Transiberiana em Tomsk: conexão com a bela ‘Oxford da Sibéria’

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Cheguei em Tomsk por volta das 6h20 da manhã, após cerca de 36 horas, divididas em dois trens. O fuso é +7GMT – hora de Moscou mais 3 horas.  Ou seja, eram, na verdade, 3h20 da manhã. A confusão com horários é inevitável e o corpo começa a sentir a desorientação. E eu já imaginava que, para chegar atrasado (ou mais cedo) e perder um comboi era uma questão de… tempo!

Após deixar Ecaterimburgo, optei por fazer uma escala na pequenina cidade de Taigá, no meio da madrugada. Explico: Taigá fica na Transiberiana, Tomsk, não. Todos os trens da Transiberiana param na pequena estação, enquanto raros fazem o desvio para a “pérola da Sibéria”. Isso faz com que o número de horários seja menor, e mais inconvenientes, além de deixar os preços mais altos.

Porém, é uma manobra arriscada que não recomendo. Meu trem chegou em Taigá 0h58 pontualmente, enquanto meu outro para Tomsk partiria 1h30. Ou seja, uma janela pequena e qualquer atraso seria trágico. Além do mais, Taigá, no meio da madrugada, no final de agosto, é fria, muito fria. Lembre-se: estamos no coração da Sibéria. Economizei tempo e pude pegar trens mais adaptáveis ao meu horário, mas corri um risco monstruoso e me cansei demais.

Bom, de Taigá para Tomsk viajei na 3ª classe do trem 610, que circula entre Ulianovsk x Vladivostok. Se eu disse que o 350 era o pior, mil perdões. Esse é não só pior, mas bem mais velho. E, no final da viagem, a situação era dramática: pessoas cansadas da viagem, um cheiro bizarro, comida por todo canto, enfim, um caos. Menos mal que a viagem iria durar apenas duas horas…

Chegar em Tomsk foi uma grata surpresa, sobretudo por ter amigos de amigos me esperando. Como estava morto e o tempo não ajudava – uma chuvinha chata insistia em cair -, optei por dormir a manhã de domingo. Mas o que vem na próxima hora é imprevisível na Sibéria. O tempo muda, ao que parece, num piscar de olhos. E assim foi, quando acordei, um simpático sol brilhava e prometia me ajudar com boas fotos.

Apesar de ter tido alguns convites de amigos, optei por um simpático albergue, o 8th floor, que tem uma ótima localização para se conhecer tudo a pé – embora fique um pouco longe da estação de trem. Contudo, não espere placas ou sinais. Anote o endereço e peça informações. Como sempre, trata-se de um apartamento reformado e adaptado para virar albergue. É um dos melhores albergues onde fiquei, tem um dorm novo, limpo, um staff de primeira, cozinha, ótimos banheiros e são bem tolerantes quanto a horários. Recomendo muito!

Parti com os amigos para um passeio pelo centro da cidade, onde visitamos as casas mais importantes. A arquitetura siberiana é muito elegante, clássica, com detalhes vibrantes na madeira, dando uma aparência de que as janelas são “barbudas” e que tudo é florido e colorido. Entretanto, é uma pena que muitas casas seculares que guardam uma arquitetura tão bonita estejam em um estado tão deplorável. Talvez se o governo e os locais se mobilizassem, Tomsk poderia ganhar muita força no turismo. Afinal, as famosas “casa pavão”, “casa dragão” e “casa alemã”, na região da rua Krasnoarmeyskaya são verdadeiras obras de arte.

Aliás, a cidade é uma potência universitária, com direito a ser conhecida como a “Oxford da Sibéria”. São cerca de 10 prestigiadas universidades que oferecem dezenas de cursos com um nível internacional de excelência. Dos cerca de 500 mil habitantes da cidade, pelo menos 1 terço é itinerante, composto dos estudantes que lotam Tomsk no período letivo, mas deixam a cidade às moscas durante as férias.

Via de regra, as universidades são verdadeiros palácios à moda antiga. Apesar de tudo, os campi tem uma aura muito progressista e cosmopolita, para não dizer liberal. Os alunos desfilam concentração e descontração pelos cafés desta parte da cidade e é impossível não dizer que a cidade, realmente, pulsa.

Com meus amigos, pude visitar ainda as catedrais da cidade, a Iverskaya, a Voznesenskaya e a Bogoyavlenskaya, o memorial aos mortos da II Guerra Mundial, chamado “Lagerny Sad” – que tem uma vista impressionante para o rio Tom.  Também é legal curtir uma caminhada pela Beira-Rio e tirar uma foto com a tresloucada estátua de Tchekhov.

Segundo conta o autor da escultura, Leonty Usov, o escritor esteve em Tomsk no longíquo ano de 1890. Durante a passagem, o brilhante escritor (e físico) se espantou com a cidade e escreveu em seu diário: “Tomsk é uma cidade idiota. A julgar pelos bêbados que conheci, e pelos intelectuais que vieram me encontrar no hotel, seus habitantes são idiotas também”. Daí a escultura, em forma grotesca, que lembra um desenho animado tosco, com o seguinte escrito em sua base: “Tchekhov em Tomsk visto pelos olhos de um bêbado jogado na sarjeta, e que nunca leu a ‘Kashtanka'”. Absolutamente imperdível, a vingança Tomskiana!

Além disso, outro programa interessantíssimo é o Museu da NKVD e a “Pedra da Tristeza”, na praça em frente. O local guarda ainda as catacumbas onde eram mantidos os presos políticos do regime soviético antes de serem “julgados” (entre aspas, já que o processo durava 20 minutos). Um dos lugares talvez mais pesados em toda a Rússia.

Mas, surpreendentemente, as duas coisas mais legais que fiz em Tomsk foram mais pessoais, digamos assim. A visita ao estúdio de um dos mestres do teatro de bonecos no mundo, Vladimir, Zakharov, e o churrasco na Datcha com direito a Banya e a um mergulho no lago com águas geladas, seguido de uma noite de rock’n’roll russo ao violão, foram momentos inesquecíveis da passagem por Tomsk. Isso sem contar o excelente albergue 8th Floor, onde conheci gente muito bacana – incluindo aí um russo starovera que deu praticamente uma aula sobre sua religião a todos os hóspedes.

Resumidamente, a simpatia, a vida e o charme de Tomsk me cativaram. É um desvio indispensável na Transiberiana. Deve ser muito legal estudar aqui, viver essa cultura e essa tranquilidade. Não fosse pelo frio extremo, eu voltaria no tempo para ser universitário na “Oxford da Sibéria”.

Mesmo depois de dado o check-out no hotel, ainda aprontei mais uma. Um amigo me ofereceu carona para a estação mas eu, obviamente, me confundi com os horários, chegando na estação cerca de 3 horas antes… Nada sério, mas eu ainda teria que pegar duas horas de trem até Taigá e uma genial escala de 2 horas na tediosa estação. Após esse chá de cadeira, seriam cerca de 9 horas na 3ª classe do top comboi 056, o firmenyi chamado “Enisey”, que roda entre Moscou x Krasnoyarsk. Afinal, eu merecia um luxo, né?

14 COMENTÁRIOS

  1. Gostei de TOMSK , por meio de suas palavras pude sentir realemte um certo ar de tranquilidade na cidade…

    Parabéns pelas fotos! obrigado por compartilhar!

  2. oi meu nome e agnaldo. conheci uma pessoa desta cidade atraves da net. e estamos conversando. gostei da cidade; e sua viagem legal. estive uma vez em tambov, passei lá 10 dias. se algum dia for lá, e prque está recente meu contato com ela, posso pedir sua orientação acerca da viagem? sou de curitiba. obrigado

  3. Poxa, fiquei encantado com essa sua história e viajei junto com você por essa incrível aventura por entre as cidades que passou até chegar na Belíssima cidade de Tomsk.
    E muito legal seu cometário, sobre à cidade Tomsk e suas Arquitetura maravilhosas. Valeu, um forte Abraço!
    LUCIANO OMENA.

  4. Pois então
    Yuri …
    Estou namorando uma gata de tomsk
    Já fazem 4 meses e estou apaixonado…
    Porém nosso namoro é via email com tradução eletrônica…esta fácil p mim tenho um Iphone cheio de aplicativos …
    Mas estamos querendo se tocar…
    Ou ela vem ou eu vou…
    Já to preocupado porém apaixonado por tudo e toda nossa história e esta bela cidade…
    Sou gaúcho e moro em GAROPABA
    To aceitando qualquer ajuda. Kkkk
    Como baratear a viagem, idioma, dicas!!!!
    Abracao!!!

    • Boas Fernando,
      A viagem é muito longa e cara. Dificilmente vai te custar menos de US$1500, 2000 – só a passagem!!! A língua, bom, vc vai ter que aprender, e o processo é longo, muito longo. As dicas sobre Tomsk, bom aquelas mais interessantes estão no post sobre a cidade. Não tem muito mais coisa lá não, a cidade é pequena. Enfim, não tem muito como te ajudar… Boa sorte e que não seja golpe!
      Abraços,

  5. Eu já li a história do golpe…
    Estou atento…
    Porém se não for …
    Ta muito legal…
    Não vou meter os pés pelas mãos…
    E ela viria a principio…
    To de olho!!!

  6. Se tu puder fazer um contato com o agnaldo de Curitiba e se ele tiver face podemos fazer umas comparações de diálogos nomes e fotos, endereços etc…
    Aguardo sua resposta!!!

  7. Obrigada,farei menção sim, agora estou super morrendo de sono, mas movi para a lixeira até colocar a menção certinho, sou super enrolada com isso, obrigada, abração!!!

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