Transiberiana em Krasnoyarsk: um dia é muito pouco

A “missão Krasnoyarsk” era indigesta. Meu primeiro trem era o 609НА, Tomsk x Novokuznetsk. Seriam apenas duas horas na 3ª classe do velho comboio.  E depois mais duas horas em Taigá, na “estação hub” da transiberiana. Trata-se de um prédio bonito, simpático, não muito grande, com um lustre vistoso e uma cafeteria honesta. Comprei alguns víveres, tomei um chá e comi um pastel. E esperei.

Logo, ouvi nos alto-falantes que estava na hora de meu outro trem: o 056, “firmenyi” chamado “Enisey”, que roda entre Moscou x Krasnoyarsk. Reservei a segunda classe e peguei um vagão direitinho, limpo, arrumado, mas onde todos já dormiam.  Afinal, já passava da meia-noite. Seria meu trecho mais curto, pouco menos de 10 horas. Então, era coisa de dormir e acordar.

Ao contrário dos trens “sem grife”, os trens velozes e assinados têm provódniks e provódnitsas (aqueles que cuidam dos vagões) responsáveis. Cerca de uma hora antes do fim da linha, o camarada veio de cabine em cabine avisando: “Krasnoyarsk em 40 minutos. Preparem-se”.

Depois de Novosibirsk, Krasnoyarsk é a cidade mais importante da Sibéria. Bom, talvez as duas estejam no mesmo patamar, embora a primeira tenha quase o dobro de tamanho e 50% a mais de habitantes. O fato é que eu havia planejado um dia para Krasno. Felizmente, isso se configurou num erro. Menos mal, agora eu já tenho motivos para voltar.

De início, fui recebido nos trilhos logo cedo pelo sobrinho de um grande amigo. Semyon é um businessman da cidade, do alto de seus vinte e poucos anos. Combinamos algumas coisas rapidamente e, da estação, fomos tomar um café no Traveller’s Coffee, bater um papo e conversar sobre a cidade. Era uma quinta-feira de tempo nublado. Ainda era cedo, assim evitamos o trânsito da cidade.

Dali, fomos para um mirante às margens do rio Enisey. Além de local onde noivos peregrinam e amarram cadeados e fitas, o ponto turístico tem uma incrível vista e um estranho monumento: um peixe com um livro de mármore, lembrando o escritor local Viktor Astafiev, cujo texto “Peixe-Tsar” se tornou famosíssimo por ser um despertador para a consciência ecológica nas crianças da Rússia.

O próximo objetivo era conhecer o famoso jardim zoológico da cidade, que fica bem perto. Dentre outros bichos curiosos, as maiores atrações ali eram os ursos polares – e se ver um urso polar já não uma coisa comum, imagina ver um urso polar na Sibéria! Pois é, são três grandalhões, no total, que, nesta época do ano, raramente saem da piscina de água gelada. Sob 10, 15 graus, eles morreriam de calor.

Depois de conhecer os gigantescos ursos polares, partimos para o parque Bobrovy Log, onde iríamos dar uma caminhada pelas Stolby – que em russo significa “colunas”. São pequenas montanhas de rocha vulcânica e que deixam a paisagem completamente deslumbrante. Tirando o frio no teleférico, é um passeio obrigatório em Krasnoyarsk. Como ainda não havia neve e era um dia de semana, o parque estava vazio. Pudemos pegar o teleférico e dar uma bela caminhada pela região, com uma paisagem absolutamente incrível!

Trata-se de uma área de 17 mil hectares com uma sequência de pilares de rochas vulcânicas bem íngremes – dentre os quais se desta a TakMak, uma coluna bem íngreme com uma pedra meio que equilibrada em seu topo. Do teleférico, a caminhada até seu topo leva mais ou menos 1 hora e meia e não é recomendada para não treinados, bem como sem guia. Dali também é possível caminhar até as pedras da Tcheripaha (tartaruga) e Papugai (papagaio). Mas são caminhadas mais longas e pesadas. O legal mesmo ali é a “Pedra dos desejos” (Kamen Zhelanii), que fica bem acessível e de onde é possível ter a melhor vista da Takmak. Abrace a pedra, faça seu desejo e ele, obrigatoriamente, se tornará realidade. Pelo menos é o que diz a tradição.

Do parque partimos para o centro da cidade. Krasnoyarsk impressiona pelo bom estado de conservação, pelas aparentes opções de lazer, pelo tamanho – recentemente entrou no seleto hall das cidades com mais de um milhão de habitantes da Rússia – e pelo volume de investimentos. A cidade está em franca expansão, com bairros inteiros sendo construídos.

Mas, em meio a todo o frenesi, bem no coração da cidade há uma ilha, literalmente, de paz. O parque Tatyshev é um oásis dentro de um oásis. Ciclovias, rios, gramados enormes, espaços de lazer, cabines para churrasco, enfim, tudo o que você pode imaginar para diversão, vai encontrar ali. Ainda mais em um dia com tempo tão bom (estamos na Sibéria, lembra? Aqui o tempo muda num piscar de olhos), famílias inteiras curtem e relaxam no Tatyshev. Comemos um churrasquinho ali e andamos umas boas horas.

Da ilha Tatyshev fomos para a Karaulnaya montanha, onde há uma pequena catedral com um relógio. É mais um ponto interessantíssimo, de onde se pode ver toda a cidade – e que costumava figurar na nota de 10 rublos (que está sendo recolhida e substituída). E, há quase cem anos, é dali que, ao meio-dia, todos os dias, é disparado um tiro de canhão. Ninguém sabe explicar ao certo o motivo, mas não deve ser difícil de descobrir.

Mas ainda tinha mais. Ainda faltava o centro, ainda faltava a Praça Lenin e a rua Karl Marx, claro. Estes, aliás, são os verdadeiros points da juventude. A Beira-Rio tem barcos que prometem muita festa, além de uma pista inteira para passeio. Tudo arborizado, verde, com um ar bastante respirável – e com wi-fi liberado para todo mundo!



“На этом берегу Красноярск, самый лучший и красивый из всех сибирских городов, а на том – горы, напоминающие мне о Кавказе, такие же дымчатые, мечтательные. Я стоял и думал: какая полная, умная и смелая жизнь осветит со временем эти берега /// Nesta margem Krasnoyarsk, a melhor e mais bela de todas as cidades siberianas, e naquelas montanhas – que me lembram o Cáucaso, cor de fumo, inspiradoras, eu me ergui e pensei: que completa, sábia e audaciosa vida ilumina esta margem, com o tempo”

 

Para fechar – realmente – a Prospekt (avenida) Mira, a principal da cidade, que pulsa com muitas atrações culturais. Teatros, cinemas, lanchonetes, restaurantes, tudo está por ali. Tirei umas fotos com o velho Púchkin e sua senhora Natália Goncharova e, infelizmente, tive que me despedir de Krasnoyarsk. Se você for fazer a Transiberiana, inclua a cidade e dedique a ela ao menos dois dias. De preferência, sexta e sábado.

A missão agora, na bela estação ferroviária de Krasnoyarsk, era pegar o trem 270СА, que roda entre Adler x Blagoveschensk (uma longa viagem, diga-se de passagem). Seriam cerca de 20 horas na segunda classe do velho e lotado trem.

Dicas:

–> Krasnoyarsk merece mais que um dia. Tente combinar a cidade com um final de semana. Krasnoyarsk promete bombar

–> Se não tiver amigos e não falar russo, tente reservar algum pacote para conhecer ao menos a reserva Stolby e a ilha Tatyshev. A locomoção via transporte público aqui é complexa e demorada.

–> Caminhe muito pela prospekt mira, pela ilha Tatyshev e pela Beira-Rio. Use e abuse do wi-fi liberado.

–> Krasnoyarsk tem uma cena cultural forte. Tente reservar uma peça de teatro, um concerto ou um show. Todo dia tem algo legal para ver aqui.

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3 respostas para “Transiberiana em Krasnoyarsk: um dia é muito pouco”

  1. Olá. Tudo bem? 🙂

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.

    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie – Boia Paulista

  2. Anderson disse:

    Bela cidade!

  3. Bira Teodoro disse:

    Gostei muito desse relato. No final de novembro vou para Krasnoyarsk e estava preocupado em não encontrar muita coisa interessante, mas estava enganado. Felizmente.

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Leia o post anterior:
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