Transiberiana em Birobidjan: um dia na Zion soviética

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Depois de tantos dias na estrada de ferro, quando entrei no “Rossya” rumo a Birobidjan, capital do então “sonho judeu” da URSS, parecia que a Transiberiana estava só começando. Esse é O trem, ainda que eu tivesse viajado por outros “firmeny” (trens com pedigree, por assim dizer), esse era o espírito da ferrovia. É o comboio que cobre a maior distância férrea dentro de um país (9259 km) e roda o maior tempo em sequência (145 horas e 58 minutos). Enfim, era uma grande honra estar ali.

"Rossyia - Moscou - Vladivostok"

Agora, deixando Tchitá em direção a Birobidjan, seriam quase 40 horas dentro do coupê do 002. O que eu queria mesmo era o platskart mas, quando comprei, não encontrei uma vaga. Foi mais caro (cerca de US$ 150 no total), mas valeria a pena. O conforto do vagão é impressionante: há luzes individuais, ar-condicionado, um bom restaurante, o trem vai mais rápido, suave, as camas são ótimas e o atendimento é de avião. Aliás, você se sente em um avião mesmo.

Desta vez tive bons companheiros de viagem. Os preços do Rossyia (que de agora em diante vou chamar de Rússia para facilitar, ok?) não são lá muito convidativos. Pagar quase o dobro por um bilhete neste comboio não é para qualquer um. Talvez por este motivo seja muito frequente encontrar funcionários da RZD, estatal russa que cuida das ferrovias, viajando nele. Todos têm direito a uma passagem grátis (para si e para a família) a cada período, que pode ser de três, seis ou doze meses.

Em uma das pernas, conversei com Sonya, uma experiente psicóloga que contou as dificuldades de quem trabalha na RZD – especialmente na operação. Pressão, demissões, problemas físicos em decorrência de noites sem dormir, de contato com eletricidade, problemas familiares, e uso de drogas.  Um pouco chocante saber que as pessoas que nos transportam são bem maltratadas no exercício de sua função, afinal, a pressão é monstruosa. Para se ter uma ideia, os trens nunca atrasam. Mas, na minha chegada a Tchitá, um acidente fez com que o comboio atrasasse 3 horas – e isso foi noticiado em todo o país. O que, segundo a psicóloga, teria resultado na demissão de toda a equipe envolvida na operação.

Bom, depois de Sonya, entrou no vagão Katya e seu filho Maxim, também funcionários da RZD, mas baseados na BAM (Baikálo-Amurskaya Magistral, ou Ferrovia Baikal-Amur). Trata-se de uma das maiores obras de engenharia do século XX, que segue paralelamente à Transiberiana, mais ao norte, e vive em luta constante contra a natureza para operar. Se você puder e se interessar, pesquise a BAM, muito pouco conhecida no Ocidente. Com uns 30 anos de idade, a moça contou da pressão de se trabalhar nos escritórios, de não ter horas para sair, de não ter direitos, da decadência da RZD… Enfim, um regime de quase escravidão.

Outros viajantes no Rússia eram turistas coreanos, chineses e alguns com pinta de policiais. Não interagiram muito. No platskart, também um outro público. Em sua maioria, provódnitsas voltando para casa ou indo começar o serviço em algum lugar.

No caminho, algumas das mais interessantes estações: Tarskaya, onde os vagões da “Trans-Manchuriana”, ramo da Transib que segue para a China via Manchúria, se separam; Mogocha, uma das cidades mais frias do mundo, que viveu da mineração de ouro mas hoje parece esquecida dentro do permafrost; logo depois, o trem tricolor beira a fronteira, margeando o rio Amur (do outro lado, está a China); Yerofey Pavlovich (nome do fundador de Khabárovsk) e sua estação com dragões de metal; Skvorodino, onde uma turba de gente desce para pegar a BAM em Bamovskaya e, mais algumas paradas adiante, chegamos em Birobidjan, enfim.

Na verdade, pouca gente sabe da história dessa pequena cidade. Situada entre os rios Bira e Bidjan, a cidade foi fundada em 1912 e, em 1928, a URSS decidiu que ali seria um enclave judeu, incentivando a migração para o então “povoado” de Tihonkaya. Desta forma, os soviéticos queriam angariar a simpatia do ocidente e dos ricos judeus, de olho nessa ajuda financeira. Um outro aspecto – que me contaram por lá – é que, logo após várias disputas territoriais com a China, era preciso um povo “resistente culturalmente” naquela área delicada.

Entretanto, tratava-se de um lugar absolutamente inóspito: pantanoso, extremamente frio no inverno e absurdamente seco no verão, com vento forte, e longínquo.  Ainda assim, em 1931, nascia Birobidjan e, a cada ano, milhares de judeus chegavam de várias partes do mundo: EUA, Palestina, Alemanha e até Argentina. Durante a Segunda Guerra, cerca de 11 mil dos 40 mil moradores foram convocados para o front e, destes, 8 mil não voltaram para casa.

Depois de um “boom” da cultura judaica no pós-guerra, Birobidjan chegou a ter quase metade de sua população de 75 mil habitantes composta por judeus. Mas, com o surgimento de Israel e, mais adiante, com o fim da União Soviética e o estabelecimento de laços diplomáticos entre a Rússia e o Estado Judeu, o êxodo fez com que hoje apenas cerca de 3.500 ainda vivam na capital da Região Autônoma judaica. Em meio à história curta, mas intensa, Birobidjan vive hoje na indecisão entre ser a esperança do judaísmo, para aqueles que apostam no fim de Israel, ou assumir definitivamente seu posto de “enclave chinês”.

Depois desse pouquinho – rápido e rasteiro – de história, enfim, desço do trem Rússia na estação Birobidjan. A começar pelo nome da cidade escrito em hebraico, no topo do prédio, já se tem uma sensação de estar em uma cidade de Israel dos anos 70. Bancos antigos, quiosques, restaurante, stolôvaya, garrafas e até ônibus antigos dão esse tom vintage à cidade. Como estava morrendo de fome, comi no bandejão do lado da estação. Nada glamuroso, mas barato e eficaz.

Ainda em frente à estação, há a famosa menorá e o monumento aos primeiros moradores da cidade – uma espécie de carruagem – que vira ponto favorito dos noivos e noivas em dia de casamento. Se você não quiser perder tempo, ande em frente, pela bela rua arborizada, a Gorkovo, e vire à primeira direita, na Lenina. Ande uns 300 metros e você já vê as principais atrações da cidade:  a Catedral, com suas cúpulas douradas; a Praça da Amizade, com um globo de prata no centro; a Biblioteca e o Museu Regional; a Sinagoga e o Centro Comunitário Judaico “Freid” e o mais importante, a vida na cidade.

Na rua da prefeitura, o último prédio interessante da Lenina, siga reto e caia na Avenida Sholom-Aleichem, em direção à rua Gorki (aquela arborizada por onde você veio).  É o coração da cidade, onde estão as lojas, mercados e tudo mais de legal que uma cidade pequena pode ter. Mais adiante, você vai logo ver a Filarmônica local e uma ruazinha fechada, a Arbat de Birobidjan. Ali, três pequenos shoppings, o hotel Vostok e um enorme mercado xing-ling.

O interessante de Birobidjan é a diversidade: você vê russos, um ambiente totalmente judeu, com estrelas de David e menorás por todo canto, mas ao mesmo tempo uma fortíssima presença chinesa – afinal, o vizinho está apenas a alguns quilômetros de distância. Sem contar nos caucasianos (armênios, georgianos, azerbaijanis e afins), sempre vestidos de jaquetas pretas, com seus dentes de ouro, fumando e conversando em línguas estranhas. Nas cidades pequenas os estereótipos ganham força.

Ao lado do hotel Vostok está o monumento a Sholom-Aleichem, um dos maiores expoentes da cultura ídiche (judaica). Voltando pela pequena e simpática rua, você cai na Praça da Vitória, com um enorme obelisco em homenagem aos mortos na II Guerra e, se seguir adiante na rua Gorki, cai na beira-rio do Bira. Que, sinceramente, não vale a pena. Tem a praça de Lenin à direita, mas nada realmente de interessante. Se estiver com o tempo apertado, talvez seja hora de voltar para a estação. Se ainda tiver um par de horas, pare e coma no restaurante do Hotel Vostok. Ou então trace alguns petiscos na feirinha dos chinas.

De qualquer forma, Birobidjan é uma cidadezinha que vale muito mais pela sua história do que por qualquer atração turística que haja por ali. Talvez uma simpática parada de algumas horas, se o tempo estiver bom, valha a pena para desacelerar.  Eu gostei muito da atmosfera, da simplicidade e da “viagem no tempo”. Acho que foi um dos lugares onde fui mais bem tratado durante todo o percurso.

Dali, era pegar a “eletrichka” Erofey Pavlovich – trem intercidades que para em todas as estações – até Khabárovsk, em um percurso de duas horas que iria me deixar naquela que disputa com Vladivostok o status de capital do extremo oriente da Rússia.

Dicas:

–> Birobidjan vale uma parada, mas sem expectativas. Novamente, evite parar às sextas-feiras, já que é o dia de folga dos museus.

–> Desça do trem, deixe o máximo que puder de pertences na “kâmera hranenia” e vá leve. Mas compre antes os bilhetes para Khabárovsk. Isso vai te poupar horas na fila, já que os últimos trens do dia lotam e todos compram na hora H.

–> Existem muitos bons lugares para comer e beber na Sholom-Aleichem, baratos e gostosos. O Hotel Vostok tem um ótimo buffet a um preço bem razoável. Escolha entre a simplicidade e a elegância.

–> O mercadinho xing-ling não tem nada de interessante. Mas vale uma espiada.

–> A beira-rio também é nada de especial.

–> Mesmo sob forte sol, é frio. A temperatura máxima em Birobidjan não passa de 20º. Não abandone seu casaco.

–> Se precisar pernoitar aqui, os quartos da estação de trem (komnaty otdyha) são tão bons quanto os do Hotel Vostok. E não vão te azucrinar com registro.

–> Faltou falar do Capitão Birobidjan, personagem principal do livro de Moacyr Scliar, “Exército de um Homem Só”. Mas sobre ele você lê aqui.

15 COMENTÁRIOS

  1. Grande Fabrício!
    Cara, que barato esse post sobre Birobidzhan! Nem no Wikipedia há tanta informação e, o principal, tantas fotografias sobre esse lugar, digamos, surrealista. Engraçado é as estórias que eu havia lido sobre a fundação da cidade são um pouco diferentes. Stalin comprovadamente detestava os judeus, pois os considerava não confiáveis e, por isso, estimulou a migração destes para o extremo oriente do país. Reza a lenda que quando Stalin soubera que o namorado de sua filha, Svetlana, na época com seus vinte e tantos anos, era de origem judaica, teria ficado enfurecido e mandado assassinar o futuro genro, acusando-o de ser um “espião do Reino Unido”. No final da vida do ditador soviético, armou-se o chamado “Complô dos Médicos”, pois o georgiano, provavelmente em estado demencial e incurável de sua paranóia de longa data, estava certo de que os médicos judeus da URSS estavam tramando envenená-lo. Para a sorte dos judeus soviéticos, Stalin morreu antes de levar a cabo mais um dos seus terríveis massacres. Os chechenos, por exemplo, também foram deportados por Stalin após a II Guerra, acusados de colaboracionismo – que, em partes, existiu – com os invasores nazistas. Só puderam retornar ao Caúcaso no interregno de Nikita Khruschev, no ano de 1956. Fechado o parêntese, achei bárbaras, como de praxe, as fotografias sobre a capital do Território Autônomo dos Judeus. Não sei se a denominação corrente ainda é esta, mas na época dos sovietes era. Agora, só resta aguardar o destino final do tabuleiro de War: Vladvostok.
    Grande abraço,
    Felipe

    • Boas Felipe,
      Começo pelo final: antes de Vladivostok ainda tem Khabárovsk. Sobre a Chechênia, o colaboracionismo foi um motivo inventado pelo comitê de Stálin. E não só eles, Stálin e seu bureau adoravam brincar de mover povos inteiros, como a gente bem sabe.
      No caso de Birobidjan, houve, em grande parte, um movimento espontâneo. Muita gente veio de fora da URSS – na Argentina, no prédio destruído por um atentado em 94, havia muitos documentos disso -, daí a tese de ‘realocação’ perde força.
      O fato é que houve uma enorme perseguição contra os judeus durante os anos de Stálin. Mas isso era comum na época dele, não? Qual povo ou etnia não foi expurgada… O grande problema de Stálin com os judeus era o Sionismo de Herzl, das tendências separatistas judaicas. Uma das soluções simplista foi justamente a criação de Birobidjan.
      A visita de Golda Meir (nascida na Ucrânia pré-revolucionária) à URSS em 1948 moveu talvez o maior contingente judeu soviético jamais visto. Todos os anos, um judeu era o campeão nacional de xadrez (como o incrível Mikhail Botvinnik!!!). O iídiche era incentivado na URSS como em nenhum outro país (ao menos até 1938). Depois da fundação de Israel, Stálin se voltou para o mundo árabe não por antipatia ao judaísmo, mas pelo simples motivo de que o novo estado era totalmente orientado pela doutrina norte-americana. Natural que os soviéticos buscassem os inimigos de Eretz Izrael…
      Ytzak Shamir, ex-premiê de Israel, tem uma excelente frase sobre os anos de Stálin e a posição geral da URSS com relação ao judaísmo: ‘A URSS foi o pais mais anti-anti semita que já existiu’. É uma forma sutil de ver as coisas. Entre assassinatos, execuções, expurgos e outros crimes contra os judeus, a URSS ainda criou Birobidjan… Onde mais foi criada uma região autônoma para os judeus?
      E sim, o plot dos médicos existiu. Stálin chegou a ser envenenado.
      E, apesar de ser difícil definir a posição da URSS com relação aos judeus, a gente hoje sabe que Stálin era, digamos, democrático: odiava a todos. Destruiu mesquitas, igrejas e sinagogas com o mesmo vigor…
      E vamos que vamos!
      fab

    • Como stalin detestava judeu se ele mesmo era judeu ? O verdadeiro nome dele nem era stalin, isso foi um termo falso que ele criou depois.

      O verdadeiro nome dele era Joseph David Djugashvili.Primeiro ele inventou o nome Kochba”, que era o nome do israelita lider de um dos levantes de israel contra o imperio romano, mais ainda muito evidente ele abandonou esse nome e mantendo o Joseph original adotou o nome russo de “Stalin”.

      A midia, os governos, as escolas de vocês é tudo dominado por judeus sionistas e eles inventam suas mentiras e as ensinam.

  2. Boa tarde, Fabrício
    Que legal que Khabarovsk terá um post próprio. Eis mais uma cidade naqueles rincões poucos conhecidos da Rússia de que pouco se sabe e pouco, ou quase nada, se vê. Mas, sem querer sem impertinente ou constestador, de fato houve sim colaboracionismo checheno durante a Grande Guerra Patriótica. Quando as tropas do general Von Manstein chegaram à Grozny a Wehrmacht foi recebida pelos locais como um verdadeiro exército libertador, imagine. Alguns chechenos – não todos, é claro – afiliaram-se ao exército alemão e lutaram contra os russos. Outros povos do Cáucaso, como os Ingushes, por exemplo, também o fizeram. Há relatos e provas documentais a respeito. O próprio professor da UERJ, e expert em Rússia, Angelo Segrillo fala sobre isso. O crime de Stalin, após terminada a guerra, foi punir a todos indiscriminadamente, colocando homens, mulheres, idosos e infantes em vagões de carga – da mesma maneira que os nazistas faziam com os judeus ao mandá-los para os campos de concentração – com destino à Ásia Central, especialmente o Cazaquistão, e à Sibéria. Muitos destes pobres coitados sequer chegavam vivos ao destino final, fruto das péssimas condições de transporte, falta de água e comida, e até de oxigênio, pois os vagões praticamente não tinham janelas ou saídas de ar adequadas. Iosip Vissarionovich era de uma crueldade sem limites, fazendo jus àquela definição que a própria filha Svetlana lhe fizera, aliás a mais perfeita que alguém dissera ou escreva sobre Stalin, apesar de inúmeros livros e biografias disponíveis sobre o georgiano do Gori: “um monstro moral e espiritual.”
    Continue a mandar brasa aí nos posts, Fabrício, e não se esqueça das fotos, muitas fotos, hehe.
    Grande abraço,
    Felipe

  3. Espera, calma, vc tá juntando duas coisas. A Chechênia, como sempre, queria independência. E os ingushes, como sempre, são arrastados para o conflito checheno.
    Isso era uma enorme pedra no sapato de Stálin. A Operação Schamill (se não me engano) é polêmica. É engraçado que todos sempre duvidem dos documentos soviéticos em tudo, mas em alguns casos, eles são tidos como verdade absoluta. Afinal, é muito conveniente taxar os chechenos de traidores – e esse estereótipo perdura até hoje.
    O fato é: eles queriam independência, os alemães PODERIAM representar essa chance (embora a gente saiba que eles queriam é o petróleo). Me parece lógico uma associação. Até que plano, isso historiadores de cada lado disputam até hoje.
    A Операция “Чечевица” tinha um objetivo simples: liquidar e diluir todos os traços daqueles irritantes povos montanheses, resilientes e incontroláveis, que representavam sempre uma ameaça à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

    ‘Среди «черных мифов» о нашей истории, ходит мнение, что выселение чеченцев и ингушей сопровождалось их массовой гибелью, якобы погибло от трети до половилы ссыльных. Но, согласно документам НКВД – умерло, во время, транспортировки, 0,26% от их общего числа, 1272 человека.

    Чеченцы и ингушы (и их семьи) честно выполнившие свой долг перед общей Родиной не подвергались репрессиям. Их лишили права проживания на Кавказе, но они могли жить в любой другой точке Союза. Также, не выселяли чеченок и ингушек, состоявших в браке с лицами других национальностей.

    Ещё один миф – о якобы героизме бандитов и их лидеров, которые де смогли спрятаться или сбежать, и боровшихся со «сталинизмом», чуть ли не до возвращения народа из ссылки (при Хрущеве). Но это тоже ложь, практически все бандиты были убиты, либо арестованы при проведении операции.’

    É muito, mas muito fácil acreditar em certas coisas. Podem até ser verdade. Mas a História ensina que, além de ser contada pelo lado vencedor, a gente nunca deve acreditar naquilo que nos é conveniente.

    Enfim, minha opinião, baseada nas minhas pesquisas. Incluindo aí ouvindo pessoas e gente do Cáucaso.

  4. Agradeço as suas considerações, Fabrício, e é sempre bom aprendermos um pouco mais, ainda mais que você já esteve no Cáucaso in loco e pôde saber dos próprios locais a sua história. Não conhecia estas transcrições que postaste, mas são interessantes. Os chechenos sempre foram o – artigo definido – povo caucasiano mais rebelde desde a época das grandes campanhas militaristas do Império Russo, cujo ápice foi, senão me falha a memória, em meados dos século XIX com Alexander II. O próprio Tolstoi escreveu sobre a inutilidade em tentar subjugar gente irremediavelmente insubmissa. Foi nessa época que se tornou lendária a figura do Imã Shamil, cujos batalhões de mujahidin causavam enormes perdas ao exército do czar. Conta-se que jamais e em tempo algum os chechenos desistiram de ter um país próprio, como provam os eventos que se seguiram à dissolução da URSS, com o advento do chechenismo contemporâneo sob a liderança de figuras altamente contraditórias como Dzhokhar Dudaiev, Zelimkham Yandarbiev ou Aslan Maskhadov. Ainda hoje, decerto, os chechenos acalentam alguma veleidade de, em algum momento histórico, proclamarem a independência da “Ichkeria”. Coisa, na minha opinião, praticamente impossível de ocorrer. O que quis dizer no post anterior era que sob o domínio soviético, e pior ainda, sob o tacão de Stalin, não haveria qualquer esperança de se livrarem do manto da URSS. Quando a URSS foi proclamada em 1922, depois de 5 anos de brutal guerra civil entre brancos e vermelhos, os chechenos chegaram a declarar a sua independência política sob a formatação política de um emirado islâmico. Mas não só. A história mostra que sempre que o Estado Russo sofresse alguma forma de enfraquecimento interno lá estavam os chechenos pegando em armas. Foi assim na Guerra Russo-Túrquica, na Revolução Russa de 1905 e 1917, entre 1917-1922 e até durante a o período de coletivização stalinista nos anos 20-30. É lógico que não seria diferente mediante o período mais crítico e dramático da história russa: a invasão nazista em 1941. Bem, e é igualmente lógico, e aí concordo com você, que Stalin juntou o útil ao agradável ao fazer o que fez com chechenos e ingushes nos pós-guerra. Mas, enfim. Gosto dos povos do Cáucaso e de sua história, sua fibra, sua cultura e sua determinação. Mas creio que os tempos de hoje, ainda mais nesta Rússia que enriquece a cada dia, são, ou deveriam ser ao menos, de paz e reconciliação. A Rússia precisa de paz interna. E a Chechênia, assim como o Daguestão, precisam os recursos financeiros para se desenvolver. Ainda há, conta-se, muita pobreza e cidades e vilarejos inteiros com grandes marcas dos conflitos bélicos mais recentes.
    Grande abraço,
    Felipe

  5. Mas muita coisa do que eu escrevi, na verdade, está disponível. Mas é sempre difícil remar contra a maré, eu entendo. In loco eles exageram para o lado deles, afinal, é muito confortável ser sempre a vítima.
    A Ichkeria é, ao que me parece, um misto de delírio wahabbi e sanha de poder de algumas tribos locais. Também não tem apoio do povo, povo mesmo. Hoje a Chechênia cresce e se desenvolve com rios de dinheiro do Kremlin, como vc bem sabe.
    Essas 3 figuras que vc citou aí nem são bem-quistas. E fiquei surpreso nos livros da Anne Nivat e da Politikovskaya com essa confirmação.
    O que eles querem, a essa altura, é viver em paz. Na verdade, todos sabem que tanto faz ser ou não ser Rússia. Infelizmente, eles vão continuar sendo tratados como “sub-raça” por todos, graças ao enorme preconceito que enfrentam. Triste sina mesmo.
    Agora, o “Cáucaso” é muito heterogêneo. Temos Chechênia e Ingushétia, temos as Ossétias (diferentes até mesmo entre si), temos o Daguestão, Adygeya, Kabardino-Balkaria, Karachay-Cherkessia… Fora os “off” Rússia, Abkházia, Armenia, Georgia, Azerbaijão, Nagorno-Karabakh… Eu estou longe de conhecer todos, mas simplesmente não dá pra jogar todo mundo no mesmo saco. A começar pela turma Ossetia x Ingushetia-Chechênia x Daguestão…
    Nem as organizações oficiais, nem as uniões ‘nas ruas’ de Moscou, contra os skins, conseguem juntar todo mundo. São muito diferentes…
    E Hadji Murat… Sabe que eu fui ler esse livro outro dia?
    Valeu pelos comentários, Goltz! Tenho que chegar aí na tua terra para papearmos in loco!

  6. Bom dia, Fabrício
    Pois é, se você consultar a literatura disponível existente ( como, por exemplo, o excelente livro “Chechen Jihad” do Yossef Bodansky ou o não menos indicado “Chechenya: from Nationalism to Jihad” do professor James Hughes ) verá que o caráter nacionalista inicial do separatismo checheno pós-soviético foi, a partir de uma maior radicalização do conflito ao longo dos últimos 20 anos, tomando a formatação de uma jihad transnacional, incorporando salafistas das mais diversas regiões do mundo aos grupos chechenos originais. Ficou amplamente conhecido o papel de um andarilho fundamentalista saudita chamado “Khattab”, assassinado pelas forças de segurança russas em 2002. Ele, assim como outros, ajudou a organizar e treinar batalhões de fanáticos muçulmanos do mundo árabe, os quais não tinham nada a ver com a guerra travada contra os russos, promovendo emboscadas a torto e a direito e refugiando-se nas muitas montanhas do Cáucaso. Hoje, o que restou da antiga resistência à Moscou é justamente o espólio jihadista salpicado especialmente no Daguestão, mas com ações esporádicas nas demais repúblicas do Cáucaso Norte.
    À propósito: ótima dica de leitura. Irei atrás do Khadji-Murat do mestre Leon Tolstoi.
    Grande abraço,
    Felipe

  7. Boas,
    Desculpa, Goltz, mas o livro do Bodansky, IMHO, não tem muita credibilidade. Ele virou superstar com o livro sobre o Bin Ladn, escrevendo o que os EUA queriam ler.
    O do Hughes não li, mas tendo a desconsiderar qualquer coisa que fale ‘xxxx jihad’. Sobretudo Chechênia. Pq não encaixa. Não é jihad. Primeiro pq os chechenos não são islâmicos como os outros. São convertidos, não vivem de acordo com o islã como conhecemos. E jihad não é isso, lutar por independência. Os chechenos lutam por independência desde tempos imemoriais… Pq só agora virou ‘jihad’?
    Ibn al-Khattab descobriu a Chechênia em 95, acho, e sua chegada ao país foi uma vergonha. Foi morto ao menos 3 vezes pela Rússia e, quando realmente morreu, foi pelas mãos de um daguestani.
    Não que os chechenos gostassem dele ou do triunvirato de terroristas que subjugavam o povo, em ações tão crueis quando as do exército russo, mas ser assassinato por um daguestani simboliza a tensão na área.
    O Islã chegou na região por volta do século 18 e foi a grande motivação (além do apoio turco otomano) contra o domínio russo.
    O Islã checheno é uma mistura de sunni, sufi e o sistema tribal de irmandade deles. O dia que alguém tiver colhões, vai estabelecer o Islã checheno. E vai ganhar uma fatwa logo depois…
    Se vc tiver tempo, leia http://sunna-press.com/analitika/1009-est-li-v-chechne-dzhihad-oproverzhenie-gameta-sulejmanova-nekotorym-somnenijam.html

  8. Ô Fabrício! Não esquece os posts sobre Khabarovsk e Vladivostok, hein!? A curiosidade é grande…
    Abs,
    Felipe

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