Transiberiana em Tchitá: tensão, decembristas e a melhor ‘Praça Lênin’

 

Agora o destino era Tchitá. Muitas vezes eu pensava: viajar pela Transiberiana é como jogar War. Essa brincadeira me divertiu por muitas vezes. Moscou, Omsk, Dudinka (cortada pelo rio Yenisei, que passa por Krasnoyarsk), Sibéria e agora, Tchitá (sim, com acento no final). O que eu não imaginava era que a curiosa cidade não me reservaria muitas surpresas. E seria uma enorme furada.

(Não esqueça de clicar nas imagens para ampliar)

Bom, a viagem de trem no velho conhecido 270CA, que roda entre Adler x Blagoveschensk, foi bem sem graça. Entrei, comi, dormi. Seriam cerca de 11 horas até o destino final. Já ao entrar no vagão, notei duas coisas: a provódnisa, dessa vez, era provódnik. E um jovem casal nas camas do lado. O primeiro era do tipo engraçadinho e, já ao notar que eu não pagara pela roupa de cama, perguntou se eu ia dormir na “madeira”. Óbvio que não. Paguei e o casal logo puxou papo comigo.

Resumidamente, ambos viviam às turras, discutindo, iam fumar de cinco em cinco minutos e me aterrorizaram. “Tchitá é perigosa, poluída e não tem nada para ver”. Bom, eu não esperava ver nada interessante, mas uma cidade tóxica e violenta não estava nos planos. A dupla me briefou e, de manhã, me acompanhou até a kâmera hranenia (o guarda-volumes, lembra?). Nos despedimos e eu tracei o plano para o dia.

Veja como funciona uma câmera hranenia (guarda-volumes). Seguro, barato e prático. Não se viaja de trem sem ela.

Tchitá, logo de cara, tem uma catedral estonteante, com cúpulas douradas, gigantesca e renovada. As ruas são largas, as construções, em bom estado, a cidade é limpa. Enfim, aparentemente, agradável e acolhedora (como o guia Lonely Planet afirma). Mas aí que mora o perigo.

São, basicamente, 4 avenidas que valem a pena ser vistas: Amurskaya, para a direita, Ostrovskogo, para frente, Lenina, à esquerda e, mais acima, a Babushkina. Fora disso, você provavelmente vai cair em alguma coisa deserta e estranha, com gente que te olha de cima a baixo.

Na Amurskaya, sempre para a direita, você vai cair na rua que, um dia, foi conhecida como Damskaya – hoje rebatizada para Stolyarova. Damskaya significa, literalmente, rua das damas, para lembrar as esposas dos amotinados que se mudaram para a longíqua cidade para acompanhar seus maridos deportados. Ande a Amurskaya até a Universidade do Além-Baikal (Zabaikalskaya). Ali há um monumento, cheio de cadeados. Entre naquela ruela em diagonal e você vai sair de cara no Museu dos Decembristas, na igreja do Arcanjo Miguel. Relembrando, foi para Tchitá que boa parte dos revolucionários que tentaram derrubar o tzar em 1825 foi enviada.

Aqui, você vai poder conhecer um bocado da história desses quase-mártires. O lado bom é que tem muitos documentos históricos. O lado ruim (bom, se você falar russo, nem tão ruim assim) é que tudo é em russo. Passei um bom tempo ali e depois me mandei.

Comi uns Pozy com uma cerveja Sibirskaya Corona por parcos 110 rublos (algo como 4 dólares). Do lado da universidade. Aliás, quando estiver com fome, procure a universidade. É a garantia de comida boa e barata.

Segui pela rua Amurskaya, subi pela Ostrovskaya para cair na praça dos Dekabristas. Decepção. Um mato alto numa pracinha que, um dia, deve ter sido bonita, escondia meia dúzia de sujeitos mal encarados que, ao notar um turista, logo começaram a se cutucar. Sebo nas canelas… Subi pela mesma rua, a Ostrovskaya, até a Babushkina, onde havia o museu Kuznetsov, com a história da região. Como me embananei com o fuso, cheguei na hora em que o museu estava fechando. Mas aí entra o poder do passaporte brasileiro. Dez minutos de papo com o segurança e a última vovó me renderam uma bela hora pelo interessante museu, que conta bastante da arquitetura local. Novamente, tudo em russo.

Ali mesmo, em frente ao museu, há a igreja Arquiepiskopa Krymskogo. Deve ser linda, pelo pouco que vi entre os andaimes da reforma. Voltei por uma das ruas mais bombantes da cidade, a Leningradskaya, e peguei de novo a Leninskaya. Ali, o Museu Militar tem um bocado de relíquias bélicas das últimas guerras do oriente da Rússia que vão fazer os fanáticos por armas terem tremeliques. Porém, tudo em russo. De novo…

Mais uma caminhada pela rua Lênina. Como estava morto de fome, achei uma Shokoladnisa (sim, eles chegaram a Tchitá!) no caminho e não fiz cerimônia. Parei, peguei uma mesa, pedi um Capuccino Caramelo e aproveitei o (muito) tempo de sobra para dar uma aliviada no calor e responder emails.

Por volta das 20h, ainda com sol forte, continuei minha caminhada. O melhor da cidade deixei para o fim: a gigantesca e frondosa Praça Lênin. Claro, o pai da Revolução estava lá, em uma pose meio estranha, com uma cor meio rosada, mas estava lá, no centro da praça, fechada para o tráfego. Naquele horário, com aquele tempo lindo, creio que boa parte da cidade estava ali também, seja passeando, seja conversando, seja simplesmente esquentando os ossos, o movimento era enorme. Fiquei um bom tempo morgando, relaxando… Afinal, meu trem só sairia de madrugada…

 

Ainda tive tempo de dar uma volta pelo quarteirão entre as ruas Butina e Leningradskaya, passar pelo antigo cinema soviético Ródina (pátria) e ver como a vida passa devagar nas cidades pequenas, com trólebus soviéticos, patins da década de 80 e jovens vestidos ora no estilo new-wave, ora no estilo final dos anos 70.

Quando começou a escurecer, por volta das 21h, a praça foi morrendo, morrendo, até que todo gato ficou pardo. A malandragem começou a aparecer, os bêbados e os chineses. Sabe quando você sente que tem algo errado no ar? Pois é. Parem em um Subway (sim, o Subway é a cadeia de fast-food mais pop da Rússia) quando notei que estava sendo seguido, depois em um mercadinho, onde comprei queijo, bebida e noodles para a longa viagem, e me esgueirei até a estação de trem.

De fato, Tchitá não é nada convidativa. No máximo, faça aqui uma escala de 4 horas. É mais que suficiente. E nada de noite. Eu fiquei um dia inteiro, inventando o que fazer, puxando papo com quem conseguia, andando e andando sem parar. E ainda me sobraram algumas horas. Para relaxar um pouco, parti para os “komnaty otdyha” (os quartos de repouso, que existem em todas as estações de trem). Tomei um banho e paguei por uma cama.

O quartinho era bem decente, a cama, ótima e tinha até uma TV xing-ling. Como paguei pelo melhor quarto (=cama), tinha a certeza de que nenhum maluco iria me incomodar. Consegui relaxar bem. Na saída, a titia segurança ainda puxou um papo, ao descobrir que eu era brasileiro. Contou que, alguns meses atrás, ela havia visto a primeira brasileira de sua vida. “Procure por ela na Internet e diga que mandei um abraço. Seu nome é Anna Gabriela Batista Gavella”, disse a simpática senhora, depois de folhear um livro enorme atrás do nome da brasileira.

Então, se você conhecer a tal Anna Gabriela Batista Gavella (ou algo parecido), que trabalha como tradutora para alguma multinacional, diga que ela foi bem lembrada na estação de trem! =)))

No geral, Tchitá é uma pequena cidade. Fico um pouco ressabiado em “desrrecomendar” lugares. Mas é um lugar pouco interessante, um tanto perigoso e sem infra para turismo. Tem lá seu charme, as pessoas são bem simpáticas, enfim, é outra vibe. Se você resolver parar, esteja preparado.

Bom, depois de mais um território conquistado, no meu War particular, era hora de partir em direção a Birobidjan, a Zion de Stálin, a Terra Prometida para os judeus ainda no início da União Soviética, bem antes de se imaginar que Israel se tornaria realidade. Mas, que no fundo, era uma enorme furada.

Até a terra que inspirou Moacyr Scliar a criar o personagem principal de “Exército de um Homem Só”, eu teria que encarar quase 40 horas dentro do trem símbolo da Transiberiana, o 002, ou Rossyia. O melhor, o mais veloz, o mais lindo e caro trem que rola sobre os batentes do maior país do mundo.

É o sprint final da Transib. Que eu conto mais tarde.

 

Dicas:
–> Pague pela roupa de cama ao comprar seus bilhetes. Comprar na hora pode ser arriscado, já que o vagão pode estar sem, você pode estar sem dinheiro ou pode ser tarde e a provódnisa simplesmente se recusar a te vender. Vai por mim, isso acontece e muito…

–> Nos “quartos de repouso”, se estiver sozinho, faça uma extravagância: pegue sempre os melhores, mais caros. Assim você evita ter que dividir o espaço com algum maluco. Lembre-se: NÃO HÁ COFRES ALI. Ou seja, quem cuida da segurança é a titia que fica na portaria. O que, para mim, é igual a “perder tudo o que você tem”.

–> Tchitá vale, no máximo, seis horas, se o tempo estiver bom. Os museus Kuznetsov, Dekabristas e Militar só tem coisas em russo. Fecham cedo e não abrem às sextas-feiras. Se você perdê-los, não irá sentir falta de nada. A praça de Lênin, no entanto, é um barato.

–> A cidade é realmente perigosa. Fique longe das vizinhanças próximas ao rio Tchitá. E evite sair das ruas conhecidas (Amurskaya, Babushkina, Leningradskaya, Lenina e Butina).

–> Tchitá, no entanto, é um ótimo lugar para comer. Ache um restaurante barato (eu fiquei no Pozy perto da universidade). Há muitos!

–> Pernoitar aqui é perda de tempo. Mas como todos os trens fazem escalas aqui, se você tiver mesmo que ficar em algum lugar, vá no hotel Vizit, que fica na Lenina. Eles têm até cobrança por horários. Todos os outros hoteis indicados pelos guias são enormes furadas. Sobretudo Dauria, Taiga, AchO e Chitaavtotrans = FURADA. Os quartos de repouso da estação de trem são melhores

–> A estação de Tchitá é uma das mais bem policiadas. Qualquer descuido com sua bagagem e ela será tratada como bomba. Vi isso acontecer duas vezes: os agentes correndo e gritando, o povo saindo… Deixe tudo na “kâmera hranenia” o máximo que puder.

 

email
Related Posts with Thumbnails
http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/stumbleupon_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/delicious_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/technorati_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/google_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/myspace_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/facebook_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/yahoobuzz_48.png http://www.falandorusso.com/wp-content/plugins/sociofluid/images/twitter_48.png


15 respostas para “Transiberiana em Tchitá: tensão, decembristas e a melhor ‘Praça Lênin’”

  1. Sanches disse:

    Muito bom!! Sensacional!! A cada postagem que passa, eu quero mais e mais e mais 😀

  2. Lucas disse:

    Muito bacana seu blog. Tenho acompanhado desde há um tempo atrás, pois estou na Áustria (morando por um ano) e estou planejando minha viagem para Moscou e talvez St. Petersburg, provável que irei sozinho para Moscou em Março. Ainda estou criando coragem, pois pelo que tenho lido não é muito fácil se locomover na Rússia.
    Parabéns pelo blog!

    • Boas Lucas,
      Obrigado pelo elogio e pelo comentário!
      Se locomover é fácil na Rússia. Difícil é se comunicar… Mas o alemão vai te dar uma enorme ajuda. Já abuso dizer que muito mais gente tem mais familiaridade com o idioma de Goethe do que com o inglês!
      Vamos nos falando
      Abraços!

      • Lucas disse:

        Obrigado Fabrício!
        Meu alemão é bem básico ainda. Aqui na Áustria uso ingles para conversar na empresa que estou estagiando.
        Mas eu irei para a Rússia só depois de março, no inverno nem iria compensar, até lá da para pegar mais dicas sobre a Rússia e também tentar conseguir uma passagem mais em conta.

  3. Luis Gustavo disse:

    Sensacional! Arrependi de ter ido pra Rússia e ter conhecido só Moscou e São Petersburgo. Já estou pensando em voltar pra lá. Quais cidades vc considera imperdível?

  4. Luis Gustavo disse:

    Obrigado pela resposta! Estou voltando de uma viagem sensacional para o Irã e já estou planejando a próxima. As fotos da viagem para o Irã e as da Rússia estão em http://instagram.com/luisgustavolinhares .

  5. Olá. Tudo bem? 🙂

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie – Boia Paulista

  6. Miguel disse:

    Fabrício parabéns pela viagem e mais ainda pelas postagens muito bem escritas e ilustradas!

    Estudo russo há 4 anos como atividade de hobby. Graças a uma temporada de promoções da Ibéria, estive este ano (em maio/junho) em Moscou, São Petersburgo, Vladimir, Suzdal e Irkutsk (via Ural Airlines). As suas impressões/experiências somente reforçam meu sentimento de que a Russia (ao menos no que tange aos deslocamentos turísticos de pessoa com um domínio mínimo (no meu caso) da lingua russa) é bem mais segura do que o Brasil. Basta imaginar as situações inversas (russo com pouco/razoável conhecimento de português passeando no Brasil).
    Outra percepção que tive é o reduzido custo de alimentação, estadia e transporte fora de Moscou e São Petersburgo.

    Miguel

    • Boas Miguel,
      Obrigado pelos elogios, visita e comentários! =)
      É bem por aí. As diferenças econômicas são monstruosas no caso do Brasil. E, mesmo as diferenças culturais sendo absurdas também na Rússia, no Brasil elas são mais escancaradas mesmo para quem não fala a língua.
      Vladimir e Suzdal podem ser consideradas ‘Grande Moscou’, já que vivem exclusivamente do turismo. Irkutsk também não é lá muito barata – vive às custas do turismo no Baikal.
      O problema de Moscou e Píter é que, megalópoles que são, se torna muito difícil achar algum lugar com preços decentes. Mas basta dar uma esticada até os pólos que vc encontra coisas honestas. Costumo ir muito para Kuz’minki, onde os preços são de outra dimensão. Tushinkaya, Maryna Rosha, Babushkinskaya, Domodedovskaya…Quando mais pras pontas do metrô, mais barato a coisa fica. Mas aí também tem menos coisa interessante pra ver. Píter é mais fácil: basta sair do eixão Nevskii que fica melhor. Mas aí também, né?
      Fora das megalópoles, no entanto, é mais fácil achar uma Stolovaya, um restaurante familiar ou um mercadinho. Além do mais, o forte da Rússia não é a comida! =)))
      Abração!

  7. Sandro disse:

    Caro Fabrício, este post vai ser exatamente o meu guia para Tchitá. Veio super a calhar (só espero que ninguém me siga também!).

    Estou agora em Omsk (a cidade mais sem-graça até agora) e seu relato me ajudou a decidir entre dormir em Tchitá ou seguir viagem e abusar dos chuveiros das estações. Segunda opção escolhida. 🙂

    Um abraçao da Sibéria

    Sandro

  8. André disse:

    Boa noite, Fabrício:

    Sensacional o seu blog! Estive em Moscou e São Petersburgo em maio desse ano e acabei me animando para realizar o sonho antigo de aprender russo. Voltarei em breve ao país, que me fascinou.

    Você chegou a ir a Norilsk e a Dudinka? Sei que são cidades fechadas, mas como você “local”…

    Abraços.

    • Boas Andre,
      Então, acho que nem são cidades fechadas. Norilsk talvez, pq é a cidade mais tóxica do mundo, né? O problema é que ficam no círculo polar ártico. MUITO longe de qq coisa (de Krasnoyarsk, quando vc pergunta por Norilsk, as pessoas ou riem ou nem sabe do que se trata). Mas pelo que vi, as poucas cidades fechadas na Rússia que existem atualmente nem aparecem nos mapas. Vladivostok era fechada, por exemplo.
      Mas realmente, tenho poucas informações sobre as cidades. O blog está sobrevivendo por aparelhos, mas se vc quiser fazer um post sobre essas cidades, está convidado!
      ABraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia o post anterior:
Transiberiana em Ivolginsky Datsan: o coração do budismo mongol

A aventura pela Transiberiana segue em Ulan-Ude, agora no famoso complexo budista de Ivolginsky Datsan. Centro do budismo mongol, fica...

Fechar