Transiberiana em Ulan-Ude: budismo, calor e a cabeça de Lênin

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Ulan-Ude começou com uma grande expectativa. Afinal, o Baikal havia sido fantástico e nem perder o trem em Irkutsk – a coisa mais apocalíptica que pode ocorrer na Transiberiana – abalou minha fé. Então, depois de quase 8 horas em um trem bem médio, devastado e sujo pela equipe juvenil de basquete de Irkutsk, cheguei na capital da República da Buryátia – Ulan-Ude.

Ainda no trem, conversei bastante com um senhor com cara de asiático e com um russo falastrão. Entre um causo, uma galhofa e uma mentirada, pegava algumas dicas de onde ir e do que fazer na cidade. Ainda andando para a estação de trem de Irkutsk, conheci um cara meio estranho, Stanislav, ex-militar que serviu na Chechênia, que, basicamente repetia um mantra: “Os buriats são violentos e vão te arrebentar se você andar por lá tarde da noite assim”. Fiquei com isso na cabeça e, já na estação de UU, estava ligadíssimo.

Era uma manhã de sol, mas fria. Perguntei para onde deveria ir e, em vez de pegar um ônibus, fui andando. A estação fica às margens do rio Selengá. Com cerca de 450 mil habitantes, Ulan-Ude é a capital da república da Buryátia, parte da Federação Russa. É predominantemente mongol (está do ladinho da Mongólia) e você vê traços do budismo em todos os lugares. Ulan-Ude significa “Belo Ude” (Udá é um dos rios que corta a cidade e significa “meio-dia”).

Bom, aqui, como em Irkutsk, a máquina do tempo funciona perfeitamente. Prédios da URSS, roupas, carros, anúncios, bondes, trólebus, ônibus, sapatos, vovós… Tudo como nos anos 80, possivelmente. Demorei um pouco mas achei meu hostel, o “Baikal by Nina”. Adivinhem: um apartamento convertido em dorm, com 5 camas, uma cozinha e um banheiro (e que ficou só para mim, na ausência de outros hóspedes). Minhas anfitriãs, as irmãs e filhas da dona do negócio Masha e Dasha me explicaram a rotina e me avisaram: você está quase no deserto, mas ainda na Sibéria. Ou seja: sol e calor de dia, frio de noite.

De fato, sob o sol, por volta do meio-dia, quase trinta graus. De noite, entre zero e cinco. Pelo menos o pôr-do-sol acontecia por volta das 22h da noite.

Bom, para começo de conversa, era preciso conhecer o grande atrativo da cidade. Literalmente. No centro de Ulan-Ude fica o bizarro monumento a Lênin: a gigantesca cabeça, no meio da não menos suntuosa praça. Andei bastante por ali – fiz tudo praticamente a pé na cidade, cujo trânsito é completamente caótico -, e precisei trocar dinheiro. Tal tarefa, em um lugar meio siberiano, meio mongol, não é nada fácil. Achei um banco, discreto, escondido, mais parecia um escritório, e esperei. Depois de um interrogatório, consegui converter meus dólares em rublos. Mau presságio…

Em uma das andanças, pela rua Smolina, paralela à rua Lênin, eu queria dar um pulo na Universidade da Buryátia. Mas, no meio do caminho, fui abordado pelo Izaak. Aparentemente um viciado, queria me vender um celular. Disse que veio para a Buryátia e ficou sem dinheiro. “Você sabe como os homens russos farreiam até se acabar”. Pois é, eu sei, mas começamos a discutir feio, já que quem tem filho barbado é camarão e eu não vou sustentar farra de marmanjo, né? No fim, chegamos a um consenso: eu não iria comprar o celular e ele não iria me roubar. Sugeri que ele fosse engabelar uns turistas americanos na cabeça do Lênin. O olhinho dele brilhou. Afinal, entre um mochileiro brasileiro e hippies americanos com iPhones, óbvio que a segunda opção era mais atrativa. E essa história foi apenas uma das muitas de Ulan-Ude…

Ulan-Ude, mesmo, não tem muitas atrações. Valem ser visitados o Museu Etnográfico e as Datsans – minicomunidades budistas – no caminho e o Museu de História. O primeiro fica a cerca de 30 minutos, de van, do centro da cidade. Trata-se de um enorme descampado, com casas e templos que contam a história dos “colonizadores” russos da região, bem como dos locais. Também há um zoológico bem grande. Você pode entrar nas casas e ver como se vivia séculos atrás. O mais legal é entrar nas tendas dos xamãs… Para chegar lá, informe-se (eu peguei a van 37). Mas é fácil. Mas lembre-se de aprender como pedir ao motorista para fazer o desvio e te deixar lá. O trajeto original passa a cerca de 1km da entrada do Museu Etnográfico.

Lembro que, até a fundação da URSS, havia cerca de 30 datsans na região de Ulan-Ude, com mais de 10 mil religiosos. Quando o regime começou, a religião foi proibida e a maioria dos monges, assassinada. Em 1923, todos os ícones religiosos (budistas, ortodoxos e católicos) foram armazenados no museu “antirreligioso”. Que veio a se tornar o Museu de História de UU, outro ponto que vale ser visitado.

Outro lugar legal para se visitar – embora eu não recomende muito – é o mercado central da cidade, na rua Sverdlova. Ali, toda sorte de comidas bizarras e cacarecos budistas-chineses são vendidos no melhor esquema “barganhe”. Foi ali que meu celular apitou e um malandro chegou perto, com olho no aparelho. Mas, ao notar dois policiais que vinham na direção contrária, o sujeito puxou o freio de mão, deu meia volta e desapareceu.

Para comer, a rua boa é a Komunisticheskaya, paralela à rua Lênin. Tem até um enorme e feioso shopping brilhoso. Vale para ver o que rola por ali. Ah, e não esqueça de fugir do Marusia, o restaurante russo tourist trap. Do lado, há uma excelente stolôvaia. Aliás, eu também recomendo a King’s Food, no subsolo da rua Kommunisticheskaya 43. E tá, uma extravagância é fazer compras no supermercado Sputnik. É carinho, mas tem coisas bem boas, como queijos, chocolates, pelmeni fresquinho e vodka de qualidade. Também na komunisticheskaya fica o café Marco Polo. Um oásis de calma com wi-fi liberado, coisa rara aqui. Mas aí vem o contraste: com 200 rublos eu comia até morrer na stolôvaia. Com o mesmo dinheiro, tomo um capuccino no Marco Polo…

Enfim, Ulan Ude é bom para relaxar. Mas não reserve mais de dois dias aqui, a não ser que você realmente tenha interesse em conhecer a cidade ou alguma coisa ligada ao budismo. Aliás, antes de pegar o trem para Tchitá, eu enveredei por uma louca aventura “pão-dura” para chegar ao filé da região, o centro do budismo buriat, a maior Datsan: Ivolginsky. Mas isso fica para o próximo post…

Dicas:

–> Chegue cedo ou de dia em Ulan-Ude. Não é uma cidade das mais seguras.
–> Procure ficar na região da Praça Sovyetov. Os albergues ficam do outro lado da ponte, na região entre a rua Gagarin e a rua Revolyusii 1905 goda. É mais cascudo.
–> Curta a Arbat. Se puder, apareça à noite. O clima é ótimo, com cerveja e comida barata. E um povo muito simpático, que sempre puxa papo.
–> Prove a comida típica da Buryátia. O pozy – espécie de pelmeni maior e mais picante – é imperdível. Peixes aqui também são uma ótima pedida. E o Shi, batata assada com bacon, peixe e vegetais marinados no kvass.
–> Atenção com o fuso horário!
–> Evite dar bobeira longe da Praça Sovetov
–> O tal “mirante” de Ulan-Ude é uma furada. Longe, caro e com uma vista nada de especial.

 

4 COMENTÁRIOS

  1. Salve, Fabrício!
    Mas que jornada essa em UU, hein?! Confesso estar mesmerizado por esta viagem em lugares que sempre quis, e ainda quero, conhecer. Ainda hei de levar a minha esposa junto pela Transiberiana, embora confesse estar um tanto ressabiado pela segurança dela. Jamais permitiria que um malandro qualquer, como este tal de Izaak, nos fizesse algo de mal. Moro no Brasil, país violento por excelência, mas uma coisa é conhecer os nossos bandidos, que são fogo!, outra bandido de outras estepes, literalmente. Bem, é melhor nem pensar assim senão aí sim é que não faço viagem alguma! Parabéns pelos posts, meu caro, e mande brasa nas fotos, que estão bárbaras.
    Abraço,
    Felipe

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