Transiberiana em Khabárovsk: museu, passeio e ‘drama’ no Oriente

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Khabárovsk, a pérola do oriente russo, viria após o sucesso em Birobidjan. E prometia. Afinal, alguns amigos haviam me avisado do alto nível da cidade. E isso eu já percebi da janela da lenta e simpática elektrichka Erofey Pavlovich. Em vez dos tradicionais subúrbios deteriorados, o trem cruzou simpáticos bairros até parar na enorme e bela estação de trem Khabárovsk 1. E um mundo de gente descer dos trens. (Não esqueça de clicar nas fotos para vê-las grandes e bonitonas!)

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Para começo de conversa, lembro que Khabárovsk se fala Rabárovsk, o KH faz som de r. Exatamente como em rato. E que nem tudo que reluz é ouro. Desci do trem e fui logo caçar um táxi. Sim, eu merecia esse luxo. E a gente já sabe: táxi na Rússia pode ser uma chatice, com um barganhar infinito cujas variáveis são distância x local de partida x hora x sua cara. Se a última variável incluir um “turista trouxa”, lascou. Mas a variável oculta “domínio do idioma” é um plus.

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Perguntei a média das corridas aos “taxistas” e cheguei aos 500 rublos da estação até o hotel. Noves fora, eu deduzo que o preço honesto seria um terço do valor. Logo, 200 rublos seria ideal. Quando eu dava meu lance, taxistas viravam a cara e riam. Ok. Vou de ônibus então… Dou as costas e o blefe funciona: logo um caucasiano chamado Amuk, ou coisa assim, se voluntaria. Como diria o velho escritor, russos são previsíveis…

Seguimos na surrada van “guida destra” em um animado papo até o chique Hotel Tsentrálnaya, onde Paul Theróux, autor do célebre “O Grande Bazar Ferroviário” havia se hospedado (e não deixara boas impressões…). Ali, o grande xeque-mate da viagem: minha reserva foi sumariamente cassada. Afinal, eu não tinha feito o registro (registrasya) em lugar nenhum. Era um ilegal na Rússia.

O povo do hotel apiedou-se de mim e indicou outro, que não cobrava registro. Lá fui eu para o Arirang, um simpático recanto coreano nos subúrbios. Paguei em dinheiro, ganhei a janta e fui para o quarto. Ainda tive alguns contratempos (que nem vou contar aqui…). Mas consegui dormir e, no dia seguinte, acordei cedo para sair fora e curtir a cidade. Teria pouco tempo.

O sábado amanheceu com um tempo maravilhoso. Fui ao banco (sim, o banco funciona a todo vapor mesmo aos sábados), saquei dinheiro e parti para o centro. Deixei minha mochila no cofre da estação de trem e parti para explorar a cidade. Mas, logo em seguida, notei que dois guardas me seguiam desde o cofre. E já fazia uns belos 10 minutos. Eu iria rodar, sem dúvida. Resolvi atacar: virei, parei, olhei o mapa e perguntei aos agentes da lei para onde era o museu. Um olhou para o outro, coçou a cabeça e me explicou. Logo depois, os dois arrumaram algo melhor para fazer…

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Basicamente, a vida acontece no bulevar Amursky e na rua Muravyova-Amurskova. Pelo primeiro andei devagarzinho, pelo parque que divide das duas faixas. Ali estão cinemas, casas de cultura, pequenos restaurantes e muita gente simplesmente flanando.

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Na ulitsa Pushkina (rua Púchkin), está o mercado da cidade, com toda a sorte de bugigangas e comida. Claro, muita coisa da China, que é logo ali. Descendo pela Púchkina eu ainda vi um monte de gente casando – afinal, é sábado – e percebi que a cidade está em franca reconstrução. E que nada é barato por estas bandas.

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Enfim, o objetivo de Khabárovsk: a Praça de Lênin (sim, mais uma, com um esquisito pai da Revolução) e o Hotel Tsentrálnaya, onde eu deveria ter me hospedado. Fiz uma foto com um singelo gesto e fui curtir o belo local, com uma linda fonte e muita, mas muita gente curtindo a vida outdoor.

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Já na rua Muravyova-Amurskova, resolvi parar no restaurante chique Grill. Uma placa com o convidativo “menu business a 200 rublos” ganhou meu coração. Almocei bem – não sem antes notar a cara feia das atendentes por eu ser um “menu business”.

Com muitos prédios com jeito da época imperial, trânsito bem arrumado e gente bonita, a rua Muravyova-Amurskova é a Champs-Elysees (ou a Oscar Freire) daqui. Muita presença japonesa e chinesa também é notada. E, em seu fim, já no rio Amur, a gente vê a igreja Bozhei Materi e a enorme coluna em homenagem aos heróis da Guerra Civil do extremo oriente.

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No parque da cidade, às margens do Amur, vi um dos casamentos mais bonitos da viagem. Muita gente parou, ali na praça, para ver também. Muita gente, na mureta, até chorou, durante os votos dos nubentes. Posso dizer que perdi umas boas duas horas da minha visita à cidade ali.

Segui para leste, em direção ao parque e ao conjunto de quatro museus de Khabárovsk. O militar, o étnico, o de arte e o da região. Sem dúvida, o último parecia o mais interessante.

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Por 150 rublos, entrei e comecei a viajar, desde priscas eras, com animais empalhados, maquetes geológicas e habitats naturais, até o fim da URSS e seu impacto na região de Khabárovsk. Passando por belos mosaicos, memorabilia soviética e imperial, fiquei muito impressionado com essa parte da história da Rússia, contada sob os olhos de uma região quase sempre esquecida. Um dos melhores museus que já vi (e tinha até uma camisa do Sepultura, uma das bandas favoritas da juventude metaleira pós-soviética que, por coincidência, estava bombando nos meus fones de ouvido…).

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Por volta das 18h, resolvi tomar o caminho da roça. E precisava ainda de algum dinheiro. Para minha surpresa, entrei em um Sberbank cheio, bombando. Sábado, 18 horas. E você, amigo bancário, reclama da vida… De bolso cheio de novo, parei na Shokoládnisa e comi um macarrão esperto. Bem no coração da Champs-Elysees Khabarovskiana. Mais chique, difícil.

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Voltei devagarzinho pelo Bulevard e cheguei na estação. O trem agora era o bacana Okean, que roda entre Khabárovsk e Vladivostók. Antes, um papo com a segurança da sala de espera da estação, uma ex-policial federal da Buryátia, ferida em uma ação e que agora fazia bicos ali. Depois de algumas horas de papo, era hora de partir. Khabárovsk foi um barato. E recomendo a todos parar ao menos um dia aqui.

Dicas:
– Em Khabárovsk, todos aparentemente seguem a lei. Mantenha-se na linha
– Não desrrecomendo o Hotel Tsentrálnaya, mas é caro e superestimado. Embora sua localização seja perfeita. Mas, se você tem noções de russo, vale ficar mais longe e pegar táxis. Vai economizar milhares de rublos.
– Evite a cidade no inverno: é a mais fria do mundo dentre as com mais de um milhão de habitantes.
– A praça de Lênin é linda, especialmente na primavera
– Escolha ao menos um museu. O da região é o maior e mais interessante.
– Use e abuse dos cofres e da sala de espera.
– Ande bastante e devagar. E, se possível, chegue em um sábado.
– Ao menos entre no Russkyi Restauran, na Ussuryisky Bulevard. Restaurantes típicos russos são bregas, mas esse é a coisa mais kitsch do planeta. E um dos mais caros da região.
– Há um supermercado em frente à estação de trem. Abasteça-se ali.
– Inglês, aqui, só nos filmes dos EUA. Esteja preparado.

6 COMENTÁRIOS

  1. Salve, Fabrício

    Finalmente temos Khabarovsk no blog, hehe. Muito legal, como de costume, o relato de como as coisas se passam, aos olhos de um torcedor do Fluminense, desta cidade lá no cafundós da Rússia. Acho que foi uma das mais interessantes que li até o momento. Agora, para arrematar com chave de ouro, só falta mesmo Vladisvostok.
    Abraço,
    Felipe

  2. Bom dia, Fabrício.
    Achei fantástico esse relato até então da Transiberiana..Não vejo possibilidade de fazer isso que postou no site mas é show.. Realmente viagei em toda essa trajetória. Virei seu fã, apesar de você ser tricolor rsrsrsrs..

    Parabéns e Saudações Rubro Negras..

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