‘Não Conta Lá em Casa’ dá até logo à Rússia na Abkházia

O ‘Não Conta Lá em Casa’ desta semana é o último da série no região do cáucaso russo. Após 18 dias no país – numa viagem que incluiu ainda alguns dias em Moscou -, os caras passaram por Daguestão, Chechênia, Ossétia do Norte, do Sul e, agora, neste fecho de temporada, na Abkházia.

(Para saber mais desse país, que ficou conhecido em 2008, quando Facebook, Twitter e redes sociais foram derrubadas por conta de um blogueiro que defende a causa do país – e a quem entrevistei para o G1 no mesmo ano -, no fim do post tem mais.)

Desta vez, o legal é mesmo a viagem de trem. O quarteto – junto com a jornalista amiga Maria – parte da capital da Ossétia do Norte (território russo), Vladikavkaz, numa viagem de 16 horas até o balneário de Sochi (sede das próximas Olimpíadas de Inverno). Agora, eu vou ser um pouco cruel: se você só viajou de trem na Rússia entre Moscou e São Petersburgo, você não conhece um trem russo. O público faz toda a diferença. O trem ainda é, pelo menos nesta geração, um bom pedaço da tão decantada ‘alma russa’. E, para os que ainda choram o corpo da União Soviética, é a melhor forma de ter um gostinho da vida no tempo em que meio mundo era vermelho.

O trem é uma feira: as pessoas andam sem parar, fazem pique-nique dentro dos ‘quartinhos’, que podem ter porta ou não, dependendo de seu orçamento, conversam, se conhecem, contam histórias, tomam chá, vodka, samagon, cerveja, champanskoe, o que quer que seja. O importante é ser social. Afinal, a palavra russa para companheiro é ‘SPUTNIK’. Etimologicamente, é a soma do prefixo S (com) + Putnik (do caminho, caminhador). Ou seja, faça amigos e divida seu farnel com outrem.

Sochi é um balneário que estava em frangalhos até bem pouco tempo. Após alguns bilhões de dólares, virou um paraíso turístico, com modernas instalações que vão ser a sede das próximas Olimpíadas de Inverno, em 2014. Dali para a Abkházia e sua capital, Sukhumi, são alguns quilômetros, onde você cruza uma fronteira provavalmente tão cinematográfica quanto uma de Hollywood: os guardas fingem validar vistos em passaportes e que você está entrando em um país de verdade.

Sukhumi eu não conheci. Me parece um lugar agradável, e os abkházios, como todo caucasiano, são muito tranquilos, inteligentes, mas, como todo povo caleijado de guerra, são desconfiados. Essa é a minha impressão. Carregam aquela melancolia própria aos povos que têm seu direito à nacionalidade negado. E é um dos lugares mais ‘ocidentalizados’ do Cáucaso, onde mulheres usam biquínis, minissaias e todos fazem o que querem, aparentemente, sem serem incomodados.

Que venha a parte dois da viagem. Minha sugestão é Armênia, Geórgia, Nagorno-Karabakh e Azerbaijão!

Sobre a Abkházia

Certamente você nunca ouviu falar dessa pequena república no Mar Negro, encravada entre a Geórgia e a Rússia, mas saiba que é uma terra bastante barulhenta. Tem uma história cheia de guerras e alternância de domínios até a Revolução de 17, quando foi incorporada pela recém-independente Geórgia. Mas isso durou apenas até 1921, quando o Exército Vermelho invadiu e dividiu a Geórgia, criando a República Socialista Soviética da Abkházia, que obteve igual status à antiga dominadora. Em 1931, o georgiano Stalin incorporou mais uma vez a Abkházia à Geórgia, desta vez como uma região autônoma.

Durante o período stalinista, a cultura abkházia foi desencorajada, russos foram empurrados para lá e as escolas davam mais ênfase a tudo que era da Geórgia. Enquanto os georgianos boicotaram o referendo de 1990, sobre o fim da URSS, os abkházios votaram em massa pela manutenção do estado. Em 1993, a Abkházia saiu “vitoriosa” de uma guerra contra a Geórgia e garantiu sua independência, que só é reconhecida por seis países: Rússia, Nicarágua, Venezuela, Nauru, Tuvalu e Vanuatu. Para o resto do mundo, a Abkházia segue como um estado rebelde da Geórgia.

O surreal é que os abkházios vivem num mundo à parte, ignorando seu status político: têm eleições, constituição, bandeira, hino, dão vistos e emitem passaportes – embora a maior parte de sua população use os passaportes russos, já que seus nacionais não são válidos. Ou seja, para viajar para um dos seis países acima, os abkházios usam o passaporte nacional. Para outros destinos, o russo. Ah, e o rublo também é a moeda oficial do país.

É isso. Infelizmente, essa aventura acaba aqui. Fiquei muito feliz em poder ajudar a turma nessa viagem. E passear junto com eles, através das câmeras, relembrando muita coisa dos caminhos por onde passei alguns anos atrás. Ouvi notícias de amigos – que, inclusive, se dispuseram a ajudar o quarteto em alguns lugares-chave -, senti gosto de comidas que até havia esquecido, vi lugares que eram lindos virarem escombros, assim como vi renascerem lugares onde antes só se via poeira. Mandei os vídeos para alguns amigos do Cáucaso que, mesmo com a barreira linguística, ficaram felizes em saber que, aqui no Brasil, muita gente conhece suas histórias – tristes ou alegres -, sua cultura e seu povo.

Longa vida aos que passam seus dias nas estradas!

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Agora, turismando por Piter – dicas da ‘Viaje Mais’ + as minhas

Bom, resumindo os trabalhos, continuo o passeio pela Rússia, seguindo o roteiro da revista Viaje Mais, do final de 2010. Depois de um apanhadão de dicas para Moscou, agora vamos juntos com a repórter para São Petersburgo – ou Piter – a capital cultural russa, Veneza do Oriente, Porta para a Europa e de outros mil apelidos afins…

Da capital oficial, Moscou, para a charmosa cidade de Pedro, são 650km, mais ou menos a distância entre Rio e SP. Com o trem bala Sapsan, o trajeto pode levar em torno de 4 horas. Nos trens convencionais, cerca de 8 horas. De avião, são cerca de 50 minutos. Entretanto, chegar a um aeroporto de Moscou, fazer check-in, esperar, voar, chegar em Piter, sair do aeroporto, chegar na cidade, pode levar de 4 a 6 horas. Lembre-se que o trânsito na Rússia é um problema sério. Considere a viagem de trem, por ser uma experiência interessante, até um pouco romântica, por assim dizer.

De avião, o roteiro é Sheremetyevo/Domodedovo (em Moscou), Pulkovo (SPb). Meio sem graça. (Aqui começa um adendo sugerido pela leitora Sandy Silva, a quem agradeço pela atenção!). Se você chegar de avião, não se assuste. É bem fácil chegar ao centro da cidade. O aeroporto fica perto – 15km – e é bem servido de ônibus, táxis (pegue SEMPRE os oficiais, nada de papo com motorista) e vans (marshrutka). Como tudo muda, nesse link oficial, do aeroporto de São Petersburgo, você fica a par dos trajetos a serem feitos http://www.pulkovoairport.ru/eng/transportation/. Planeje-se!

Já de trem, a experiência começa na Leningradskii Vokzal, uma das nove estações de Moscou. Ali, você embarca numa das três categorias existentes: Lux, uma espécie de vagão-leito, com duas camas por cabine; Coupe, que tem quatro camas por compartimento, com uma portinha; e ‘platskart’, que tem seis camas por setor, sem porta, com vista para o corredor. Obvio, esse é o mais desconfortável e barato de todos. Antigamente, havia a categoria ‘sidiachii’, sentados, obviamente. Mas essa acho que não existe mais, embora fosse uma opção ridiculamente barata.

Galera no platskart - repare no espacinho entre as camas

Viajar de trem é uma parte inerente da vida deles. Você conhece gente, faz amigos, leva bronca da ‘provodnisa’, a ‘aeromoça’ invariavelmente rabugenta dos trens, que serve chá, biscoitos, dá a roupa de cama, manda acordar, fechar a janela, calar a boca, parar de roncar… Aliás, se for viajar de trem, iPods e genéricos são indispensáveis. Nego ronca muito. Outra coisa: divida. Se você tem comida ou bebida, coloque para jogo, sobretudo nas classes mais baratas. Conversa é obrigatória, mesmo que seu russo não seja dos mais afiados…

Famosa 'provodnisa'

Bom, feito esse adendo, sobre viagens de trens, vamos a Petersburgo. Lá, você chega na Moskovskii Vokzal, um terminal lindo, neorrenascentista, no meio da Avenida Nevskii. Ah, atenção quando for comprar bilhetes: jamais diga ‘quero ir para a Moskovskii Vokzal’. Tem uma em Tula e uma em Nizhny-Novgorod…

Moskovskii Vokzal

Na revista, nossa viajante diz que as atendentes das estações de Moscou são simpáticas. Pura mentira. Se você não fala russo, peça para alguém escrever para onde você quer ir. Lembre-se: na Rússia pouca gente fala inglês. Você imagina que alguém no Terminal Novo Rio ou no Tietê consiga comprar uma passagem em inglês? Nem eu…

O ritual de embarcar é engraçado. Uma turba de gente se amontoa nas plataformas, parentes, amigos, amores, todo mundo dizendo adeus. Aí vem a mensagem e vupt. Todo mundo evapora e o trem parte. Aliás, como eu vivo dizendo, saiba ao menos ler russo, antes de viajar. Será necessário, caso você precise achar o saguão de embarque de seu bilhete, seu trem e seu lugar. Os ‘Provodniks’ dentro do trem também não vão falar inglês, salvo exceções raríssimas. Então, se prepare.

Bom, a estação Moskovskii, em São Petersburgo, é linda, num ótimo lugar, mas fique esperto. Você desce do trem e vem uma horda de gente te oferecer coisas. Peixe, bibelôs, táxis, apartamentos, quartos, mulheres… Quanto mais cara de estrangeiro você tiver, mais será assediado. Diga ‘Nyet’, feche a cara e se mande. É assim que eles agem e é assim que funciona. Mas você pode tirar fotos tranquilamente, embora deva ficar esperto.

Se você não fala russo, agente um transporte com seu hotel. Se você fala, pode negociar com alguns dos taxistas que ficam por ali uma viagem. Se estiver com pouca bagagem, pode pegar um trem, ônibus, trólebus ou mesmo metrô, para onde quiser ir. A estação de metrô é a ‘Ploschad Vostanya’. Aliás, o metrô em SPb, embora não seja tão vasto quanto o de Moscou, é incrível também, com estações temáticas lindas, como a Dostoyevskaya e a Avtovo, minhas favoritas.

Metro Dostoyevskaya

Metro Avtovo

Bom, vamos ao roteiro. Eu, fortemente, recomendo que você fique mais tempo em Piter do que em Moscou. Há muito mais para ser visto. Três dias não dá para nada, mas se é o que se pode… Reserve meio dia para o Hermitage, meio dia para flanar pela Fortaleza de São Pedro e São Paulo), um dia para as catedrais ao longo da Nevskii e um dia para Peterhof. Em cinco dias, um dia para o Hermitage, um dia para Peterhof, um dia para um passeio pela Nevskii e suas catedrais, um dia para o Museu Nacional Russo, Museu da Vodka, Museu do Cerco a Leningrado e Casa-Museu Dostoyevskii e um dia para Fortaleza de São Pedro e São Paulo. Sete dias, além do de cinco, você inclui o Mariinskyi Ballet, o Cruzador Aurora, Vyborg e um tour noturno pela cidade, caso seja maio-junho, para ver as pontes se abrindo e curtir um pouco das noites brancas. Mas essas são só sugestões. Você pode combinar à vontade…

Museu Hermitazhe

Voltando à revista, a repórter chega e parte logo para o Hermitage. E faz bem. Não se engane, esse é, sim, o maior e melhor museu do mundo. Esqueça Louvre, British, Met, Uffizi, Rijks… O Hermitage é um universo. São três milhões de itens espalhados em seis prédios. Você estará em boa companhia: lá tem Gaugin, Monet, Rodin, Renior, da Vinci, Rembrant, Michelangelo, Rubens, Kandinskii e muita gente boa, além duma coleção de Fabergés que vai te deixar de queixo caído.

PicassoMonetDa Vinci

Logo na entrada, a escadaria de Jordão já vai te chocar. Se tiver pouco tempo, passeie e deixe para curtir o espetacular terceiro andar, para as obras do séc. 19 e início do 20, com a nata da produção da Europa… Uma dica: estudante entra de graça. Curta um dia, compre um guia, perca-se pelas galerias luxuosas, vá com calma. Aprecie. É uma visita para uma vida inteira…

Coluna de Alexander

Do Hermitage você tem uma vista privilegiada para a Alexandrovskaya Kolona, Coluna de Alexander, erguida para celebrar a vitória sobre Napoleão, em 1812. É a imagem mais famosa de São Petersburgo, e você vai reconhecê-la de inúmeros filmes. De lá, você anda um pouco, atravessa o Neva (se fala Nivá) e curte um pouco da Fortaleza de São Pedro e São Paulo. Ali, presos políticos tiravam ‘férias’ até 1917. Gente como Dostoyevsky, Gorky e Trotsky, por exemplo. Caminhe por suas passarelas, mas não se assuste se, por volta do meio-dia, ouvir um tiro de canhão: é o Naryshkin…

Mas duas coisas espetaculares da Fortaleza são, sua catedral, barroca e com todos os czares pós-Pedro, O Grande, ali enterrados. Se possível, volte para tentar ver o pôr-do-sol por ali. E, caso esteja um pouco frio, você também vai ver muitos russos pegando sol encostados nas paredes da Fortaleza. O lugar é uma espécie de praia pra eles…

Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo - a praia

Bom, como falei demais hoje, continuo amanhã. Sem falta!

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Jeitinho russo: causos do nosso bom amigo Oleg

Com pouco mais de 1 ano de blog e 200 posts, hoje vou contar um causo e render uma homenagem a um grande amigo. Aliás, é sempre bom lembrar esses causos, esses amigos e deixar registrado que a gente sempre lembra desses momentos especiais com muito carinho e agradecimento. Afinal, diz o ditado de lá que o bom amigo não é aquele que está sempre presente, é aquele que está sempre presente quando você mais está precisando.

Pois bem, era um maio frio, atipicamente frio e gelado, com temperaturas beirando zero grau. Era meu retorno a Moscou após anos, a primeira vez de minha esposa por lá, o reencontro com pessoas muito queridas, enfim, toda uma situação complexa que demandava um apoio grande. Ficamos hospedados na casa de Anya, que recém se casara com Oleg. Anya é uma grande amiga, que conheci através de outro grande amigo. Então, íamos ficar na casa do casal, sendo que eu não conhecia o tal ‘marido’.

E não demorou muito para o conhecermos: na entrada do prédio, ele já esperava a gente com um largo sorriso em seu carro japonês dourado. Minha esposa, ainda se ambientando com o frio e com a língua estranha, logo disse: ‘Caramba, esse cara parece ser o maior gente fina!’. E ela acertou em cheio. Oleg recebeu a gente, ajeitamos um rango lá e ficamos bebendo uma boa vodka e vendo o DVD do casório do rapaz. E ele ia explicando as centenas de tradições, uma por uma, e eu ia traduzindo para minha senhora, e íamos também rindo bastante com as fanfarronadas dos recém-enlaçados.

Mas o plano era, depois de alguns dias, seguir viagem para São Petersburgo. E ainda não tínhamos comprado a passagem de trem. E era maio, pré-férias, período onde muita gente viaja ou já começa a comprar as viagens de junho/julho, período de verão e, consequentemente, a alta temporada de lá. De Moscou para S-Pb, os trens partem da Leningradsky Vokzal e deveríamos ir até lá comprar passagens.

Então, Oleg pacientemente levou a gente lá, bem tarde da noite. E a visão foi o caos: uma turba de idosos, jovens, famílias, aguardava vez nas enormes filas com placas que diziam o que cada guichê vendia. Bilhetes pela internet? É a Rússia, rapaz, não é Inglaterra não… Enfim, nos desesperamos e vimos nossos passeios pelo Hermitage irem por água abaixo, enquanto o ‘Lev Tolstoi’, trem noturno que viaja para a ‘Veneza Russa’ deixava a estação, com apitos e gritos de ‘zvoni, zvoni’ (me telefone). ‘Adeus à russa’…

Oleg então olhou para o andar superior, no mezanino e não teve dúvida. Convocou nós dois e subimos as escadas num pulo só. Era a área ‘vip’ de vendas, para clientes especiais, idosos, deficientes e grávidas. Entramos na salinha e vimos todos os guichês fechados – eles realmente encerravam o expediente às 22h. No entanto, as ‘tias’ vendedoras seguiam ali atrás, no maior papo. Óbvio que elas já sabiam da malandragem. Então Oleg se aproximou de uma e começou um desenrolo… A tia fechou a cara e bateu a portinha do guichê. Ele se aproximou de outra que fez cara de desdém, mas nosso amigo insistiu, com sua malandragem e boa-pracice de quem veio lá de Arkhangelsk, cidade gélida quase no Pólo Norte.

E ele ia explicando que éramos brasileiros, amigos, que queriam ir para Píter, mas a fila estava gigantesca e tal… A tia acabou se apiedando e resolveu vender bilhetes. Sacamos o equivalente a 29 dólares para pagar os dois bilhetes de coupé no Tolstoi, pagamos e pegamos os bilhetes. Pronto, tudo feito. Mas a tia seguia olhando pra gente…

- A multa – disse ele – A ‘multa’. Entende? A ‘multa’!. Eu não entendi a princípio, mas ele ficou me olhando. A tia ficou me olhando e minha esposa ficou me olhando. Foi aí que me toquei. ‘Aaaaaaaaaahhh… A ‘multa’. Saquei mais rublos no equivalente a 10 dólares, passei pro Oleg e ele repassou para a tia. Mas a multa, em vez de ir pro caixa, acabou indo para o bolso da idosa branca, hipermaquiada e de dentes cobertos por ouro. Ela deu um sorriso, discretamente gritou ‘Schastlivogo puti, udachi’ (boa viagem e sucesso) e fechou a portinhola do caixa.

Descemos as escadas e a turba lá seguia, em busca, desesperada, por um bilhete. Enquanto isso, nós já tínhamos assegurada nossa viagem, graças à malandragem e ao jeitinho russo que nosso camarada Oleg deu. Não acreditamos, rimos muito e depois contamos a Anya, quando chegamos em casa, que ensaiou uma cara de repreensão à atitude do novo marido, mas depois caiu na risada com a gente. Afinal, esse é o nosso amigo Oleg K.! Pra ele, um grande ‘urra’ e 100 graminhas no copo!

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E tome multa!

Outro dia estava conversando com a nossa boa amiga Ana – relembrando as frases que nosso professor Alberto usava pra ensinar declinação, lááá nos idos do russo 1 da faculdade – e soube de uma coisa curiosa. Em Moscou, eles efetivamente MULTAM quem viaja sem pagar nos ônibus/bondes/tróleibus da cidade. Lógico que eu achava que isso era uma lenda urbana. Afinal, em tanto tempo que morei por lá e em tantas outras viagens que fiz, NUNCA vi nem ouvi falar de tal criatura mítica: o fiscal do bilhete.

Explico: na capital russa – bem como em muitas outras do mundo civilizado – raramente tem trocador, catraca, validador e afins. Você entra e senta. Ou fica em pé. Caso você tope com um trocador, você compra o bilhetinho e fura ele na maquininha. Mas primeiro que o trocador é passivo. Ou seja, você tem que catá-lo. Segundo, que quase nunca o dito cujo está lá. Terceiro que TODO mundo tem passe, vale, carteira de não-sei-o-quê. Então, acaba que todo mundo entra e fica lá.

Então, voltando à Ana, ela tem o passe mas ainda está sofrendo com a adaptação. Um belo dia, foi abordada pela mítica figura do fiscal.  Conversa daqui, papo de lá, o fato é que o mantenedor da lei encanou com nossa amiga e não aceitou a conversa. Tacou uma multa de 100 rublos na pobre (algo em torno de R$ 10). E ela guardou o comprovante. No que me contava do episódio, óbvio, eu duvidei! Mas ela, sagaz que é, mandou logo o comprovante. Pronto: mais um mito meu havia ido à lona…

Mas o pior foi o fim da história. Além da Ana, uma outra menina também foi multada. Só que não aceitou muito bem o papo. E, no fim das contas, saiu no braço com o representante da lei…

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“Transiberian”, o filme, dá um gostinho da famosa viagem

Acabei de assistir ao thriller de suspense “Transiberiano“, uma co-produção do Reino Unido, da Alemanha, da Espanha e da Lituânia. E que tem como pano de fundo, óbvio, a maior ferrovia do mundo. Tudo para contar uma história de suspense sobre contrabando de drogas para e pela Rússia.

Basicamente, é a história de um casal de americanos que deixa a China rumo a Moscou e conhece um outro casal bem estranho na cabine do trem. Durante os sete dias de viagem, eles vão descobrindo que o simpático casal na verdade… Bem, tem que ver saber o que acaba rolando.

Deu uma baita nostalgia ver a viagem de trem. Aliás, trem e estação de trem, na Rússia, é tudo igual. Claro que tem os coupês para burguês, com portinha fechada e vagão restaurante chique. Na real, o buraco é bem mais embaixo. Não cheguei a viajar muito pelo leste, mas fui longe, ao sul, em viagens longas, ouvindo “tatá-tatá” dos trilhos dias e noites sem fim.

As paradas são sempre as mesmas, com as vovós oferecendo de tudo – peixe, pente, bacia… – e os tios oferecendo aos gritos quartos de hotel e camas pra dormir. Todo mundo com cara de tratante e vigarista, mas, estranhamente, inspirando algum tipo de confiança. Loteria pura.

Eu, do fundo do meu coração, não recomendo que pessoas que não falem russo façam viagens longas de trem pela Rússia ou mesmo pelo leste Europeu. Não sei, mas é estranho. E me parece inseguro. As pessoas não são lá muito simpáticas e a dificuldade de comunicação é, por vezes, intransponível.

Por outro lado, as paisagens são coisas inacreditáveis. Esqueça o tipo de natureza ao qual você está acostumado. Esqueça morros, árvores e, sobretudo, o verde, se viajar no inverno. E o legal é que “Transiberiana” dá um painel bem legal de tudo isso.

Voltando ao filme… Sabe quando a gente vê americanos representando brasileiros, fingindo que falam português? Pois é, ridículo né? Então, é a mesma coisa com Ben Kingsley, o eterno “Gandhi”, que aqui é um policial russo. É patético vê-lo falando russo e pior, ensinando o ameriano Woody Harrelson a falar um mísero “Boa noite”. Nem é tão difícil, mas o cara consegue errar.

Lembro quando os russos viram um filme no qual Sean Connery interpretava um russo. Acho que era “Outubro Vermelho”. Ou não. Enfim, tinha uma cena que ele tomava vodka com os amigos. E nem segurar nem beber direito, estilo russo, ele conseguia. Isso virou piada por lá. “O cara não consegue beber vodka e quer falar russo?” é uma expressão que usam para zoar quem quer botar o carro na frente dos bois. Algo como “entrou agora no ônibus e já quer sentar na janela…”

O filme tem uns micos étnicos. Mas é um suspensão de primeira, bem amarrado, bem contado e com uma fotografia espetacular. Recomendo. Dá um gostinho da viagem (que farei nos próximos anos, com certeza), e ainda ensina uma lição preciosíssima: na Rússia, tenha muito medo da polícia.

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indispensável para quem quer entender de onde o pilar básico da economia russa. petróleo: passado, presente e futuro - http://t.co/CAPo8TPk