Transiberiana no Lago Baikal: trilha, pôr-do-sol, peixinho e vodka

O Lago Baikal é um dos grandes objetivos da Transiberiana. Você pode variar as cidades, pular umas ou outras, seguir pela Mongólia, China, Coreia do Norte, enfim, pintar o sete. Mas não dá para “pular” o Lago Baikal. O maior lago de água doce da Ásia, o maior em volume de água do mundo, o mais antigo (25 milhões de anos) e o mais profundo da terra, com 1680 metros de profundidade (segundo a Wikipedia) é patrimônio da Unesco e, pessoalmente, um dos lugares mais lindos do mundo.

(Não esqueça de clicar nas fotos para ampliar!)

O plano era deixar Irkutsk em uma van, que você pega perto do mercado central da cidade (que fica entre as ruas Timiryazeva e Dzerzhinskogo, na altura da rua Partizanskaya. Van, em russo, é “Marshrutka” e você pode esperá-la ali mesmo, no estacionamento, onde tem uma espécie de feira. Pergunte sempre se passa em Listvyanka, pois há dezenas de rotas. Não há horário fixo. Elas saem, basicamente, quando lota, mas param de circular por volta das 20h, nos dois sentidos. Ou seja, fique esperto.

A viagem leva cerca de 1h30 e pode ser tensa. Os motoristas estão ávidos por fazerem várias viagens e pisam fundo, fazendo com que o caminhãozinho sobrevoe a estrada em vários pontos. Mas é o jeito típico da Rússia… Bom, se você pegou a van certa, o ponto final é Listvyanka, onde você vai ver os escritórios de turismo e a van vai parar. Verifique o nome de seu albergue, pois pode ser mais vantagem descer um pouco antes. Nesse caso, grite, com força, “Ostanovíte pozhalsta”. E lembre-se do ditado: “Quanto mais baixo você pede para parar, mais longe vai descer”.

Listvyanka é um pequeno balneário no qual se estende uma faixa de areia ao longo do lago. O Sol se põe à direita, então, chegar no fim de tarde é uma ótima ideia. Nos finais de semana de calor, espere uma turba por ali. E leve isso em consideração na hora de ir e voltar, já que as vans lotam e você pode ficar na pista. Na praia há bangalôs, pagos, nos quais você pode sentar e deixar suas coisas. Mas lembre-se: onde há turistas, há malandros. Fique de olho nos seus pertences.

Na van conheci um cara gente fina, de São Petersburgo, que estava indo rapidinho dar um mergulho no Baikal, comer um omul (peixe tradicional da região) e tomar uma vodka, conforme manda a tradição. Quando chegamos na beira do lago, fui até o Eco-Hostel deixar minhas coisas e tocamos para a beira do lago, onde compramos um omulzinho defumado e fomos tentar comprar uma vodka. Como era o último dia antes da volta às aulas, parece que havia uma “lei seca”. Ninguém podia vender bebidas alcóolicas. Mas nada é “proibido, proibido” na Rússia. Depois de um papo, convencemos a vendedora de um boteco a enrolar a vodca em um papel e nos passar pelo lado do balcão, para evitar as câmeras. Justo.

Partimos para o bangalô, onde, apesar da água gelada e da turba de russos curtindo sua “prainha” era a hora do mergulho no famoso lago. Depois, uma vodka Baikal e um peixinho para celebrar aquele pôr-do-sol inacreditável.

Aliás, inacreditável mesmo era como a temperatura despencou após o Astro-Rei se mandar. Dos 25 graus, a coisa veio ladeira abaixo, chegando a 10 graus em coisa de meia-hora. Me despedi do camarada Sasha e apertei o passo para meu hostel, que não era lá muito perto. Na ladeira, encontrei um grupo de idosos da Áustria e uma senhora ucraniana. Viemos em um papo animado até que cruzamos uma casa onde uma enorme festa de casamento estava rolando. Claro que, ao passarmos, fomos convidados. Os europeus não toparam, mas eu dei um alô rápido para os nubentes. Depois de uma sessão de amenidades e abraços, acabei herdando uma garrafa de vodka, que me seria útil mais tarde.

Já no Eco-Hostel, era hora de socializar com a rapazeada. Um grupo com holandeses, australianos, ingleses e americanos, com os anfitriões russos, conversava animadamente, até que eu ofereci a vodka. Óbvio que, não só ninguém recusou, como todo mundo começou a contribuir… Apareceram cervejas, mais vodkcas, conhaques e até um bizarro destilado feito em casa na Mongólia! Nem precisa dizer que, naquele frio de quase zero grau, conversar com a garotada gente fina tomando uma boa vodka foi um grand alento.

A próxima missão seria fazer a trilha na montanha que circula o Baikal. No dia que começou ensolarado e quente, mas com um vento forte, partimos em direção ao final da avenida principal. No final, começamos a subir a ladeira, de onde tínhamos vistas espetaculares do lago, das montanhas e de locais, que se engalfinhavam com pedaços de madeira e fogo, na tentativa de fazer churrasquinhos à moda russa.

Outra coisa muito curiosa foi ver que, praticamente em todas as casas da região, havia gente vendendo e defumando o delicioso omul. Você pode pegar ele bem defumado ou semi-defumado. A segunda opção, com o peixe mais fresco e suculento, me agrada mais. Para acompanhar, se você tiver estômago, encare um plov – aquele arroz com tudo estilo carreteiro que é feito em panelões em todas as esquinas.

A trilha durou quase o dia todo e nem precisa lembrar os velhos conselhos: leve comida leve, água, não caminhe por lugares estranhos e jamais faça a trilha sozinho, já que celulares não funcionam e trata-se de um lugar completamente ermo. Não falo nem de segurança com relação a roubos, mas, caso alguma coisa aconteça, obter ajuda por ser muito complexo. Se não for experiente, melhor nem tentar.

No mais, passar algum tempo em Listvyanka, no Baikal, é imperdível e indispensável. O poblema é, se você não tiver excursão, vai ter que voltar de van ou de ônibus. As primeiras circulam sempre até 20 horas. E, em caso de fila, não tenha a ilusão de que ela será respeitada. Quando o veículo se aproxima, as pessoas formam um bando e se atropelam. O ônibus é uma boa opção e roda a cada uma hora e meia. Mas é preciso comprar o bilhete com antecedência, no bureau turístico.

Após deixar Listvyanka de van, caí no centro de Irkutsk, de noite, com mochilão, no meio do mercado central. Ou seja, altíssimo risco. Me enfiei no primeiro ônibus e desci do outro lado do Angará, tendo, assim, que andar um enorme trecho até a sinistra estação de trem. Lá, aliás, descobri que havia me embananado com os fusos e…perdi o comboio!

Fui até o guichê da RZD e negociei a compra do próximo trem, que sairia em cinco horas – às 3 da manhã, hora local. Perdi apenas 300 rublos, coisa de 25 reais, nessa negociação. E tive que jantar na stolovaya da estação. Nada de outro mundo, mas também nenhum prato gourmet. Paguei cerca de 150 rublos para ficar na Zal Ozhidanya e usar o chuveiro – aliás, recomendo, sempre na necessidade, buscar a estação de trem. Suas instalações são sempre confiáveis.

Já limpo e bem alimentado, esperei dar a hora do meu trem. O próximo destino: Ulan-Ude, do outro lado do lago Baikal, capital da República da Buriatya, cidade com fortíssima influência da Mongólia, com lindos templos budistas e a maior cabeça de Lênin do mundo…

Dicas:

–> Programe-se e fique o máximo de tempo que puder.
–> Dê preferência a épocas com tempo mais agradável, a não ser que tenha interesse específico no frio.
–> Compre comida e bebida no mercado. Os peixes são frescos.
–> Dizem que é saudável beber a água do Baikal. Eu provei, mas sou meio desconfiado.
–> De noite esfria e muito. Procure voltar para casa antes de escurecer.
–> As vans rodam até cerca de 20 horas. Programe-se.
Evite os táxis por ali.
Procure assistir, ao menos, um pôr-do-sol ou nascer do sol.

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7 respostas para “Transiberiana no Lago Baikal: trilha, pôr-do-sol, peixinho e vodka”

  1. Luiz Cleber Freire disse:

    Estou adorando esse relato de viagem, não perdi nenhum e fico sempre na expectativa do próximo. Boa sorte.

  2. jair disse:

    demais outra vez!
    e ótimas fotos
    😉

  3. […] Ulan-Ude começou com uma grande expectativa. Afinal, o Baikal havia sido fantástico e nem perder o trem em Irkutsk – a coisa mais apocalíptica que pode ocorrer na Transiberiana – abalou minha fé. […]

  4. Amanda disse:

    Muito lindo! *—–*
    As fotos ficaram muito boas.

  5. Shawana disse:

    Olá!
    Seu blog foi um achado!Os relatos sobre as viagens são excelentes!Vou para a Rússia no ano que vem e meu destino será justamente Irkutsk, claro que não deixarei em hipótese alguma de passar por Moscou, São Petersburgo e por certo o grande Baikal! parabéns pelo blog, lindas fotos e estilo de vida invejável!rs

  6. Christian disse:

    eu conheço Irkutsk e o Baikal. fui no inverno, janeiro de 2014. inesquecível

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Leia o post anterior:
Irkutsk no caminho da Transiberiana: trampolim para o Baikal

Aproveitei boa parte das quase 20 horas dentro do 270СА, que roda entre Adler x Blagoveschensk, para dormir e escrever. ...

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