Cegonhas: uma triste história da Guerra Mundial
nov 16, 2011 Cultura, Vida na Rússia
Na minha primeira viagem à Rússia passei algum tempo no Cáucaso, em Vladikavkaz, na Ossétia do Norte. E, durante uma das viagens pela região, parei para tirar essa foto, especificamente neste monumento com sete cegonhas unidas pelas asas, em formação. A honraria fica à beira da estrada que liga Vladikavkaz a Alagir, uns 30km a oeste da capital norte-ossetina, antes da ponte sobre o famoso rio Fiagdon.
Antes, nunca poderia pensar que iria passar por um ‘monumento de cegonhas’, dos muitos espalhados pela Rússia, muito menos por esse, especificamente, que era o primeiríssimo de todos. Havia ouvido a história dele, algum tempo atrás, e fiquei muito emocionado. Bom, vou contar aqui algumas partes que lembro e de mais detalhes que achei na internet.
No pequeno povoado de Dzuarikay, na Ossétia do Norte-Alania, as notícias da Guerra Patriótica chegavam sem fim, no ano de 1941, dando conta de que todos eram necessários no front. E os sete filhos de uma das famílias da cidade, os Gazdanov, se apressaram e correram para a batalha. Magomed, Dzarahmat, Hadzhismel, Maharbek, Sozryko, Shamil’ e Hasanbek.
O mais novo deles, Hasanbek, quando foi convocado tinha apenas 17 anos. Mesmo sem ter sapatos ou saber como voltar para seu povoado, não se furtou à luta. Dzarahmat, que partiu em 1941, foi o único a ter se casado e deixou a esposa grávida. Alguns meses depois, ele soube por carta do nascimento da filha, Mila.
Mas a sorte não sorriu para a família. Os Gazdanov realizavam funerais um após o outro. Hadzhismel e Magomed morreram em Sevastopol, Dzarahmat – em Novorossisk, Sozriko – em Kiev, Maharbek em Moscou, Hasanbek – na Bielorrússia, Shamil’ foi ferido mortalmente na véspera do Dia da Vitória, às portas de Berlim.
A mãe, Tassa Gazdanova, dia e noite esperava notícias de seus filhos e ia, todos os dias, até a estrada por onde os viu partir, à espera de cartas, que quase nunca chegavam até este remoto povoado no Cáucaso. Mas o que apareciam eram as notícias das mortes, uma atrás da outra. Após o terceiro luto, porém, ela não aguentou e morreu, com a pequena filha de Dzarahmat, Mila, no colo.
A família tinha uma enorme casa de dois andares. Logo após a partida do último dos irmãos Gazdanov, uma bomba alemã caiu e destruiu metade dela. Hoje, na escola do povoado, há um pequeno museu com uma maquete da casa e alguns dos pertences dos herois da URSS, bem como medalhas e honrarias. E, eventualmente, alguém da família recepciona os convidados.
Além da filha Mila, Dzarahmat teria hoje seis netos e 13 bisnetos. De emblemática, a União Soviética teve dois famosos casos de famílias que praticamente sumiram com a guerra: os Ivanov, que tiveram nove irmãos mortos; e os Gazdanov, com sete.
O monumento foi criado em 1963 pelo artista Sergei Pavlovich Sanakoev (1920-2002). É um pedestal, de onde partem para o céu sete cegonhas, unidas pelas asas. Sob a pedra, chora a mãe Tassa Gazdanova. Mas, de onde vem a ideia dos soldados mortos virarem cegonhas?
Em 1968, o poeta dagestani Rasul Gamzatov, em visita a Hiroshima, no Japão, ficou muito impressionado com a destruição da guerra e com aquelas pequenas cegonhas* feitas em origami por uma criança japonesa, em um monumento. Então, escreveu o poema ‘Cegonhas’, na língua Avar (do norte do Cáucaso). Algum tempo depois, Naum Grebnyov, um famoso tradutor de línguas caucasianas e colega de Gamzatov, fez sua versão em russo para a obra, que foi publicada na revista ‘Novyi Mir’.
Original (na língua avar)
Къункъраби
Дида ккола, рагъда, камурал васал
Кирго рукъун гьечIин, къанабакь лъечIин.
Доба борхалъуда хъахIил зобазда
ХъахIал къункърабазде сверун ратилин.
Гьел иххаз хаселаз халатал саназ
Нилъее салам кьун роржунел руго.
Гьелъин нилъ пашманго, бутIрулги рорхун,
Ралагьулел зодихъ щибаб нухалда.
Боржун унеб буго къункърабазул тIел,
Къукъа буго чIварал гьудулзабазул.
Гьезул тIелалда гъоркь цо бакI бихьула —
Дун вачIине гьаниб къачараб гурищ?
Къо щвела борхатаб хъахIилаб зодихъ
ХъахIаб къункъра лъугьун дунги паркъела.
Гьелъул гьаркьидалъул ракьалда тарал
Киналго нуж, вацал, дица ахIила.
Tradução original de Naum Grebnyov
Журавли
Мне кажется порою, что джигиты,
С кровавых не пришедшие полей,
В могилах братских не были зарыты,
А превратились в белых журавлей.
Они до сей поры с времен тех дальних
Летят и подают нам голоса.
Не потому ль так часто и печально
Мы замолкаем, глядя в небеса?
Сейчас я вижу: над землей чужою
В тумане предвечернем журавли
Летят своим определенным строем,
Как по земле людьми они брели.
Они летят, свершают путь свой длинный
И выкликают чьи-то имена.
Не потому ли с кличем журавлиным
От века речь аварская сходна?
Летит, летит по небу клин усталый -
Мои друзья былые и родня.
И в их строю есть промежуток малый -
Быть может, это место для меня!
Настанет день, и с журавлиной стаей
Я улечу за тридевять земель,
На языке аварском окликая
Друзей, что были дороги досель.
Расул Гамзатов.
Покуда вертится Земля.
Махачкала, “Дагучпедгиз” 1976.
Após a publicação, o famoso cantor soviético Mark Bernes adaptou a letra e, junto com a melodia de Yan Frenkel, compôs uma das mais belas e conhecidas canções sobre a Grande Guerra Patriótica – a nossa II Guerra Mundial. Chamada ‘Cegonhas’, é cantada sempre e emociona todo mundo. Uma daquelas que você tem que aprender e saber, se quiser entrar um pouquinho na língua e na alma russa, aliás, não só russa, mas soviética. Meu conselho? Aprenda. Ela é de um tempo que evoca uma grande verdade nos russos, explicitada em um comentário no vídeo do YouTube:
Это советская песня. И люди, которые писали, пели и играли ее – советские. Советские люди не делили друг друга по национальностям.
Советские люди дополняли друг друга своими национальными особенностями.
Сейчас национальными особенностями все больше разделяют друг друга.É uma canção soviética. E as pessoas que compuseram, cantaram e tocaram essa canção eram soviéticas. Pessoas soviéticas não separavam uns aos outros por nacionalidade. Elas completavam umas às outras com suas particulariedades nacionais. Hoje, as particulariedades nacionais cada vez mais separam uns aos outros.
Essa é a versão de Bernes. Abaixo, minha humilde tradução.
Мне кажется порою, что солдаты
С кровавых не пришедшие полей,
Не в землю нашу полегли когда-то,
А превратились в белых журавлей.
Они до сей поры с времен тех дальних
Летят и подают нам голоса.
Не потому ль так часто и печально
Мы замолкаем глядя в небеса?
Летит, летит по небу клин усталый,
Летит в тумане на исходе дня.
И в том строю есть промежуток малый -
Быть может это место для меня.
Настанет день и журавлиной стаей
Я поплыву в такой же сизой мгле.
Из-под небес по-птичьи окликая
Всех вас, кого оставил на земле.
Мне кажется порою, что солдаты
С кровавых не пришедшие полей,
Не в землю нашу полегли когда-то,
А превратились в белых журавлей.
Me parece por vezes que os soldados
que de sangrentos campos não voltaram
quando não descansaram em nossa terra
transformaram-se em brancas cegonhas
Eles desde estes tempos tão distantes
Voam e descaem vozes para nós
Não será por isso, frequente e tristemente
Que silenciamos olhando para o céu
Eles voarão e voarão pelo céu, fatigados
Eles voarão pela névoa até o dia terminar
E naquela formação há um pequeno vazio
Pode ser que seja um espaço para mim
Chegará o dia que com a revoada de cegonhas
Eu flutuarei na mesma bruma plumbosa
Sob o céu, chamando como um pássaro,
por todos vocês, a quem eu na terra deixei.
*Segundo apontou a leitora Adriana Romano, a tradução correta seria ‘grou’ e não ‘cegonha’. Tem um texto muito bom sobre isso no blog ‘Muito Japão’, dá uma lida.
Tags: barnaul, cáucaso, cegonhas, história, musica, ossétia do norte
Trazendo de volta a hit parade do rock russo
ago 21, 2011 Cultura
Hoje estava aqui ouvindo um rádio – aliás, minha favorita é a Наше (Nashe) – e lembrei que há muito tempo eu não postava aqui o hit parade deles. É bom pra turma que está se familiarizando com língua, cultura e música entrarem no clima. E não acharem que música russa se resume àquela breguice de coisas de 1900 e antigamente, menininhas gritantes, dancezinhos frufruzentos e hinos soviéticos…
Bom, a parada deles você pode acompanhar aqui. Mas dá trabalho ir lá e catar as músicas. Aí eu faço a listinha, posto os links e deixo aqui tudo certinho, na ordem do número 1 até o número 10, pra você só clicar e ouvir. Vamos lá:
Gosto muito dessa bandinha que está no topo, a Louna, que é completamente nova. Foi formada em 2009, com dois armênios que dão um toque bem legal ao som do grupo, a vocalista Lucine Gevorkian e o guitarrista Ruben Kazaryan. Rapidinho, eles estouraram e tem uns clipes espetaculares. Vale muito a pena conferir o álbum deles Сделай громче!
Louna – Сделай громче
O Сплин (Splin) já é uma das bandas mais tradicionais do rock russo. Formado em 1994, com 13 álbuns absolutamente imperdíveis, letras interessantíssimas e um som totalmente peculiar, é um grupo russo que você tem que conhecer, se quer entender a nova geração do rock russo. Essa música, especificamente, é mais uma bela composição de Sasha Vasiliev e cia.
Сплин – Летела жизнь
Os terceiro e quarto lugares são aquelas estranhezas. O Igor Rasteryaev nunca me disse nada, lógico, sou brasileiro e acho as músicas com garmoshka, sei lá o que é aquela sanfona, chatas. Ainda mais músicas sobre guerra, soldados, Rússia e sanfona. Não dá. Assim como também já meio que enjoei do metal-metal do Kipelov e sua atmosfera RPG-filme-de-dragão. Mas eles fazem o maior sucesso e até que não incomoda ouvir. Tirando o Rasteryaev…
Игорь Растеряев – Русская дорога
Кипелов – Власть огня
O [AMATORY] é um caso a parte. É mais uma bandinha de Nu-Metal de São Petersburgo. Mas até que é legal. Fazem barulho, tem letras interessantes e são divertidos. Têm esse lance dos colchetes, meio web-fashion, são meio posers, mas confesso que eu curto.
[AMATORY] – Белый шум
КняZz é o Andrey Kniazev, vocalista do Король и Шут, acho que a mais pop das bandas de punk rock da Rússia, que lançou seu projeto-paralelo-álbum-solo que é beeem legal. Curti bastante, não tinha ouvido e realmente o cara tem a manha de fazer canções pop-rock de qualidade que colam na nossa cabeça.
КняZz – Человек – загадка
O Пикник eu nem sabia que ainda existia. Aliás, eles existem de tempos em tempos. Não sou muito fã, mas aprendi a respeitar.
Пикник – Не в опере Венской
Agora, meus dois favoritos da atualidade: Смысловые Галлюцинации, com o grupo Курара, e Animal Джаz. O primeiro eu ouço praticamente todo dia, e esse single é bem bom. O Animal Jazz também é imperdível, baixem qualquer coisa deles que é muito bom.
Курара и Смысловые Галлюцинации – Надо больше хорошего
Animal Джаz – Осень 2010
Lumen é outra daquelas bandas alternativas que aparecem de tempos em tempos com um puta hit, como esse agora Секунда. São de Ufa, capital do Bashkirstão, e tem um jeitão meio punk, meio indie, com aquela sonoridade melancólico-crepuscular que só o rock russo tem. Também curto!
Lumen – Секунда
É isso aí. Sigo aqui ouvindo Animal Джаz e Смысловые Галлюцинации.
Tags: clipes, musica, nashe, rock russo, sucessos
Tem brasileira cantando na terra da vodka
jul 19, 2011 Cultura, Na imprensa
Topei com a notícia de que tinha uma cantora brasileira que estava aparecendo bem na Rússia faz pouco tempo. Uma amiga comentou comigo e não tive como ignorar. A mulher já tinha cantado pros figurões do Kremlin, recebido Lula, estava gravando com Chris Powell – produtor que já trabalhara com Rihanna e Beyoncé – e anda aparecendo em todas as revistas Rússia afora. Certamente, vai ser bem legal e curioso se uma carioca neta de baianos realmente arrebatar a Rússia, os EUA e o Brasil, como ela planeja.
Para ler a matéria no G1, clique aqui.
Brasileira que já cantou para Medvedev e Lula vira ídolo na Rússia
O jeito de cantar, andar, o olhar e, sobretudo, a morenice típica brasileira entregam: ela é brasileira e está virando moda. O inusitado é o sucesso acontecer primeiro na Rússia, Ucrânia e países vizinhos. Gabriela é carioca, neta de baianos e mora há cinco anos em Moscou, onde casou e tem uma filha. Já cantou para dois presidentes – Lula e Dmitri Medvedev – e foi finalista de um dos mais populares concursos musicais por lá, o ‘Novaya Volna’. E isso não é pouco.
‘Eu canto desde os sete anos, passei por várias bandas no Brasil, viajei por outros países e acabei parando aqui, há cinco anos’, conta a cantora. Mas esse ainda não era o fim da história. Seu contrato acabou logo em seguida, o que a obrigou a voltar para o Brasil. Em 2007, Gabriella retornou à Rússia para fazer mais shows, e acabou conhecendo seu futuro marido, um russo. ‘Ficamos naquela, eu indo pra lá, ele vindo pra cá, Brasil, Rússia, mas há dois anos nos casamos, e foi quando eu realmente comecei a trabalhar, com trabalho de divulgação’, explica.
Mas a grande virada aconteceu no meio de 2010, quando Gabriella participou no ‘Novaya Volna’, que significa nova onda, um concurso de talentos no estilo ‘American Idol’, que privilegia países russófonos. A brasileira avançou até as finais e, com um estilo bem peculiar, acabou roubando a cena. Conseguiu convites para tocar em praticamente todos os palcos de Moscou e fechou o ano com chave de ouro: um concerto de ano novo com o alto escalão da política russa, incluindo o presidente Dmitri Medvedev.
‘Nesse show, eu fiz um dueto com um grande cantor daqui, o Sergei Mazaev, cantamos uma música da Alcione, ‘Não deixe o samba morrer’, eu fazia uma parte em português e ele, uma parte em russo’, lembra a cantora, que acabou sendo incluída no ranking dos melhores artistas da Rússia de 2010. ‘Sou uma das tops daqui, acredita?’, fala, entre risos.
E, depois do show, Gabriella ainda teve a chance de dançar com Medvedev. ‘Ele disse que gostou muito do jeito que eu cantei’, revela. A performance de reveillon rendeu mais convites para outros shows para os figurões da política russa, no final de 2011.
Como se não bastasse, a brasileira também acabou em um evento para o então presidente Luís Inácio Lula da Silva, que visitou a Rússia em junho do ano passado para celebrar a o acordo que aboliu a exigência de vistos para turistas entre os dois países. ‘Ele ficou conversando comigo um tempão! Perguntou qual era minha cidade, o que eu estava fazendo ali, perguntou tanta coisa… Ele foi muito educado, gentil, foi inesquecível’, diz.
Gabriella só desanima quando perguntada sobre o porquê de não ser conhecida no Brasil. ‘É sempre mais difícil vencer na sua casa, no seu país’, justifica. Mas seus planos são ambiciosos e ela parece estar decidida a conquistar não só a Rússia, como também o Brasil e os Estados Unidos. Com forte apoio da gravadora, ela foi buscar nos EUA Chris Powell, produtor que já trabalhou com Rihanna, Beyoncé, Paula Abdul e outros, para preparar seu próximo single, ‘James Bond’, cujo clipe teve o maior orçamento para um videoclipe da Rússia pós-crise – onde desfilam figurinos caríssimos entre Porsches, Bentleys e Spykers – no melhor estilo hip-hop norte-americano.
Mas, enquanto a carreira parece estar bem encaminhada, com clipe, single, aparições em revistas como Maxim, Billboard, Glamour e afins, Gabriella agora pena para equilibrar as raízes verde-amarelas com a vida na Rússia. Ela ainda precisa de legendas durante as entrevistas em russo e seu português já parece sofrer os efeitos dos anos longe de casa. ‘Vou ter que treinar, voltar a praticar, já que quero muito voltar a trabalhar no Brasil. Estou até esquecendo as palavras’, brinca, sem medo da eventual concorrência de outros artistas brasileiros que possam pousar na Rússia. ‘Espero que apareçam mais, e que mostrem o talento que nós temos para todo o mundo’.
Tags: brasileira, cantora, gabriella, musica, novaya volna
Em frente à embaixada do Brasil…
nov 26, 2010 Cultura, Língua Russa
Eu evito ao máximo tentar traduzir coisas. Travamento meu. Mas essa aqui, botei os óculos e escuros e me atrevi. Trata-se duma música do único disco (acho) do louco Semyon Slepakov (Семён Слепакoв), um dos criadores do programa de comédia crítica chamado ‘Наша Russia’ (Nasha Russia, Nossa Rússia, mas tem que pronunciar Rasha, como um russo tentando falar inglês…), que zoa de todas as formas imagináveis com os esterotipos, situações e afins de lá. Uma espécie de ‘CQC’ ou ‘Casseta e Planeta’. Só que engraçado…
Então, aí que o patrono ad eternum do blog, fonte eterna de conhecimento crítico sobre a Rússia, o nosso bom amigo siberiano Shashkov, manda pro meu e-mail esta pérola, este clipe, do Slepankov. A música chama-se ‘Перед посольством Бразилии’ (Pered posol’stvom Brazilii, Em frente à embaixada do Brasil). É algo como a história de um maluco frustrado russo para em frente à nossa representação consular e começa a viajar sobre como seria estar ali com os brasileiros, ou como seria estar no próprio Brasil.
Daí, a letra em russo essa a seguir. E tem minha…errr… tradução, embaixo. E não precisa nem dizer né? Se você achar que eu vacilei em algo na versão em português, é só largar um comentário.
Перед посольством Бразилии
В пьяном трёхдневном угаре
Я помечтаю в бессилии
О равномерном загаре
Там, за дубовою дверью
Консулы слушают самбу
К ним бы втереться в доверие
И оказаться бы там бы
Там где лишь солнце и пальмы
Там где лишь небо и волны
Где все милы нереально
и максимально довольны
Где в хаотичном порядке
Бёдрами плавно качая
Ходят по пляжу мулатки
Требованиям всем отвечая
Дремлют на лавках бродяги
Средь бесконечного лета
И развиваются флаги
Жёлто-зелёного цвета.
В солнечном городе Бога
Ласковым каменным взглядом
Он по-отечески строго
Смотрит с горы Корковадо
Там в полумраке гостиной
Слушая звуки гитары
Я бы срезал гильотиной
Кончик кубинской сигары
И в брюках из хлопковой ткани
Глядя в глаза океану
Грусть утопил бы в стакане
На пляже Копокабана
И на младых бразильянок
Пылких и жгучих как лава
Я бы в ночных ресторанах
Всё бы спустил до сентаво
Но перед посольством Бразилии
Наша российская лужа
Граждане ходят унылые
И понедельник к тому же…
Em frente à embaixada do Brasil
De ressaca após beber por 3 dias
Eu começo a sonhar, impotente
Com um bronzeado uniforme
Lá, atrás duma porta de carvalho
Os cônsules escutam samba
Para lá eu, me infiltraria na confiança
E ficaria por lá, se pudesse
Lá, onde há sol e palmeiras
Lá, onde há céu e ondas
Onde todas irrealmente
E maximamente satisfeitos
Onde em uma ordem caótica
Coxas se movem suavemente
Andam pela praia, mulatas
Exigindo de todos atenção
Vagabundos sonham nos bancos
Em meio a um verão sem fim
E desfraldam-se bandeiras
Nas cores verde e amarelo
Na ensolarada cidade de Deus
Com carinhosos e pétreos olhares
Ele paternalmente e forte
Olha da montanha Corcovado
Lá naquela sala à meia-luz
Ouvindo o barulho do violão
Eu cortaria com a guilhotina
As pontas dos charutos cubanos
E de calças de algodão,
Olhando o oceano nos olhos
Afogaria as mágoas em um copo
na praia de Copacabana
E com as jovens brasileiras
ardentes e fogosas como lava
Eu, nos bares noturnos
Gastaria até o último centavo
Mas em frente à embaixada do Brasil
Está nosso charco russo
Cidadãos andam desanimadamente
E ainda por cima é segunda-feira…
Tags: brasil, comédia, embaixada, musica, nasha russia, semyon slepakov
‘My Perestroika’: será que é mais do ‘antes era melhor’?
nov 23, 2010 Cultura, Língua Russa, Vida na Rússia
Hoje, a amiga Clarice me lembrou de um filme que tou há tempos pra postar aqui sobre. Trata-se de ‘My Perestroika’ (de Robin Hessman), uma espécie de ‘documentário-reconstituição’ da vida na União Soviética, feito a partir de relatos de alguns personagens que nasceram sob a URSS, cresceram em meio à ‘perestroika’ e agora vivem na espécie de limbo ‘capitalista-selvagem-niilista-monarquista’ que é a Rússia (e Ucrânia, Bielorrússia, Azerbaijão, Uzbequistão e ex-RSSs afins.)
Como ainda não vi o filme, dei uma espiada em algumas resenhas na internet. Achei essa aqui bem interessante. Me parece que traçar um paralelo entre os 2 lados da então ‘Cortina de Ferro’ é uma ideia interessante, porém arriscada.
Também confesso que já meio que tendo a torcer o nariz pra esses docs de americano-inglês. Já torço quando eles fazem sobre a vida aqui no Brasil, idiotizando a vida no Nordeste ou nas favelas, ou nas duas coisas. Passei a torcer também quando eles fazem sobre a ‘vida no mundo dos comunistas’. Ora, eles ainda têm medo do comunismo (vide a reforma no sistema de saúde dos EUA). Ainda não atingiram uma independência moral pra analisar muita coisa.
Mas vamos ver, vamos ver. Esse doc pelo menos parece honesto, com algumas histórias honestas. O fato é que, hoje, por lá, muito pouco se glamuriza a URSS. No interiorzão, até tem uma saudade – o famoso раньше было лучше ‘ran’she bylo luche’ (‘antes era melhor’, famosa frase, usada pelos saudosistas em referências à URSS) – mas no geral as pessoas sabem, mesmo lá no fundo, que o saldo atual é positivo.
Mas o fato é que, entender a URSS, pouca gente hoje ainda entende. Pensa bem: quem está na casa dos 30 anos, ou daí pra baixo, viveu muito pouco sob a égide do partidão. Quem tem entre 30 e 50, geralmente, toca algum ‘business’ ou tem alguma ‘herança’ do regime do povo, logo, vive razoavelmente bem. Quem lembra mesmo, com ‘toska‘, são os velhinhos. Mas, levando-se em consideração que a média de vida do homem na Rússia é de 55 anos, e a da mulher é 68… Faz a conta aí e você vê que saudade da URSS, por lá, é algo em extinção. E, se pra eles mesmos ainda é complicado, imagina prum estrangeiro…
Ah, só pra esclarecer: muita gente ainda teima em achar que ‘perestroika’ tem um enooorme significado semântico. Nem. Significa puramente ‘reconstrução’. Depois do Gorbachev, claro, ganhou esse ar de ‘ERA’, a ‘Era da Perestroika’. Mas, assim como ‘glasnost’, que significa ‘transparência’, é uma palavra que você vai ouvir um zilhão de vezes na vida cotidiana regada à língua russa, sem ter a menor relação com a política.
Outra coisa: ‘My Perestroika’ é uma puta referência a um dos hinos do fim da URSS, a música ‘Moya Perestroika, mama’, do grupo ‘Chizh & Co.’. Assim como Рожденный в СССР (‘Rozhdenyi v SSSR’), do DDT, acho que são duas DAS músicas do (fim do) tempo. Aliás, vale lembrar que eu acho ‘Rozhdenye v SSSR’ um dos melhores álbuns da história, com uma capa simplesmente chocante…
… da mesma forma que o hino extra-oficial da URSS era Мой адрес Советский Союз ‘Moi adres Sovetskii Soiuz’ (Meu endereço é a União Soviética), do grupo ‘Samotsvety‘ (Самоцветы). Era A canção e até hoje todo mundo para pra cantar. Então, se você tá estudando russo, trata de aprender essa música. É a hora do êxtase do ‘ran’she bylo luche’!
Tags: Chiz, ddt, filme, musica, my perestroika, Samotsvety, urss


























