha para a Gazeta Russa. Espero poder ver o espetáculo e fico muito feliz com a visita de um artista desse nível, nesse ponto de sua vida, a nosso país.
O link para a matéria no Globo está aqui.
Mito da dança, Mikhail Baryshnikov traz ao Brasil espetáculo que reflete suas experiências
Publicada em 03/10/2010 às 09h11m / Fernanda Godoy, correspondente
NOVA YORK – É o próprio Mikhail Baryshnikov quem abre a porta de entrada do Baryshnikov Arts Center, uma vibrante instituição interdisciplinar no bairro nova-iorquino conhecido como Hell’s Kitchen. O prédio, no momento em obras, é a materialização da visão de mundo daquele que carrega com graça e leveza o título de maior bailarino do planeta. Hoje com 62 anos, Mikhail Baryshnikov é um homem que vive para a criação, um artista com múltiplos interesses: fotografia, cinema, música, literatura, e, claro, a dança contemporânea. Todo vestido de preto, óculos de aros metálicos que não escondem a beleza de seu rosto, Baryshnikov recebeu O GLOBO para quase uma hora de entrevista franca, na qual falou sobre suas reflexões a respeito da vida e da arte. Em breve, ele embarca para o Brasil, onde no dia 19 estreia, em São Paulo, a temporada sul-americana do espetáculo “Três solos e um dueto”, com a bailarina espanhola Ana Laguna, de 54 anos. No Rio, ele se apresenta no Municipal nos dias 29 e 31.
Como surgiu esse espetáculo “Três solos e um dueto”? E a ideia da turnê na América do Sul?
MIKHAIL BARYSHNIKOV: O coreógrafo Mats Ek propôs este projeto com sua mulher, Ana Laguna, e começamos a trabalhar, nos apresentamos na Suécia. Enquanto isso, finalizei alguns solos. Começamos a fazer esse programa com diferentes coreógrafos: além de Mats Ek, Alexei Ratmansky e Benjamin Millepied. Nos últimos dois anos apresentamos o espetáculo com Ana Laguna e eu. Esta turnê que passa pelo Brasil é a última deste programa. Maria Rita (a empresária Maria Rita Stumpf) viu o espetáculo na Europa, perguntou se gostaríamos de levá-lo à América do Sul, e concordamos com a maior alegria.
O senhor disse na época ter ficado surpreso quando Mats Ek o convidou para este espetáculo. Qual o limite de idade para um bailarino continuar se apresentando?
Fiquei prazerosamente surpreso. Entendi na hora que foi uma iniciativa da Ana Laguna. Um homem faz aquilo que a mulher quer que ele faça (risos). Acho que esta peça reflete uma experiência de vida, é sobre pessoas que já passaram do seu apogeu: Ana está na casa dos 50 anos, eu estou com 60 e poucos, não é um espetáculo de dança alegre, de gente jovem, é mais uma dança teatral, o tipo de show que Mats sempre faz, mais abstrato.
O senhor sente que algumas formas de expressão ficam mais afiadas com o tempo?
É uma acumulação de experiência de vida, é normal em qualquer tipo de dança, seja tango, flamenco, kabuki, há certos tipos de dança que permitem às pessoas envelhecer com elegância e se expressar de outras maneiras. Aceitei essa oportunidade e não me decepcionei. Ela (Ana Laguna) é uma performer extraordinária, eu conhecia o casal socialmente há muitos anos, aí trabalhamos na Espanha, é uma grande família teatral, com muita tradição de criar e produzir espetáculos. Foi uma experiência boa.
O senhor é conhecido como um artista com interesse por coisas novas, com energia para experimentar. O que o motiva hoje?
Tenho medo do tédio, é isso. O tédio é o verdadeiro sinal do envelhecimento. Quando você não sabe o que fazer com o tempo, esse tipo de coisa. Não tenho esse problema, porque além da minha carreira pessoal, tenho esta instituição para cuidar, é um empreendimento, e ela ocupa 99% do meu tempo, todos os dias. É uma instituição pública, mas não é do governo, é preciso conseguir doações para manter as bolsas, temos dois teatros com performances de pessoas que vêm de toda parte, cinema, festivais.
O senhor já esteve outras vezes no Brasil, onde tem uma grande legião de admiradores. É possível que muitos sintam que será a última vez que o verão no palco. Como o senhor imagina isso?
É possível que esta seja a última vez. Ou posso voltar com uma peça. Mas, quanto à dança, não estou planejando me envolver com outro projeto no ano que vem, porque o teatro me fará ir à Europa com frequência, e tenho que me dedicar ao instituto. Pode ser meu último projeto de dança na América do Sul. Mas quero enfatizar que é um espetáculo de dança teatral, um espetáculo adulto, é sobre duas pessoas, um pouco sobre nossas carreiras, minha e da Ana, crescendo em países diferentes, línguas diferentes, mas no final nós dançamos juntos, somos um casal. É algo sobre relacionamentos, sobre o amor, sobre a vida, experiências de vida, diria que são quatro histórias em uma noite, e quatro histórias muito diferentes. Considerando a minha idade, eu não voltaria ao Brasil com um programa mais forte do que este. Aceitei o convite porque sei que funciona. Apresentamos este programa na Letônia, na Polônia, na Suécia, em Israel, na Itália, na Espanha, e sempre tivemos reações incríveis da plateia, que responde de maneira pessoal. Foi muito recompensador, porque não é sobre nós, é sobre eles também, estamos interpretando a história da vida deles.
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