Chefe da polícia botou a cara na multidão durante o tumulto
dez 15, 2010 Polícia, Vida na Rússia
Durante o tumulto na Praça Manezhnaya, em dado momento, o chefe da polícia de Moscou, o general Vladimir Kolokolsev apareceu e foi para o meio da multidão tentar negociar o fim do conflito. Ouviu as reivindicações dos manifestantes – que eram basicamente ‘justiça por Sviridov’ e a prisão dos acusados. Escutou muitos gritos, palavrões e tudo mais. Mas teve coragem. E acabou resolvendo o conflito, de alguma forma.
Em dado momento, ele exige: ‘Retire a máscara’, no que é retrucado. ‘Não retiro’. Um tenente se aproxima e reitera a ordem: ‘Retire a máscara, vocês fala com o general’. O rapaz exaltado retruca: ‘Não retiro a máscara. Vamos conversar ou não’.
Em outro momento, o mascarado comanda o general: ‘Diga ao povo que o sr. vai resolver a questão do Cáucaso’. E o policial respondo: ‘Isso eu não posso resolver’.
‘Onde está o assassino’, diz o mascarado. ‘Como vocês o libertaram? Quanto ele os pagou? Quando ele será punido?’. E o general responde: ‘Nós tomamos medidas, mas o inquérito determina que ele fosse solto. Nós não punimos, esse é um trabalho para a procuratura’. E o mascarado pergunta: ‘Para quê o sr. veio aqui, então?’
De repente, a massa começa a gritar: ‘Pizdabol’, que é algo como ‘mentiroso’, ‘enchedor de linguiça’, mas é um palavrão.
Tags: cáucaso, manezhnaya, polícia, racismo, tumulto
O sonho da Rússia começa a desmoronar
dez 15, 2010 Cultura, Ex-repúblicas, Matérias, Polícia, Vida na Rússia
O caldeirão russo, enfim, entornou. Desde o último dia 10, brigas em massa, conflitos com policiais, protestos, vandalismo, agressões gratuitas e justiça pelas próprias mãos parecem ter dominado as principais cidades russas. Moscou, São Petersburgo, Ryazan, Volgograd… O cenário parece ser o mesmo para onde quer que se vá. A receita? Uma tensão étnica, um governo omisso com o crescimento da xenofobia, justiça que não funciona, violência e uma migração descontrolada.
Apesar de tudo já estar se encaminhando para esse cenário há anos, o estopim para a detonação dessa bomba social foi o assassinato do engenheiro e torcedor do Spartak Egor Nikolaevich Sviridov, no último dia 6 de dezembro. Egor tinha 28 anos e morreu baleado após uma briga com um grupo que seria natural do Cáucaso norte – região que faz parte da Federação Russa, ao sul do país – sendo o acusado do crime da Kabardino-Balkária, e os outros, do Daguestão.
Além do crime – e, obviamente, do fato de o assassino ser do Cáucaso -, causou indignação a libertação do acusado, no entender de muitos, absolutamente normal, visto que parece não ter havido flagrante.
Nos dias que se seguiram, houve uma imensa mobilização entre torcidas de futebol, grupos políticos, ativistas e do povo em geral – dentre todos esses, lógico, alguns que simpatizam com movimentos de extrema-direita e tendem à xenofobia. Com isso, no último sábado, dia 11, mais de 10 mil pessoas se reuniram no Centro de Moscou, nas praças Manezhnaya, Vermelha e entornos, para protestar e pedir justiça para o assassinato de Sviridov.
A movimentação começou na Bulevard Kronshtadskii e, naturalmente, milhares de pessoas começaram a se reunir no coração da capital russa. Em princípio, tudo ia bem, em calma. O frio intenso de cerca de menos cinco graus não impediu a enorme concentração de pessoas. A polícia e o OMON – a tropa de choque da Rússia – observavam, prestes a entrar em ação. É claro que, em um bando de milhares de manifestantes, havia um grupo exaltado, que começou a xingar a polícia. E eis que a mesma entrou em ação, dando início ao que se chama de ‘sábado sangrento’. Dezenas de feridos, um morto e um policial em estado grave, além de uma nação eletrificada pela tensão do conflito.
A fotoreportagem que reproduzo abaixo é do blogueiro Ilya Varlamov. Clica que tem muito mais lá no blog dele.













A partir daí, criou-se uma onda de pânico. Pela internet, rádio e TV, o conselho era: evitem sair de casa. Evitem o metrô. Evitem o centro da cidade, seja ela qual for. A qualquer momento, uma nova manifestação poderia começar e acabar.
De seu lado, os imigrantes do Cáucaso também resolveram se organizar. Em uma carta amplamente difundida, um blogueiro convoca todas as nações do Cáucaso (chechenos, dagestanis, kabardino-balkários, ossetas, georgianos, ingushes, armênios, azerbaijões…) a esquecerem as diferenças e se unirem pela defesa de seus direitos: ‘Nós vivemos aqui, trabalhamos, conversamos com todos, temos amigos de origem eslava. Mas até quando deveremos ser culpados por todos os pecados e problemas daqui?’
E o blogueiro defende ainda o suposto assassino de Sviridov, o checheno Aislan Cherkisov: ‘O que acontece quando te atacam pelas costas? O que acontece quando bêbados fanáticos, porcos congelados, partem pra cima de você? Se você tem uma pistola, é natural que vá se defender. Agora, eles armam esses ‘atos pacíficos’. E é claro que o objeto de atenção desses atos pacíficos seremos nós, caucasianos’.
Não sou russo, nem caucasiano, mas tenho logicamente grandes amigos dos dois lados. Conheço o Cáucaso – e conheço bem – e sei que são povos complicados. Mas também são amistosos além da conta. Se há uma migração descontrolada em direção, sobretudo a Moscou e Petersburgo, acontece em função da política do governo, de exclusão e sufocamento da região. Se são localidades subdesenvolvidas e pobres, obviamente, seus moradores vão migrar para onde haja maiores possibilidades de uma vida melhor. Exatamente como acontece aqui, no Brasil. Mas com um desequilíbrio gigantesco no fluxo, uma crescente onda de terrorismo e medo, e uma necessidade de auto-afirmação, a tendência é que realmente isso acabe em sangue.
Como conheço o Cáucaso, sei que muitas vezes os russos étnicos são discriminados em muitas localidades. Vivem com medo e são os primeiros a deixar o local em caso de tensão. Se é um ciclo vicioso, russos x caucasianos x russos, é provável. Mas o que se vê em Moscou é simplesmente uma busca de equilíbrio – de uma maneira equivocada. Falar em ‘Rússia nazista’, ‘Rússia xenófoba’, ‘Rússia fascista’, é simplificar o problema. A forma com que o governo lida com o Cáucaso é equivocada: não dá independência, não integra e não estimula a convivência. Deixa tudo como está. E, como estamos vendo, do jeito que está, não vai mais ficar.
Para tentar deixar uma reflexão, cito o blogueiro que lembrou do filme ‘Avatar’, como paralelo para a situação – e que mostra que os russos realmente têm nos caucasianos o principal culpado para uma suposta ‘degradação’ do eslavismo. No filme, o planeta Pandora é habitado pelos Na’vi. Os homens, chegando lá, querem as riquezas de Pandora, e para isso estão dispostos a aniquilar os Na’vi. Entretanto, a raça local se insurge e vai para a guerra. Sob o mote ‘Pandora é nossa. Vamos expulsar os invasores’. Qualquer semelhança de ‘Pandora para os Na’vi’ com ‘Rússia para os russos’ não é mera coincidência.
Como se muda isso? Talvez um misto de menos migrantes, desenvolvimento do Cáucaso, concessão de maior autonomia às regiões e uma massiva campanha de inclusão social dos imigrantes.
Agora, toda e qualquer agressão a negros, latinos, árabes, russos-asiáticos e orientais é sim, uma demonstração gratuita de nazifascismo da Rússia. Como a que aconteceu no domingo, quando um rapaz de uma das repúblicas da Ásia Central foi brutalmente espancado até a morte por um grupo de 15 russos. Isso sim, é nazifascismo gratuito.
Tags: briga, cáucaso, confusão, intolerância, manezhnaya, migração, morte, racismo, sviridov, tumulto
Pesquisa: fim do comunismo tem aprovação cada vez menor
nov 24, 2009 Política
Que o comunismo acabou, de facto, todo mundo já sabe. Mas ele se mantém como um vírus incubado dentro de muitas mentes pelo Leste Europeu. Vejo isso nas viagens, nos papos e nos textos. O Pew Research Center publica pesquisas feitas por todo o mundo e, recentemente, divulgou uma especialmente interessante para a gente: 20 anos após a queda do Muro de Berlim, o comunismo já foi superado?
A primeira pesquisa foi feita em 1991, logo após o traumático destroçamento das repúblicas soviéticas e do bloco comunista no Leste Europeu. O primeiro item da enquete é um bocado perturbador. A aprovação para a democracia – que já não era lá muito alta em alguns países – vem caindo sistematicamente de 91 para cá. Porém, nos países ex-comunistas do Centro Europeu, a taxa se mantém estável. Por sua vez, Hungria, Lituânia, Rússia, Bulgária e Ucrânia viram despencar essa aprovação. Destaque para esta última, que vive em meio a turbulências, cujo estado democrático é aprovado por míseros 30% da população, uma queda de 42 pontos em 20 anos.

E a aprovação ao sistema capitalista segue o mesmo caminho. A taxa segue estável nos países da Europa Central e tem queda livre no leste. Uma visão comum, segundo o PEW, é a de que somente a classe política e quem lida com os negócios obtiveram algum benefício com a mudança. O resto da população perdeu garantias e, consequentemente, experimenta uma piora ano após ano na qualidade de vida.
Falando sobre a Rússia, especificamente, um dado nos preocupa: o aumento do sentimento nacionalista e imperialista. Em 91, apenas 26% concordaram com o lema ‘Rússia é para os russos’, enquanto agora, em 2009, esse número dobrou para 54%. Quando perguntados se ‘É uma pena que a União Soviética não exista mais’, 58% concordaram. E, sobre a influência russa, 47% acham ‘normal’ a Rússia ter um império. Em 91, esse número era de 37%. Por outro lado, a visão que os europeus têm da Rússia não anda nada bem: na maioria dos países pesquisados, os russos e sua influência não são nada bem vistos, com destaque para Hungria, Polônia, Lituânia e República Tcheca. Em contrapartida, ucranianos e búlgaros vêem as ações russas como uma coisa boa.


Um dado positivo é o de que, em praticamente todos os países – salvo a antiga Alemanha Oriental – as pessoas se dizem mais satisfeitas com a vida hoje do que sob o comunismo. Com destaque para Rússia e Polônia, cujos índices subiram 32 e 28 pontos, respectivamente. Mas, quando perguntadas se a vida está melhor ou pior hoje do que sob os regimes totalitários, húngaros, ucranianos e búlgaros se disseram em estado mais precário do que quando conviviam com líderes de partidos comunistas.


Agora, um ponto comum em todos os países é o sentimento de que, sob o capitalismo, a corrupção disparou. Ou melhor, ficou mais evidente e passível de ser denunciada e controlada. Os índices são impressionantes, sempre altíssimos, mostrando que o ranço de fazer tudo por baixo dos panos permaneceu, apesar da suposta ‘glasnost’ que deveria existir.

E, voltando ao tema ‘racismo’, o Leste Europeu prova uma tendência um bocado pan-europeia: a ojeriza a ciganos (ou roma). São um dos dois povos menos apreciados por cinco dos oito países pesquisados. E, surpreendentemente ou não, os poloneses odeiam russos. Talvez o massacre de Katýn não tenha sido esquecido pelas almas polacas. E nem deve ser! Os russos, por sua vez, mantêm seu repúdio aos caucasianos chechenos e georgianos, posição compartilhada pelos vizinhos da Ucrânia.

A íntegra da pesquisa pode ser vista aqui. Confesso que fique alarmado com alguns números – embora a gente saiba que não tem nenhuma novidade aí. Afinal, foram décadas sob um sistema rígido, que não dava muitas liberdades, mas que contemplava a todos com uma certa segurança social. Quem viveu mais tempo sob esse manto, naturalmente, tem dificuldades para entender. E é assim que devemos analisar: tentando entender como era a vida dessas pessoas e como ela mudou. Qualquer outra maneira é etnocentrismo puro e simples: julgar os outros a partir de você.
Tags: comunismo, cortina de ferro, leste europeu, pesquisa, pew institute, racismo, união soviética
Brasileiro admite jogar pela seleção russa
out 4, 2009 Esportes
O brasileiríssimo Welliton, ex-Goiás que brilha muito no Spartak de Moscou, pode entrar para a história como o 1º brasileiro na seleção russa. A ‘cavadinha’ foi dada em uma entrevista muito legal ao jornal ‘Sovsport’ de ontem. ‘Não tenho intenção de me naturalizar russo. Mas se me convidassem, eu tiraria o passaporte para jogar pela seleção russa’, disse, sem cerimônia.
No papo com a pentacampeã mundial e medalha de ouro em Pequim no nado sincronizado, Anna Nasekina – que agora dá expediente no jornal esportivo -, ficamos sabendo um pouco da rotina da ‘máfia brasileira’ do ‘clube do povo’, como é conhecido o Spartak Moscou. Aliás, a ex-atleta dá um show de como fazer uma entrevista. No café da manhã, Carioca, Alex e Ibson chegam junto com Welliton e devoram o café da manhã, que é liberado. E assustam o ‘chef’: ‘Eles tomam o suco de abacaxi e depois atacam. Misturam tudo! Kasha, carne, mingau…’
A entrevista revelou que o ídolo de Welliton é Ronaldo Fenômeno. ‘Ele passou por tanta coisa e superou tudo. É um vencedor. Eu espelho minha carreira na dele desde o início’, declara o atual artilheiro da Premiê League da Rússia, com 15 gols em 22 jogos. E, lógico, revela qual foi sua maior dificuldade na Rússia: ‘O clima. No início foi difícil. Mas depois foi esquentando. Tanto o país, quanto o time. Fui virando titular e a torcida me aceitou. Hoje, estou adorando’.
Sobre a seleção, Welliton revela sua mágoa: ‘Jogo no pequeno Goiás e no meu país existem muitos jogadores de futebol. Mas os treinadores seguiam a política do clube, ou seja, não colocavam os jovens no lugar dos veteranos. Eu tinha 17 anos e nunca jogava, ninguém me via’, diz, explicando que por isso aceitou a proposta de jogar por um clube grande, mesmo sendo da Rússia.
A única coisa não-legal da entrevista, como sempre, é a reação dos leitores. Nos comentários, manifestações, digamos, não muito receptivas ao brasileiro que pretende vestir a camisa cor-de-tijolo do país gigante. Basta lembrar que, após sua chegada a Moscou, o ex-Goiás foi alvo de protestos racistas da torcida, coisa que, infelizmente, acontece por toda a Europa. Entretanto, nada como o tempo. Mais de 30 gols depois, o ‘macaco’ hoje tem seu nome gritado nas arquibancadas e virou heroi no ‘vermelho-e-branco’ da capital russa.
Tags: entrevista, futebol, idolo, racismo, seleção, spartak, welliton
Documentários sobre racismo na Rússia
set 20, 2009 Polícia
Ainda sobre o racismo, vale muito a pena assistir a esses dois documentários chocantemente realistas e bastante realistas sobre racismo na Rússia. E para quem duvida de que isso seja mesmo de verdade, alguns dos personagens do programa realmente foram presos/mortos e frequentam o notíciário com certa regularidade. TODOS os fatos são extremamente e, infelizmente, reais.
Tags: documentário, nazismo, racismo, rússia















