Ucrânia oficializa a língua russa e causa polêmica

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O parlamento ucraniano, até de forma inesperada, tomou uma decisão que reacendeu uma discussão que mexe com os brios nacionais – e com rancores históricos – no país: concedeu o direito que dá a regiões o poder de adotar o russo como língua oficial, caso seja falado por, ao menos, 10% de seus habitantes. Mas, afinal, o que será que pode significar essa medida?

Bom, de início, vamos relembrar. O que chamamos de ‘Ucrânia contemporânea’, a despeito dos patriotas inflamados e apaixonados, engloba áreas que, em diferentes épocas, pertenceram a diferentes ‘estados’. Basicamente, pode-se dividir o país em oriental e ocidental. Geograficamente óbvio, o alinhamento dos orientais é sempre maior com a Rússia – e com projetos mais ‘eslavistas’-, enquanto os ocidentais tendem a um nacionalismo-progressista radical, sempre favorecendo uma união maior com a Europa.

Numa análise primária, trata-se de uma grande metáfora de um estado que praticamente divide a Europa da Rússia. Aparentemente tudo, na Ucrânia, gira em torno do ‘complexo de colonização’. Como escreveu Roman Szporluk, professor de História Ucraniana das Universidades de Harvard e Michigan, ‘A diferenciação ucraniana da Rússia e da Polônia não garante, necessariamente, a união dos ucranianos que recusam as nacionalidades russa e polonesa’. Ou seja, trata-se de um país virtualmente rachado – embora ainda os apaixonados nacionalistas insistam em negar isso – onde impera o medo, tanto do leste, quanto do oeste. Isso se reflete nos nomes que a própria imprensa usa ao se referir a determinadas áreas do país: ‘falante de ucraniano’ x ‘falante de russo’, ‘margem esquerda’ x ‘margem direita’, ‘soviética’ x ‘polaca’, ‘nacionalista’ x ‘colonizada’, ‘rural’ x ‘industrial’ e até ‘velha’ x ‘nova’.

Voltando ao contemporâneo, a Ucrânia ainda vive um momento delicado. Desde sua independência da União Soviética, em 1991, o país fervilha e sofre com desilusões políticas. Após uma ditadura branca de 11 anos, o então presidente
Leonid Kuchma deixou o poder na famosa Revolução Laranja. Desde então, o país vive praticamente um rodízio de líderes, no qual se alternam Viktor Yuschenko, Yulia Timoschenko (pró-nacionalistas ucranianos) e Viktor Yanukovich (pró-russos), o atual presidente.

Em maio, o Партія регіонів (algo como ‘Partido das Regiões’, que tem um acordo de aliança com o Edinnaya Rossia, o Rússia Unida), que detém a maioria no Congresso, já havia tentado votar a medida. Mas a incursão acabou em pancadaria. Nesta quinta-feira, mesmo com alguns atritos, o ato foi aprovado, o que gerou uma onda de protestos.

Efetivamente, dar à língua russa um status maior é um sinal de Yanukovich, o presidente cuja língua nativa é o russo e que conta com o apoio maciço das regiões ‘russificadas’ da Ucrânia, pode estar se voltando para o Kremlin. E o motivo é simples: o país vem sendo marginalizado da Europa desde a prisão da ex-primeira-ministra Yulia Timoschenko, rival de Yanukovich, em 2011. Para a União Europeia, sua prisão tem motivações unicamente políticas.

Ainda nesta semana, a Corte Europeia de Direitos Humanos declarou que o ex-ministro do Interior da Ucrânia, Yuri Lutsenko, também foi vítima de perseguição política e teve direitos violados ao ser preso, ainda em 2010.

E, para dar uma ‘maquiada’ na nova lei, o Partido das Regiões não fala de exclusividade da língua russa. De acordo com o texto, também podem ganhar status oficial outras línguas, como polonês, romeno, tártaro, alemão, húngaro moldávio, grego, ídiche, eslovaco, búlgaro e o russo, claro.

Para o principal partido da oposição – que era liderado por Yulia Timoschenko -, o Батьківщина (Batkivischina, ou pátria-paterna, algo assim), trata-se de um ‘crime contra o estado’. ‘Yanukovich conseguiu fazer tudo o que os imperadores russos e os secretários-gerais soviéticos não conseguiram. É uma sentença de morte para a língua ucraniana’.

O grande dilema ucraniano, de se equilibrar entre dois mundos poderosos, a União Europeia e a Rússia, parece estar se entranhando cada vez mais dentro do próprio estado e caminhando para um momento de decisão, com altíssimo potencial explosivo. Apesar de a língua ucraniana continuar sendo a única oficial no país, a possibilidade de russificação regional promete dar um gás ainda maior às aspirações secessionistas – e de integração à Rússia. Até que ponto isso pode comprometer a unidade nacional ucraniana, só o tempo dirá.

5 COMENTÁRIOS

  1. Interessante. Confesso que desconhecia esse impasse na vida ucraniana. Pra mim, eles sempre foram pro lado da Rússia, eslavistas e pronto. Já li que o ucraniano e o russo são mutuamente inteligíveis, isso é verdade? Falantes dessas línguas compreendem-se sem maiores problemas?
    Conheci seu site hoje, grata surpresa; já tá favoritado.
    Obrigado!

    • Boas J.Paulo,
      Obrigado pelo elogio, o blog deve voltar a carga essa semana, com textos legais e o fim da aventura Transiberiana. Fique ligado!
      Sobre russo x ucraniano, eu tenho uma visão de outsider: é um país rachado, entre ucranianos tradicionalistas (que praticamente não suportam a submissão ao império russo) e alinhados com a Rússia. Não estranhe se, nos próximos anos, essa divisão levar o país a um racha em suas fronteiras.
      E sim, russos e ucranianos conseguem conversar, embora o ucraniano seja bem mais próximo ao polonês. Talvez como português e espanhol, um pouco mais acentuada a diferença.
      Grande abraço,

  2. “Yanukovich conseguiu fazer tudo o que os imperadores russos e os secretários-gerais soviéticos não conseguiram.”
    Pois não conseguiram porque uns não têm nada a ver com os outros. O que os Czares Russos não conseguiram, os secretários-gerais soviéticos não pretendiam, se não tinham-no feito sem qualquer problema. A união soviética albergou dentro das suas fronteiras inúmeros povos/etnias/culturas diferentes, ao contrario do que a propaganda capitalista da guerra fria sempre clamou, os diferentes povos da união soviética viviam(dentro do possível) harmoniosamente.

    • Não costumo comentar posts políticos aqui, pelo bias e pelas bobagens. Mas vou abrir uma exceção.

      – ‘secretários-gerais soviéticos não pretendiam’ – como não? era exatamente essa a razão de ser dessa aberração que foi a União Soviética.
      – ‘A união soviética albergou ‘ – não albergou. APRISIONOU. ao menor sinal de fragilidade, dezenas de povos e repúblicas procuraram se livrar desse cárcere. o ‘albergar’ pressupõe alguma liberdade. coisa que não havia na URSS.
      – ‘propaganda capitalista’ – a propaganda capitalista foi muito, mas muito, mas muito menor do que a propaganda soviética. não digo comunista ou socialista, pq a URSS de comunista ou socialista não teve nada. a liberdade é um pressuposto básico que o sovietismo não respeitou jamais. e que, aliás, é um pressuposto da propaganda.
      – ‘povos da união soviética viviam(dentro do possível) harmoniosamente’ – você só pode estar de brincadeira. como é possível haver ‘harmonia dentro do possível’? tipo, ‘paz dentro do possível’ ou ‘etnocídio dentro do possível’?
      – ‘tinham-no’ – ???

      amigo, desculpe. a história não é o que você conta ou o que vc quer ver. é o que é. você mesmo se contradiz a cada frase. por pior que seja, a ucrânia (e a rússia, e a lituânia, e a letônia, e a estônia, e a geórgia, e a armênia e todas as outras repúblicas, soviéticas ou não…) está melhor sozinha do que sob aquele monstro.

  3. A liberdade eh o bem maior que o ser humano pode ter. Concordo com o comentario. A URSS foi como um pinus eliotis . Nada cresceu sob sua sombra.

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