Happy Xmas (War Is Over)

Hoje, refazendo os boxes de links do blog, pude rever alguns de meus favoritos, emailar seus donos e curtir um pouco mais. Fazia tempo que não fazia uma ronda pelos blogs. Vou acrescentar alguns outros também e a coisa ainda vai tomando forma.

Mas uma coisa me chamou atenção: em TODOS os blogs, os derradeiros posts falavam sempre algo sobre União Soviética, comunismo, socialismo… Alô galera, isso aí tudo faz parte do passado. Em média, o mundo comunista ruiu tem o quê, 20 anos já? Já deu, hora de seguir adiante, criticar, analisar, curtir e entender a Rússia de hoje. E a Letônia, e o Kirguistão, e a Ucrânia, e a Armênia… Enfim, país a país, cada um já está com a identidade bem crescidinha.

Eu até entendo isso – europeus e americanos adoram viver essa utopia bipolar, analisar, se debruçar nesse tema. Por eles, a gente não esquecia isso nunca. Tudo, na visão deles, é culpa do comunismo e da União Soviética. Eu discordo. Muita coisa ruim da Rússia atual – e eu chuto a maioria – é problema comum a todos os países. Circunstancialmente, 23 anos atrás, lá o poder era dos sovietes…

Fica aí a crítica, galera do Google Translator – é, não tem jeito, eu não vou postar sobre a Rússia em inglês. Em russo, se eu perder a vergonha. A gente vai debater e tomar vodka, mas  sempre sobre a Rússia. URSS, pra mim, é a piada do século. E nem tem mais graça…

Em tempo: o título se refere ao trote de John Lennon, no fim de 1969. Antes de lançar esse single – copiado por 9 entre 10 fazedores de jingles de Casas Bahia no Natal – ele e a Yoko espalharam por um monte de cidades outdoors e cartazes com essa frase. E a guerra comendo solta no ‘Nam. Mas, de fato, ele tinha razão…

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Pesquisa: fim do comunismo tem aprovação cada vez menor

Que o comunismo acabou, de facto, todo mundo já sabe. Mas ele se mantém como um vírus incubado dentro de muitas mentes pelo Leste Europeu. Vejo isso nas viagens, nos papos e nos textos. O Pew Research Center publica pesquisas feitas por todo o mundo e, recentemente, divulgou uma especialmente interessante para a gente: 20 anos após a queda do Muro de Berlim, o comunismo já foi superado?

A primeira pesquisa foi feita em 1991, logo após o traumático destroçamento das repúblicas soviéticas e do bloco comunista no Leste Europeu. O primeiro item da enquete é um bocado perturbador. A aprovação para a democracia – que já não era lá muito alta em alguns países – vem caindo sistematicamente de 91 para cá. Porém, nos países ex-comunistas do Centro Europeu, a taxa se mantém estável. Por sua vez, Hungria, Lituânia, Rússia, Bulgária e Ucrânia viram despencar essa aprovação. Destaque para esta última, que vive em meio a turbulências, cujo estado democrático é aprovado por míseros 30% da população, uma queda de 42 pontos em 20 anos.

E a aprovação ao sistema capitalista segue o mesmo caminho. A taxa segue estável nos países da Europa Central e tem queda livre no leste. Uma visão comum, segundo o PEW, é a de que somente a classe política e quem lida com os negócios obtiveram algum benefício com a mudança. O resto da população perdeu garantias e, consequentemente, experimenta uma piora ano após ano na qualidade de vida.

Falando sobre a Rússia, especificamente, um dado nos preocupa: o aumento do sentimento nacionalista e imperialista. Em 91, apenas 26% concordaram com o lema ‘Rússia é para os russos’, enquanto agora, em 2009, esse número dobrou para 54%. Quando perguntados se ‘É uma pena que a União Soviética não exista mais’, 58% concordaram. E, sobre a influência russa, 47% acham ‘normal’ a Rússia ter um império. Em 91, esse número era de 37%. Por outro lado, a visão que os europeus têm da Rússia não anda nada bem: na maioria dos países pesquisados, os russos e sua influência não são nada bem vistos, com destaque para Hungria, Polônia, Lituânia e República Tcheca. Em contrapartida, ucranianos e búlgaros  vêem as ações russas como uma coisa boa.

Um dado positivo é o de que, em praticamente todos os países – salvo a antiga Alemanha Oriental – as pessoas se dizem mais satisfeitas com a vida hoje do que sob o comunismo. Com destaque para Rússia e Polônia, cujos índices subiram 32 e 28 pontos, respectivamente. Mas, quando perguntadas se a vida está melhor ou pior hoje do que sob os regimes totalitários, húngaros, ucranianos e búlgaros se disseram em estado mais precário do que quando conviviam com líderes de partidos comunistas.

Agora, um ponto comum em todos os países é o sentimento de que, sob o capitalismo, a corrupção disparou. Ou melhor, ficou mais evidente e passível de ser denunciada e controlada. Os índices são impressionantes, sempre altíssimos, mostrando que o ranço de fazer tudo por baixo dos panos permaneceu, apesar da suposta ‘glasnost’ que deveria existir.

E, voltando ao tema ‘racismo’, o Leste Europeu prova uma tendência um bocado pan-europeia: a ojeriza a ciganos (ou roma). São um dos dois povos menos apreciados por cinco dos oito países pesquisados. E, surpreendentemente ou não, os poloneses odeiam russos. Talvez o massacre de Katýn não tenha sido esquecido pelas almas polacas. E nem deve ser! Os russos, por sua vez, mantêm seu repúdio aos caucasianos chechenos e georgianos, posição compartilhada pelos vizinhos da Ucrânia.

A íntegra da pesquisa pode ser vista aqui. Confesso que fique alarmado com alguns números – embora a gente saiba que não tem nenhuma novidade aí. Afinal, foram décadas sob um sistema rígido, que não dava muitas liberdades, mas que contemplava a todos com uma certa segurança social. Quem viveu mais tempo sob esse manto, naturalmente, tem dificuldades para entender. E é assim que devemos analisar: tentando entender como era a vida dessas pessoas e como ela mudou. Qualquer outra maneira é etnocentrismo puro e simples: julgar os outros a partir de você.

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Colunista de ‘O Globo’ narra volta à Rússia após 25 anos

Ontem, mais um texto muito legal no jornal ‘O Globo’ me chamou atenção. Dessa vez, o colunista Ancelmo Góis, ex-estudante comunista, conta como foi retornar a Moscou e revisitar os lugares por onde passou 25 anos atrás, na União Soviética do início dos anos 80. A realidade política era muito, mas muito diferente daquela que a gente conhece de hoje. Mas uma coisa é certa: a transição ainda está acontecendo. Enquanto Moscou já se mostra – numa primeira impressão – uma capital cosmopolita e capitalista, basta alguma atenção para notar que, no fundo, a mentalidade do povo e do próprio mercado ainda tem muito do ‘soviet way of life’.

Vamos ao texto, então!

De volta à Rua Yunosti*

Em 1969, com 20 anos, em plena ditadura militar, saí de Aracaju escondendo o paradeiro até mesmo da família e fui, acredite, para a antiga União Soviética, onde vivi durante 15 meses com a identidade falsa de Ivan Nogueira. Lá, enviado pelo PCB, estudei o ABC do marxismo-leninismo na escola internacional do Komsomol, organização juvenil do PCUS. Eu era então, como se diz em Frei Paulo, um tabaréu nordestino, monoglota, esquelético, carregando esquistossomose na barriga e estava sendo apresentado na viagem ao adorável mundo novo do avião, do bife à milanesa e da neve – não necessariamente nesta ordem.

Passados 40 anos, semana passada, fui rever Moscou. Haja emoção. Consegui localizar o lugar onde funcionou a minha escola. Hoje, lá existe o Instituto da Juventude, uma instituição de ensino superior especializada em administração pública e gerenciamento de empresas. Ou seja, a escola, que no passado formava jovens quadros para o comunismo, agora forma quadros para o capitalismo. Mas o prédio onde nós morávamos, chamado de Corpus B, está lá intacto. O endereço é Rua Yunosti, 5/1. Em russo, Yunosti quer dizer juventude.

Do dia que andei de avião pela primeira vez para cá, a Rússia sepultou a ditadura comunista e implantou uma economia de mercado. Isto não é pouco. Mas, ainda assim, eu esperava reencontrar um país muito mais mudado. É verdade que não podemos esperar em anos muitas transformações num país que, em 17 séculos, construiu uma rica história e uma forte identidade cultural própria. Vista por um visitante de uma semana, acho que na Rússia a tradição tem falado mais alto.

O país, cujo despotismo tem uma longa história que vem da época dos czares, carrega até hoje um viés autoritário. Na semana em que estive lá, ocorreram várias denúncias, de setores independentes, de fraudes nas eleições locais, vencidas com folga pela coligação governista Rússia Unida – que lembra um pouco, pelo tamanho agigantado e pelas ideias insossas, a nossa Arena da época dos generais.

A Rússia de Vladimir Putin procura incensar o orgulho nacional e o projeto de potência autônoma – dois postulados fortes do período comunista que foram abalados pela acachapante derrota do Leste no confronto o com o Oeste. O país tem, naturalmente, saudade de algumas conquistas do antigo regime, como a corrida espacial, por exemplo.

Acho, um pouco por isso, que os russos ainda não chegaram a um consenso sobre como lidar com o passado mais recente. A prova desta indecisão é que o corpo de Lenin continua lá no mausoléu da Praça Vermelha com o apoio, segundo pesquisa do Centro Analítico Yury Levada, feita em 2005, de quase metade da população.

Além disso, nem todas as estátuas de Lenin e Marx foram retiradas das praças. Aliás, o careca russo e o barbudo alemão viraram objeto de consumo capitalista. Nos arredores da Praça Vermelha, atores fantasiados de Lenin, e até mesmo Stalin, ganham uns trocados em rublos para tirar fotos ao lado dos turistas. No calçadão da Rua Arbat, um ponto de gente bonita e divertida de Moscou, o comércio de suvenires exibe ao lado das matrioskas, as bonecas que se encaixam umas dentro das outras, objetos como camisas, cartazes e broches dos tempos do comunismo.

No mais, a parte central e histórica de Moscou continua preservada, imponente e grandiosa. O metrô, com suas lindas estações, é o mesmo da época soviética. De novo na cidade, os engarrafamentos provocados pela grande quantidade de carros – muitos dos quais, modelos caros e luxuosos de uma elite emergente que, como alguns novos ricos da Barra da Tijuca, no Rio, adora exibir sinais exteriores de riqueza. (Aliás, a falta de estacionamentos faz os carros ocuparem as calçadas, e o colunista pensar em abrir uma franquia em Moscou do MSC da R – Movimento dos Sem Calçada da Rússia).

Há ainda outros sinais de, como o freguês queira chamar, ocidentalização ou globalização. No Gun, um enorme shopping em frente à Praça Vermelha, estão fincadas lojas das principais grifes da Europa e dos EUA. Em uma delas, o colunista, até então aceitando resignadamente as mudanças, perdeu a paciência com a exibição na vitrine de ornamentos da festa Halloween. Como diria um russo: “Halloween é o rui.”

* Artigo de Ancelmo Gois publicado na edição de papel do GLOBO de 11/11/09. Link aqui

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Ex-líder da DDR conta ‘trairagem’ de Gorbachev

‘E os russos odeiam ou adoram Gorbachev?’ é uma das perguntas que mais são feitas quando descobrem que você morou na Rússia. A resposta é na lata: odeiam. Ponto. Assim mesmo, sem titubear. Perguntei isso a muita, muita gente, e quase todos responderam sem hesitar. Sem contar os que xingaram as próximas gerações do ex-líder soviético. Trata-se de uma figura muito, mas muito mais influente – aliás, só influente – no mundo ocidental. Segundo pesquisas da Fundação Politika, a popularidade do velho Gorbi gira em torno de 0,5% em seu país. E isso é uma das poucas constantes no mundo político de lá.

Ainda vou falar mais dos causos do ex-secretário geral. Hoje, lembrei de trazer seu temido nome à tona depois de saber que o controverso Egon Krenz, ex-líder e último secretário-geral da Alemanha Oriental – a famosa e temida DDR – acaba de lançar um livro chamado ‘Herbst 89′ (outono de 89). Em suas páginas, Krenz conta sua versão para os últimos meses da extinta metade comunista da Alemanha. ‘Gorbachev fez jogo duplo comigo. Ele me afirmou, categoricamente, que uma reunificação não estava na agenda da URSS. Mas, ao mesmo tempo, ele já estava desenhando os detalhes do processo com a Alemanha Ocidental’, acusa.

Krenz permaneceu no poder por menos de dois meses, de 18 de outubro até 3 de dezembro, no apagar das luzes da DDR. Após ser removido do poder, via renúncia, ele foi julgado na nova Alemanha em 1997 e condenado a seis anos de prisão, pelos crimes cometidos durante o regime. Hoje ele é um ferrenho defensor da Alemanha comunista e inimigo declarado do ex-premiê soviético. Usa sem pudor a palavra ‘Anschluss’ (anexação) para descrever a reunificação alemã. Para Krenz, a Alemanha Ocidental agiu exatamente da mesma forma que a Alemanha nazista com relação à Áustria, em 1938, quando os dois países foram ‘fundidos’ unilateralmente por Adolf Hitler.

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‘Herança’ soviética tem seus dias contados

A Rússia vive uma espécie de revisionismo sem fim do período soviético. Nomes de ruas, prédios, monumentos, praças e até cidades são mudados ao bel prazer dos novos políticos, ansiosos por resgatar o passado puramente russo e esquecer o legado soviético.

Basta lembrar a confusão que foi criada no início de julho, quando o presidente das ‘Estradas de Ferro da Rússia’, Vladimir Yakunin, anunciou a mudança do nome da maior e mais velha estação ferroviária do país, a Leningradskii Vokzal, para Nikolaevskii Vokzal. Segundo Yakunin, a LV foi construída em 1824 sob ordens do imperador Nikolai I e foi chamada de ‘Peterburgskii’. Em 1856, por ordem do imperador Alexander II, foi renomeada para ‘Nikolaevskii’, mas, após a Revolução, passou a ser chamada ‘Oktyabrskii’ e, um ano depois, virou, enfim, ‘Leningradskii’.

Agora, o Partido Comunista parte para o ataque e propõe, na Duma, que se vete quaisquer mudanças de nomes de ruas e logradouros em todo o país pelo prazo de 10 anos. De acordo com o líder dos vermelhos, Alexei Kornienko, muitos políticos estão aproveitando o estado de crise para tomar medidas populistas, de olho em interesses próprios e ‘procurando levantar a auto-estima do país com medidas inúteis e custosas’.

Kornienko cita como exemplo a campanha para o plebiscito que será realizado na cidade de Ulyanovsk. Segundo o comunista, já foram gastos quase 10 milhões de rublos (cerca de R$ 1 bilhão) em propaganda. O objetivo do governo local é mudar o nome da cidade para Simbirsk, mesmo contra a vontade de 65% da população, segundo as últimas pesquisas.

E o outro lado: para o líder do partido liberal democrata da Rússia, o polêmico Vladimir Zhirinovskii, não se trata apenas de ‘renomear’ ou de ‘revisionismo’. ‘O objetivo é retornar aos nomes históricos tradicionais russos, sem identificação com este ou aquela ideologia política’. E defendeu, além da mudança do nome da cidade de Ulyanovsk, que as cidades de Kirov e Nogiinsk voltem para seus nomes anteriores à Revolução: Vyatka e Bogorodsk, respectivamente.

No meio do tiroteio, frequentemente ainda é achada a principal representante da casa imperial dos Romanov – última dinastia da monarquia russa e herdeira do trono – a princesa Maria Vladimirovna. ‘Agradeceria ao governo se fosse feita justiça e se os verdadeiros nomes russos fossem restaurados’, disse, à agência Interfax.

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