Veríssimo, Merval e um editorial: três textos que vão te ajudar a entender melhor a Rússia

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Gostaria de convidar os amigos para a leitura de 3 textos, publicados esses dias no jornal O Globo: um de Luis Fernando Veríssimo, outro de Merval Pereira e o terceiro, um editorial, com a opinião do jornal sobre o resultado das eleições e seus possíveis desdobramentos.

O primeiro me foi sugerido pela amiga Ana Cláudia. Com a ironia elegante que lhe é peculiar, o famoso escritor sintetiza Vladimir Putin e os caminhos históricos que teriam levado a Rússia a ter nele como seu líder. A Rússia, bom selvagem da Europa, ainda é um mistério mesmo para eles mesmos.

Até hoje o mundo não conseguiu decifrar bem aquela imensa terra de místicos e aristocratas, onde um primitivismo quase bárbaro convivia com uma cultura extraordinária e que nunca se decidia entre ser ocidental ou ser asiática.

Claro que, por tratar-se de uma reflexão – novamente, com uma dose cavalar de ironia -, Veríssimo lembra Reagan e sua definição canhestra de “Império do Mal”. Não se irritem, é uma crítica válida!

O enigma
Luis Fernando Veríssimo

O Putin, não sei se já prestaram atenção, tem um andar de malandro. É um jeito de balançar o braço quando caminha que, combinado com um meio sorriso de eterna autossatisfação, lembra um galã de arrabalde desfilando pras moças.

Ele pratica artes marciais e gosta de ser fotografado sem camisa e que saibam que é um caçador de ursos, que presumivelmente abraça até a submissão.

Dizem que deve seu poder aos podres que sabia de todo o mundo, do tempo em que chefiava o KGB, mas fez sua carreira com grande habilidade política, e acaba de voltar à presidência da Rússia no lugar do seu indicado Medvedev, que o substituiu e de quem foi primeiro-ministro. E que só ficou esquentando a cadeira para a sua volta.

Putin, portanto, é mais um mistério russo. Até hoje o mundo não conseguiu decifrar bem aquela imensa terra de místicos e aristocratas, onde um primitivismo quase bárbaro convivia com uma cultura extraordinária e que nunca se decidia entre ser ocidental ou ser asiática.

A própria experiência comunista só enfatizou o enigma. Grande parte da armação teórica da revolução partiu da “intelligentsia” russa, mas não havia lugar mais improvável para uma revolução proletária do que a Rússia, com sua tradição de servos hereditários e submissos e seu feudalismo medieval. O próprio Marx levou um susto.

Um dos problemas do Ocidente na sua relação com a União Soviética durante a Guerra Fria era nunca saber se estava tratando com o comunismo soviético ou com o anacronismo russo, passional e imprevisível.

Um diplomata americano, na época, resumiu a questão. Disse que o que precisava ser levado em conta no confronto com a União Soviética, antes de diferenças ideológicas e de modelos políticos, era que os russos eram naturalmente ruins.

O “Império do Mal”, nas palavras do Ronald Reagan, seria do mal mesmo sem o comunismo. De tais simplificações era feita a política externa americana. Quando o comunismo caiu a Rússia adotou o capitalismo selvagem sem nem um período de adaptação. Talvez seja mesmo um caso de caráter nacional.

Especula-se que Putin quer ficar no poder, talvez revezando-se com o parceiro Medvedev até os dois não poderem mais dançar. Mas quem entende a Rússia?

O segundo texto da nossa rodada é de Merval Pereira, membro da Academia Brasileira de Letras, colunista do jornal O Globo e comentarista político na rede CBN e do canal Globo News. Tem quem goste, tem quem não goste. Eu sou indiferente. Por vezes me agrada, por vezes paro de ler na primeira linha. Exatamente como todos os meus favoritos.

Mas essa reflexão sobre o PIB, IDH, ranking das economias e perspectivas para os emergentes BRICS (Brasil, Rússia, Índia e China e África do Sul) foi exatamente ao ponto, que muitos analistas ainda insistem em ignorar. Praticamente os divide em subgrupos, graças à desigualdade com que estes países tratam um elemento importantíssimo para o desenvolvimento: a educação.

Neste ponto, China e Rússia levam enorme vantagem sobre Brasil, Índia e África do Sul. Fatalmente, esse desnível levará, em algum momento histórico, ao desmantelamento do pequeno time. “Devido ao baixo índice educacional e à falta de infraestrutura, Brasil e Índia crescerão em velocidade menor que Rússia e China nos próximos 20 anos, segundo estudo da Goldman Sachs, criadora dos Brics”.

Por outro lado, Merval cita ainda os números do IDH, que ajudam a desmascarar a farsa do desenvolvimentismo alicerçado em PIBs com uma análise estrutural do investimento em educação. O Índice de Desenvolvimento Humano ainda é cruel com os BRICS. Leiam o texto. Vale MUITO a pena.

Os números enganam
Merval Pereira

A não ser os populistas de sempre, que fazem da política trampolim para seus interesses pessoais, ou então os militantes que aproveitam qualquer brecha para valorizar as supostas vantagens de seu governo, mesmo quando vantagens aparentes são apenas fantasias manipuláveis, não se viu o governo comemorar a informação de que o Brasil chegou ao sexto lugar no ranking das maiores economias do mundo medidas pelo Produto Interno Bruto (PIB), confirmando previsões, apesar do pequeno crescimento ocorrido em 2011.

Mesmo o PIB do Brasil tendo crescido apenas 2,7%, foi o suficiente para ultrapassar o do Reino Unido e ficar próximo do da França, que, pelo andar da crise econômica internacional, deve ser o próximo país a ser superado pelo Brasil.

O PIB da França cresceu 1,7%, e o do Reino Unido apenas 0,8%. Embora não seja uma conquista banal, esta subida do Brasil de posto se deve mais à queda dos concorrentes do que a nossos próprios méritos.

E ainda nos falta muito para que consigamos ter no país o mesmo nível de vida que continuam tendo os países de economias “maduras”, ainda com muita gordura para queimar.

É claro que essa gordura em boa parte foi armazenada por ações colonialistas passadas e que ainda estão em prática em algumas regiões, mas uma revisão histórica não retirará desses países também avanços tecnológicos e progressos sociais que nos custarão muitas reformas estruturais e muitos anos para tentar igualar.
Apesar da crise financeira, a Alemanha cresceu mais que nós (3%), e também perdemos terreno para alguns emergentes que, junto conosco, subverteram a ordem hierárquica das maiores economias do mundo, até bem pouco tempo dominada pelos chamados “desenvolvidos”.

Dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o Brasil cresceu menos do que três que já anunciaram oficialmente seus números.

A China continua puxando a economia mundial com um crescimento de 9,2%, a Índia manteve um crescimento na casa dos 6% (6,9%); a África do Sul cresceu 3,1%.

O Brasil, em compensação, cresceu mais que os Estados Unidos (0,7%) e grande parte da Europa: Espanha (0,7%); Itália (0,4%) e Portugal (- 1,5), mas mais uma vez ficou abaixo da média mundial, que foi de 3,8%.

Em termos de PIB per capita dentro dos Brics, a Rússia fechou 2011 com US$ 16,7 mil, seguida pelo Brasil, com US$ 11,6 mil; pela África do Sul, com US$ 11 mil; pela China, com US$ 8,4 mil; e pela Índia, com US$ 3,7 mil.

Devido ao baixo índice educacional e à falta de infraestrutura, Brasil e Índia crescerão em velocidade menor que Rússia e China nos próximos 20 anos, segundo estudo da Goldman Sachs, criadora dos Brics.

E mesmo que a lista das dez maiores economias do mundo sofra novas alterações nos próximos anos, apenas a Rússia tem condições de vir a ter uma renda per capita semelhante à dos países desenvolvidos.

Pelas projeções, os cidadãos dos Brics continuarão sendo mais pobres na média que os cidadãos dos países do G-6 tradicional.

No caso específico do Brasil, se conseguirmos manter uma média de crescimento do PIB de 3,5% ao ano chegaremos a 2050 com uma renda per capita de US$ 26.500, próximo à de Portugal hoje, muito longe do que já têm hoje França e Alemanha (cerca de US$ 44 mil), menos do que o Japão (cerca de US$ 45 mil) e os Estados Unidos hoje (cerca de US$48 mil).

Com o resultado do PIB do ano passado, essa meta não foi atingida se levarmos em conta os últimos três anos. Mas a média de crescimento dos oito anos do governo Lula (4%), embora tenha ficado abaixo da mundial, está acima desse patamar.

Há uma diferença fundamental entre a concepção econômica predominante, que leva em conta o PIB como medida de avanço de um país, e a que coloca como prioridade a qualidade de vida dos cidadãos.

A Noruega, por exemplo, não é nem de longe uma das maiores economias do mundo, mas é a número um no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), método criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq e pelo Prêmio Nobel Amartya Sen para avaliar outras dimensões que não apenas o PIB, utilizado pela ONU para medição da qualidade de vida de um povo.

Além do PIB per capita corrigido pela paridade do poder de compra de cada país, o IDH leva em conta a longevidade e a educação. Para aferir a longevidade, o indicador se vale da expectativa de vida ao nascer.

O item educação é avaliado pelo analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino.

Evidentemente o ideal seria unir os dois indicadores, e por enquanto são os países desenvolvidos que conseguem fazer isso.

A maior economia do mundo continua sendo a dos Estados Unidos, que é também o 4 colocado em IDH. A China, que já é o segundo PIB do mundo e, tudo indica, alcançará os Estados Unidos em alguns anos, mas quando se trata de qualidade de vida, está na rabeira da lista do IDH, em 101º lugar.

O Japão, que caiu para o terceiro lugar no ranking do PIB, está em 12º lugar no IDH. A Alemanha é a mais bem colocada entre os grandes da zona do Euro, em 9º lugar.

A França está em 20º lugar. O Brasil, que atingiu a sexta posição no PIB, está em 84º lugar no IDH, e perde para países da sua região, como Chile, Uruguai, Argentina, Cuba.

O Reino Unido, que ultrapassamos pelo PIB, está em 28º lugar na relação do IDH, enquanto a Itália está em 24º. Os dois últimos do ranking das dez maiores economias do mundo, Rússia e Índia, estão também na rabeira da lista do IDH: Rússia em 66º (melhor que o Brasil) e Índia em 124º (pior que a China).

Como se vê, os números podem mentir, dependendo do uso que se faça deles.

O último texto, o editorial que traz a opinião do Jornal O Globo, é sobre o desfecho das eleições russas. O assunto já queimou a lenha que tinha que queimar – embora a oposição siga tentando desestabilizar o regime nas ruas em vez de começar a se articular – trabalho este que será longo e árduo. Algumas sutilezas russófobas, porém, estragam o que poderia ter sido a opinião mais sóbra publicada na imprensa brasileira sobre o tema. “Mas o fez à maneira russa — muito autoritarismo, pouca democracia e nenhuma transparência” é uma frase tão abjeta quanto a referência que os estrangeiros fazem do Brasil, dizendo que tudo acaba em samba, que somos preguiçosos e lenientes.

Noves fora, a opinião do Globo acerta em duas coloções: não foi a fraude nas eleições que determinou seu resultado. Foi o domínio do Kremlin sobre toda a mídia que transformou Pútin em um líder inconteste. As pessoas efetivamente creem nisso, pois é só isso que veem na TV. E, se esse monopólio existe, cresceu sobre a desorganização da oposição, que, durante anos, viveu um processo de metástase, se dividindo, espalhando e infectando o processo democrático. Como durante os últimos 12 anos ninguém reclamou a coroa, Pútin a usa.

Para fechar, uma frase crucial para que todos possam entender o panorama político russo de hoje: “Ele é o único com autoridade para iniciar um processo de abertura”. O capital político que o presidente eleito acumulou em todos esses anos no poder permite que ele hoje seja, de fato, o único com autoridade suficiente para, enfim, liderar uma transição. Qualquer outro nome seria ou uma estúpida volta ao passado ou um devaneio sobre o futuro. Mas não se enganem: Pútin só vai seguir por esse caminho se a oposição conseguir, politicamente, encurralá-lo. Cartazes, twitteres, ocupações e delírios de revolucionários só vão desmoralizar ainda mais o regime.

Novo mandato impõe desafios a Putin
Máquina do Kremlin funciona, mas russo perdem medo de questionar

São estranhas as eleições na Rússia. Nas parlamentares de dezembro último, com vitória absoluta do partido Rússia Unida, do poderoso Putin, houve fraude generalizada — a favor do governo, claro. Multidões saíram às ruas para protestar. Houve repressão e prisões, é óbvio, porque o conceito de liberdade de expressão do Kremlin é peculiar.

No último domingo, Putin se apresentou ao eleitorado para o terceiro mandato como presidente — após o segundo ele se “contentou” em ser primeiro-ministro — e venceu amplamente, com 63,7% dos votos. Mas as acusações de fraude se ampliaram e milhares de russos, nas ruas de Moscou e São Petersburgo, denunciaram o resultado. Isto aconteceu apesar de as autoridades eleitorais terem instalado cerca de 180 mil web câmeras nas seções eleitorais para prevenir delitos. Os principais líderes do protesto já estão presos novamente.

Fraudes ocorreram de fato, mas talvez a melhor explicação para a dissonância entre o que dizem as urnas e o sentimento de revolta de parte dos cidadãos tenha sido dada pelos observadores europeus que monitoraram o pleito. Seu julgamento é que o resultado da eleição presidencial foi predeterminado pela cobertura tendenciosa (pró-Kremlin) da TV e pelo uso de dinheiro e recursos públicos em apoio à campanha de Putin. O que também não é novidade.

Esta, se houver, estará no fim da longa lua de mel entre o povo russo e Putin, que já leva 12 anos no poder e quer ficar outros tantos, batendo Leonid Brejnev (18 anos). Depois do caos que se seguiu ao fim da URSS, e do às vezes histriônico mandato de Bóris Yeltsin, Vladimir Putin emergiu das sombras para se tornar o líder frio, determinado e poderoso para recolocar a Rússia no seu lugar de direito. Ele o fez, surfando também na alta de preços de petróleo e minérios, o ponto alto da pauta de exportações. Mas o fez à maneira russa — muito autoritarismo, pouca democracia e nenhuma transparência.

Isso serviu por um bom tempo, mas hoje não é suficiente. A classe média, que melhorou de vida com o crescimento econômico, já não se conforma em ver o país dirigido ao bel-prazer de Putin e seu grupo, uma cleptocracia que tudo pode. O Parlamento é apenas um cartório de confirmação das deliberações dos poderosos. Os cidadãos querem ter vez e voz nos destinos do país. Precisam de instituições que os representem, em vez dos pronunciamentos do Kremlin prometendo fazer e acontecer depois de alguma grande tragédia ou acidente, que talvez pudesse ser prevenido ou atenuado se a burocracia estatal da era comunista funcionasse como deveria.

O comando ao mesmo tempo frio e enérgico de Putin, que remetia frequentemente à URSS superpotência e que por tanto tempo manteve os russos saciados, se defronta agora, apesar da vitória eleitoral, com uma sensação de ilegitimidade que deverá trazer-lhe problemas. Ele é o único com autoridade para iniciar um processo de abertura, que, ao fim dos seus mais seis anos de mandato, possa promover o casamento entre a Mãe Rússia e o regime democrático. É só Vladimir Vladimirovitch Putin querer.

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