Transiberiana para em Ecaterimburgo: Romanov, Yeltzin e o fim da Europa

A hora agora é de Ekaterinburgo, uma das maiores cidades da Rússia, a capital da região dos Urais, conhecida na Era Soviética como Sverdlovsk. E-kat é essencialmente russa e muito agradável, já sem o buzz das grandes metrópoles. Com uma área vasta, largas avenidas, centro compacto e bairros residenciais espalhados, ela abriga com tranquilidade seu quase milhão e meio de habitantes.

A viagem entre Kazan e os Urais demorou cerca de 15 horas na terceira classe do rústico trem 394. O velho comboio, com cerca de 40 anos, roda entre Nizhnevortovsk e Volgograd e está, invariavelmente, lotado – trata-se de um dos mais baratos da região. A terceira classe, ou platskart, consiste em câmaras abertas com 4 camas, um corredor e outras duas camas em paralelo. Como as janelas dos trens não abrem, a tendência é de que o cheiro de cigarro dos espaços reservados nos finais dos vagões invada a cabine e se misture aos outros odores, invariavelmente não agradáveis, deixando o ambiente bem popular.

No 394, fiquei amigo das provódnitsas – simpáticas responsáveis pelo interior dos vagões –, dos companheiros de ‘quarto’: uma mamãe e sua filhinha Cristina e de um senhor gorducho que roubava minhas revistas, livros, jornais e não perdoou nem meu Kindle. Bom, viajar é compartilhar…

Como o trem ficaria parado cerca de meia hora na estação de Ekaterinburgo, fiquei em posição de largada pouco antes do horário previsto para a chegada: não queria arriscar seguir viagem (e não, as provódnitsas não te avisam de suas paradas nos trens mais populares…).  A missão agora era encontrar o amigo Pavel, dono do maior site sobre futebol brasileiro, que morava na cidade de Kamensk-Uralskii.

Não foi difícil identificar o sujeito. Com sua camisa do Flamengo, ele me esperava na plataforma (e você pode ler mais aqui sobre o histórico Fla x Flu nos Urais) e me ajudou a achar o hostel, o Allis Hall, um apartamento que foi transformado em albergue e que ficava no coração de Yekaterimburgo. Recomendo se você quer paz e sossego. Ele fica ao lado da Váinera, a “Arbat” daqui, onde a juventude se encontra, músicos e artistas performam na rua, há as melhores lojas e as coisas mais legais.

Além da Vainera, outro point obrigatório é o Skver histórico da cidade, ou ‘Plotnika’, a praça que fica sobre uma represa do rio Iser, que corta a cidade. Point do skate, do BMX e de músicos, o Skver tem ainda várias pequenas pontes que abrigam centenas de cadeados de noivos que, segundo a tradição, devem deixar aqui o objeto, para que sua união seja para sempre. Além da tradicional e sem graça pedra fundamental da cidade.

Mais adiante temos a torre Vysotskii, de onde se tem um panorama fantástico da cidade. Subir na torre é carinho e, sinceramente, não vale tanto a pena, sobretudo em dia de tempo nublado. Meu conselho é: descole um convite para o bar superchique na torre. Na mesma região, está o monumento Tulipa Negra, aos mortos da cidade nas guerras mais recentes da Rússia. Um lugar emocionante, sensível e triste. Imperdível. Um pouco mais longe, mas facilmente acessível após uma pequena caminhada está a Catedral no Sangue, onde os Romanov, última família imperial russa, foram assassinados em 1918, pelos Bolcheviques. Uma enorme e impressionante cruz de ferro marca o local, com as incríveis expressões da última família real russa.

Por falar em realeza, há também que se visitar o monumento a Boris Yeltzin, o primeiro presidente da Rússia pós-URSS. Na região próxima à rua Yeltzin, há vários pontos marcados com placas, onde o ex-líder morou, estudou ou fez algum ato importante. Mais adiante está o monumento ao próprio, que deve impressionar. Porém, abro um parêntese para um “causo”.

O plano era ver o tal monumento cedo de manhã. O dia era chuvoso, saí do hostel e fui até lá a pé. Queria passar pelo prédio onde Yeltzin viveu e pela rua onde estão os prédios do governo. A essa altura, não estava acompanhando muito o noticiário. Então, andando pela rua “do poder”, notei que ela estava bem vazia. “É a chuva”, pensei. Perguntei onde ficava um monumento a uma vovó que passava, e ela, tensa, disse que o mesmo estava em “remont” (ou seja, reconstrução).

Me aproximava do suposto local, mas não via nada. Apenas um bloco coberto por um enorme plástico preto, cercado por fitas de isolamento. Ou seja, era o monumento, mas ele estava mesmo em “remont”. Fiquei ali, gravei um filme, tirei fotos… E notei que, ao lado do objeto, quatro sujeitos saíam rapidamente de dentro de um Lada. Vi ainda que o time apontava para mim e acelerava. Como não sou bobo nem nada, engatei uma quinta e tentei uma fuga.  Sem êxito.

O grupo – que tinha uma policial feminina fardada – me flanqueou e começou o interrogatório. “Com qual objetivo você filma aqui?”, “Quem é você?”, “De onde você é?”. Eu estava calmo, mas imaginava, caramba se fosse um turista que não fala russo… Expliquei para os homens da lei que eu era um turista, do Brasil e estava ali para…ver o monumento a Yeltzin, o primeiro presidente, blábláblá.

Os caras meio que estranharam, viram passaporte, viram documentos (e eu sem meu registro, suando frio!), e, enfim, o pedido: “Queremos ver sua máquina fotográfica e as fotos que você tirou”. Gelei. Se eles tomassem meu flashcard, parte de minha viagem iria para o beleléu. O mais invocado viu as fotos e, habilidosamente, apagou todas as do monumento. Perguntou para onde eu ia e praticamente me enxotou dali. Eu ainda tive tempo para uma pergunta idiota: “Afinal, o que houve com o monumento?”, asperamente, o sujeito explicou que a família de Yeltzin havia solicitado uma alteração no mesmo… Senti o cheiro de lorota, mas evaporei do local.

Alguns metros adiante, tirei a GoPRO do bolso e, com um sorriso cínico, olhei para trás. Como eles não sabiam que aquela caixinha de fósforo era uma câmera, nem ligaram para as fotos e os vídeos que fiz com ela… Mais tarde, sem querer, vi na TV da stolôvaya “Monumento a Bóris Yéltzin é vandalizado em Yekaterimburgo, no início da manhã…”. Ou seja, eu quase que realmente “rodei”.

Bom, após o causo, mais alguns points. Por último, mas não menos importante, há o monumento Ásia-Europa. Ecaterimburgo é uma das cidades cortadas pelo meridiano, e o obelisco é uma ótima chance de você ter um pé em cada continente. Mas o governo local não raciocina muito bem e, para chegar lá, é preciso fazer um malabarismo com ônibus bizarro que eu não recomendo. A melhor forma ainda é de táxi – e você vai ter que negociar o preço (qualquer coisa acima de 2 mil rublos é pura extorsão). Seja como for, vai valer a pena, já que é uma chance única na vida. E aproveite para comprar uma moedinha lá também e tirar umas fotos das milhares de fitinhas amarradas nos trocos, outra tradição que, supostamente, garante a longevidade das uniões.

A cidade possui ainda dois pontos turísticos que eu considero ‘furadas’. O primeiro é Ganina Yama, que fica a 15km do centro – e também não é de fácil acesso se você não tiver tours. Trata-se do lugar onde os corpos dos Romanov foram escondidos. São sete capelas perto de uma área de mineração. Hoje atrai muitos peregrinos – sabe-se lá o motivo, mas os Romanov são meio que santos. Eu considero Ganina Yama uma enorme furada. Assim como o famoso monumento QWERTY, uma das maiores bobagens que já vi pelo mundo.  Trata-se de uma escultura, cravada em um gramado, no formato de um teclado. Você chega lá após uma longa e cansativa caminhada, olha, coça a cabeça e volta, desesperado pelo tempo perdido…

Outros lugares interessantes são a Ploshchad 1905 Goda (Praça do ano 1905), com sua gigante estátua de Lênin, ponto de encontro dos comunas da área, o parque Púchkin, o quarteirão literário e o parque entre as ruas Lenina, Gorkogo e Malysheva. E, claro, não deixe de dar uma volta no pequenino e simpático Metrô local, cujas lindas estações são decoradas com os variados tipos de pedras típicas dos Urais. Mas atenção, a segurança aqui é rigorosíssima. Se você estiver com mochila, jamais a deixe longe de você. E passe perto da polícia, para ser vistoriado na entrada. Por mais de uma vez eu fui abordado ainda na plataforma.

Yekaterimburgo é um lugar agradabilíssimo e surpreendeu, superando minhas expectativas. Gostei muito da atmosfera da cidade e da rua Vainer, bem como do obelisco. Agora, mais 30 horas de estradas de ferro até Tomsk, no coração da Sibéria, em mais um trem pré-histórico, o 350 Moscou – Blagoveschensk, que me levaria até Taigá, onde eu faria uma escala (estúpida) até Tomsk.

Dicas:

–> Em Ecaterimburgo, aproveite o tempo bom. Isso parece ser raro por aqui.

–> Se quiser diversão, escolha o Ásia-Europa Hostel. Se quiser paz e localização, o Allis Hall é uma boa pedida. Se quiser conforto, o Park Inn é a escolha.

–> Sextas e sábados são dias de casamentos por toda a Rússia. Aproveite para tirar fotos dos nubentes e conhecer algumas das tradições locais. Se for cara de pau, enfie-se no cortejo e viaje com os noivos. Pelo que vi, isso é bastante possível.

–> Tente arrumar algum tour para o monumento Ásia-Europa. A negociação com taxistas é longa, chata e você sempre acaba pagando caro. Organize-se melhor. E desconsidere o ônibus, a não ser que você tenha um orçamento que consiga ser menor que o meu.

–>  A torre Vysotskii não tem nada de especial. Procure vir à noite, quando os clubes estarão abertos. Mas lembre-se, clubes na Rússia operam com “dress code”, “face control” e “convite”. Se você estiver mal vestido ou não for lá muito bonito, só vai entrar for convidado de alguém. O Chili club, no alto da Vystotski, deve ter uma vista impressionante à noite. É uma extravagância financeira que deve valer a pena.

–> Ande, ande e ande. Ecaterimburgo tem alguns dos monumentos mais bonitos da Rússia. Sobretudo na Váinera – onde tem ainda os lisérgicos ursos da amizade de Berlim. Procure vê-los.

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13 respostas para “Transiberiana para em Ecaterimburgo: Romanov, Yeltzin e o fim da Europa”

  1. Caraca que m… no monumento do Yeltsin, pelo menos sobrou história para contar.
    Tb achei a cidade agradável, mas neste dia estava fora de órbita praticamente fui do Brasil até ela em dois dias, nem minhas fotografias eu curti.
    Achei o prédio da prefeitura muito bonito e a cidade bacana moderninha.

    Abração

    • Boas Gustavo,
      Putz, vc foi direto do Brasil pra lá? Que dureza… Eu curti a atmosfera da cidade também, bem descolada, bem cool. Só dei azar com as nights. Fiquei o final de semana e, por conta das tempestades à noite, nem aproveitei…
      Abraço!

  2. jair disse:

    acabei de procurar no google o tal monumento qwerty… hahah! no minimo bizarro chamarem aquilo de monumento.

    que historia hein no monumento do Yeltsin! quase consigo me imaginar sendo interrogado, só que com a diferença de não entender nada! certeza que eu iria prá delegacia.

    pq existe esse rigor na segurança em Yekaterinburg? (ou nas outras cidades também é assim só que você não levou em conta…)

    sensacional mais esse relato! agora fica a expectativa de ver como foram as 30h (?!?!)

    abraço

    • Boas Jair,
      É, esse Qwerty é de chorar… A segurança em Ecaterimburgo acho que está associada, talvez, ao grande parque industrial que a cidade tem e, sobretudo, à tensão que ser a ‘cova’ dos Romanov representa, tanto no quesito de afirmação da identidade russa quanto no quesito extremismo religioso. Os cartazes, as exposições e a propaganda que a Igreja faz por lá, exaltando o ‘russismo’ é meio chocante. Isso sem falar nos comunistas, que todo dia, toda hora, estão pressionando. Então, temos extremistas de direita, monarquistas, bolcheviques e uma grande população de caucasianos e asiáticos. Ou seja, um caldeirão.
      Fab

  3. Андерсон disse:

    Show de bola! Mas eu prefio Kazan rsrs

  4. Samvel disse:

    Ola , amigos! Incrivel! Sou de Ecaterimburgo. Hoje achei esse blog na internete e ups… as fotos da minha cidade ! A maioria delas sao feitas 200 metros da minha casa! Kkkkkkk

    Se alguem precisar de ajuda em russo pode me perguntar ))))

  5. Samvel disse:

    kkkk, me parece que falo… pelo menos essa jornalista piauense (https://www.facebook.com/photo.php?v=516624618356275) disse que falo bem )))))

    • ah, vc participou daquela matéria da capoeira no piauí? acho que eu vi. aliás, eu estou fazendo, há meses, uma matéria sobre grupos de capoeira pela rússia. o último com quem falei é um cara de vladivostok. topa participar?

  6. Samvel disse:

    estou pronto…. kkkkkkk vamos continuar a minha estrelidade (dei 3 entrevistas para televisao no Piaui e uma para jornal de la)

  7. Ronnie Oliveira disse:

    Incrível sua matéria sobre a cidade de Ekaterimburgo. Pra mim essa é d longe uma das mais belas cidades russas,dpois de Moscou e São Petersburgo.
    Gostaria de perguntar-lhe algo: como conseguiu aprender o idioma russo?
    Vc indicaria algum livro,dicionário ou apostila que ensine o idioma russo para quem é autodidata? Qual?
    Tenho uma “queda” por idiomas eslavos,principalmente os idiomas eslavos orientais como o russo, bielorrusso e ucraniano.
    Grande abraço e parabéns pela ótima matéria.

  8. RENAN disse:

    tem como passar o link do site do russo sobre o futebol brasileiro? cidade bacana mas prefiro são Petersburgo ou moscou rsrs

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