Transiberiana em Ivolginsky Datsan: o coração do budismo mongol

A aventura pela Transiberiana segue em Ulan-Ude, agora no famoso complexo budista de Ivolginsky Datsan. Centro do budismo mongol, fica a cerca de 23km de Ulan-Ude. Basicamente, você pode chegar aqui com seu tour, reservado com antecedência. Ou simplesmente encarar um ônibus ou duas vans, junto com os locais, estepe e deserto adentro, até chegar nesse oásis de cores.

Antes, rapidamente, relembro dois momentos da passagem por Irkutsk, atendendo a pedidos. O primeiro deles é uma foto dos “komnaty otdyha”. As duas fotos seguintes são do restaurante na estação de trem de Irkutsk, com o simpático macarão sinistro que tracei ali, no desespero. A quarta foto é de um momento “desespero”, após esperar horas e horas pelo meu trem, na “sala de espera”.

Mais um dia na república da Buryátia, era dia de fechar a conta no meu “albergue”. Consegui combinar com as donas de deixar a mochila por lá e voltar no fim da tarde, para um banho antes do trem para Tchitá. Aliás, essa é uma das vantagens do albergue sobre os hoteis. Sempre tem uma flexibilidade maior.

Com um sol escaldante, parti para achar o ponto de ônibus para o Datsan. Descendo pela rua Lênin, a partir da praça soviétov, sentido Naberezhnaya, você vira à direita na rua Banzarova. Pode ir sem medo. A “estação” de ônibus é uma espécie de garagem improvisada, onde dezenas de vans velhas caindo aos pedaços partem para vários itinerários da região.

Um parêntese: no post anterior eu falei que a Buryátia era “perigosa”, até citando o conselho que um cara que conheci na rua me deu. Bom, dei uma pesquisada mais criteriosa e me assustei com o que vi. A República Buryátia é a segunda região mais perigosa da Rússia, com 1851 crimes para cada 100 mil habitantes. A primeira, no caso, é a Zabaikalski Krai (para onde eu estava indo, cuja capital é Tchitá), com 2089 crimes para cada 100 mil habitantes. Não tenho os dados do Brasil, mas o mesmo índice aponta que, em Portugal, a média nacional fica em 40 crimes a cada 100 mil habitantes (todos os números de 2011).

Bom, voltando à viagem, andei pela rua Lênin. E, vira e mexe, alguém me seguia, ficava de olho na minha mochila, no meu celular… Em dado momento eu tive certeza de que seria assaltado. Não fosse a sorte colocar um batalhão inteiro de polícia saindo de algum evento na praça onde eu estava… Como eu não conseguia achar o discreto terminal rodoviário, pedi ajuda a um transeunte. Solítito, o rapaz certamente notou que eu não era dali – isso é completamente notório pelos traços físicos – e se ofereceu para me guiar até o local.

Desconfiei, mas segui o sujeito. Andamos por alguns minutos e notei que estávamos indo para um lugar ermo, onde as casas eram cada vez mais humildes (nada como as nossas favelas aqui, apenas bem simples e caindo aos pedaços). A rua não era mais asfaltada, enfim, uma arapuca. Perguntei qual era a do cara e, começamos a discutir. Do nada, o sujeito fala “me dá 500 rublos que eu te libero”. Mas ele usou uma gíria para descrever a nota de 500 que eu não entendi, e isso me irritou bastante. Discutimos mais um pouco e eu comecei a anda rápido. Felizmente, o matuto não me seguiu. Mas, até sair do estranho bairro, passei por vários grupos de pessoas estranhas – que me olhavam de cima a baixo: eu era o “jantar”. E esse bairro fica ao lado da rua Lênin. Ou seja, para “perder”, basta pouco.

Enfim, quando já estava quase desistindo, comecei a andar pela rua Komunisticheskaya e tive uma grata surpresa. Em seu final, perto da Naberezhnaya, ela se torna um aprazível ponto de restaurantes caseiros, com deliciosos pratos locais por preços irrisórios. Bom, aproveitei para comer e me orientar melhor.

Dali, enfim, parti para a tal rua Banzareva e achei o terminal. Aleluia! Fiquei um pouco ressabiado com as vans, mas era tarde demais para voltar. Entrei naquela que dizia “Ivolga – Datsan”. Conversei com o motorista, paguei e partimos assim que o veículo lotou. Não preciso dizer que TODOS me fitavam de cima a baixo, como se eu fosse um marciano. E refutavam o olhar, quando eu olhava de volta. Um clima muito estranho e hostil.

Conforme íamos saindo da cidade, a paisagem urbana dava lugar a aglomerações de casas, desordenadas, ora no meio da estepe, ora no meio de um tipo de deserto. O calor era forte e o ar era seco. Isso naquela van lotada, foi ficando insuportável. Sorte que as pessoas iam realmente descendo e abrindo espaço.

Enfim, depois de algum tempo, chegamos na vila Ivolga Verhnaya. Uma rua principal e umas sete que a cortam. Um lugar completamente deslocado no tempo e no espaço, onde gente com feições mongois, que falavam e escreviam em um idioma completamente estranho, viviam lentamente, conversando, andando, brincando. O motorista me largou ali e nem terminou de explicar como eu deveria fazer para ir ao Datsan. Sorte que, alguns minutos depois, a segunda van apareceu à frente da cortina de poeira e parou no ponto. Entrei e, mais alguns minutos, enfim, já conseguia ver o Datsan. E ali já estava valendo a pena.

O complexo é uma coisa absolutamente de sonho. Conforme vamos nos aproximando, vai aumentando o número de flâmulas com horóscopo chinês presos a árvores, uma espécie de “simpatia budista”. Você, de certa forma, atrela sua vida e sua saúde à da planta.

Em frente ao Datsan, um pequeno mercado de souvenires. Os preços aqui sim, são baixos. Dentro vai ser mais caro, lembre-se disso. Evite os cacarecos chineses, prefira coisas feitas por ali mesmo, ainda que raras.

Uma dica importante é: se estiver sol, abuse do filtro solar. E leve água. O lugar é ermo e, sob o sol forte, fica um calor infernal. Sem contar que há apenas um boteco por perto, cuja comida não é muito convidativa e a higiene, menos ainda. Ainda assim, em caso de necessidade, o pozy não é ruim. Aliás, aproveite para comer e beber aqui fora, pois lá dentro a coisa fica ainda pior, na stolôvaya dos monges. Mesmo eu, estômago de avestruz confesso, pedi penico e não encarei. E não recomendo.

Bom, no Datsan, o legal é andar. Você pode caminhar pelas casas dos monges ou pelo complexo de templos. O maior deles é o Dogtchen-Dugan, no centro do território, com telhadinho amarelo. Outro lindão também é o Khambo-Lamy Itigelova, com telhadinho verde. Mas vale entrar em todos, com calma, ouvir os mantras, ver os detalhes e as cerimônias. São muitos detalhes, muitos ritos e as músicas são completamente hipnotizantes. O único lado ruim é não poder conversar com eles. Tentei perguntar e puxar papo, mas todos me fizeram um gesto de “silêncio”. Ou não podiam falar comigo ou estavam em algum tipo de voto de silêncio.

Aliás, o cerimonial é algo complexo. Os budistas acreditam que tudo deve seguir a ordem da revolução do universo, do sentido da rotação do Sol. Ou seja, tudo é feito da esquerda para a direita. Não entre jamais nas salas pela porta da direita (irá tomar bronca) ou pela porta com uma fita vermelha – a não ser que você seja um lama reconhecido… Nunca gire as rodas de oração em outro sentido que não o horário e jamais, jamais, jamais dê as costas ao templo ao sair. As costas ficam voltadas para a rua. Resista à tentação e não pegue os bombons e doces oferecidos nos locais sagrados. E não deixe também, a não ser que você seja budista e saiba o que está fazendo.

Outro ponto muito legal do Datsan é a “Pedra dos Desejos”. Um altarzinho no meio do complexo, com uma pedra (obviamente) e alguns símbolos sagrados. A brincadeira é fazer um desejo e sair da marca no chão, de olhos fechados e mão estendida e tentar tocar a pedra sem olhar, dando quantos passos forem necessários. Se você conseguir, seu desejo será realizado. Nem precisa dizer que eu ganhei, né? Hehehe…

Nestes dois vídeos, você pode ver mais ou menos como é o interior de um templo budista. A imagem está estranha assim mesmo, já que é proibido filmar no interior. E tente não cair em hipnose com o segundo mantra. Se algum budista estiver me lendo e quiser explicar qual é a desse ritual, fique à vontade!

 

 

O Datsan é um lugar legal para comprar presentes bonitos, caso tenha amigos budistas. Mas, de resto, é um monte de coisa chinesa, fato que me deixou um pouco decepcionado. O lugar é absolutamente incrível, lindo, valeu a pena todos os perrengues que passei para chegar lá. Recomendo chegar o mais cedo possível e voltar no ônibus direto para Ulan-Ude, que deixa o Datsan às 16h.

A viagem, de ônibus direto, fica muito mais agradável. Desci na praça Sovetov, perto da cabeça do Lênin, e vi o ensaio das crianças para as comemorações do dia da Cidade. Muito bacana. Agora era hora de pegar o mochilão, tomar um banho e partir para a estação. O pessoal do hostel me reservou um táxi e, em cinco minutos, estava na plataforma, esperando meu trem para Tchitá. Mais uma vez, o tosco 270СА, que roda entre Adler x Blagoveschensk.

A próxima parada era, mais uma vez, uma das cidades com um dos mais altos índices de criminalidade da Rússia. E, praticamente, zero turista.

Dicas:
–> Planeje bem a viagem: se for cedo, é melhor pegar o ônibus direto da Praça Soviétov (da cabeça do Lênin);
–> Se optar pela van, vá direto ao ponto assinalado no mapa e ensaie dizer ‘ivolginsky datsan’
–> Leve filtro solar se estiver sol e casacos se estiver frio
–> Leve água e um lanche; a comida lá não é das melhores
–> Os souvenires no mercadão fora do Datsan são mais baratos e melhores
–> Cuidado com a cabeça ao entrar na loja para comprar os tíquetes
–> Respeite as tradições budistas: tudo deve ser no sentido horário, jamais entre pela porta do Lama, jamais saia de costas para o templo e faça silêncio
–> Ande com muita calma e tire um tempo para relaxar aqui; sente em um templo e sinta a paz do lugar. Ainda tem muita viagem pela frente…

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2 respostas para “Transiberiana em Ivolginsky Datsan: o coração do budismo mongol”

  1. Jose disse:

    Oi Fabricio!

    Desde que descobri o seu site, venho acompanhando o que escreve sobre a Rússia. Acho esse país interessante e uma cultura diferente da nossa.

    Percebo que nessa viagem nessa “transiberiana”, tem que ter muita coragem, pois pelo que relata, tem alguns lugares que o risco de vida é enorme. O não sei se o que diz de número de crimes por 100 mil habitantes seriam número de homicídios, mas se realmente for 1800 homicídios por 100 mil habitantes e por ano, essa taxa é mais de 100 vezes superior a SP, que é 16 homicídios por 100 mil habitantes e por ano. Um lugar perigoso e graças a Deus, vc saiu bem dai.

    Resumindo, com todo esse conteúdo, ajuda a futuros turistas sobre esses lugares, pois para quem é da região, logicamente, tem uma segurança maior, por causa da comunidade, etc. Mas quem é estrangeiro, a situação se complica.

    Abraços e fique com Deus

    José

    • Boas Jose,
      Obrigado pela visita e pelo comentário.

      Em pouquíssimos lugares do mundo vamos ter taxas de homicídio sequer parecidas com as do Brasil. Ou seja, a taxa é de CRIMES, não de HOMICÍDIO, que fique bem claro.

      Tchitá é um lugar perigoso, sim. Mas infinitamente mais seguro do que qq uma de nossas metrópoles.

      Imagino que o risco máximo seja um roubo, um furto, ou uma surra, na mais extrema das hipóteses. Mas, pelos números, imagino que seja mais fácil ganhar na loteria aqui.

      No mais, seguimos viajando!

      Abração

      Fab

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