Vídeo pró-governo mostra provável ‘Rússia sem Pútin’

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Enfim, o governo Pútin resolveu reagir aos protestos em massa dos últimos meses, que exigem eleições limpas e que Vladimir Pútin deixe o poder. Além da marcha ‘Za Putina’ (a favor do governo), que reuniu quase tantas pessoas quanto as ‘marchas dos descontentes’, um vídeo viral circula pela internet, mostrando o que seria da Rússia sem o atual premiê e virtual futuro presidente.

As imagens são perturbadoras. E usam a tática do terror psicológico, uma distopia fulminante que causa impacto. Com a ação, Pútin e seu partido se aproveitam da maior fraqueza da oposição: justamente sua fragilidade e ausência de uma liderança forte. Lembro que, nas manifestações populares, andam lado a lado liberais, comunistas, anarquistas e neonazistas. Uma bomba-relógio. Todos têm seu microlíder e não há nenhum forte nome político.

Segundo as pesquisas para a eleição presidencial, apenas um nome pode sequer ameaçar que a eleição não tenha um segundo turno: Gennady Zyuganov, líder do partido comunista, nascido em 1944. Ou seja, de uma geração tão ou mais afeita ao autoritarismo e à ausência de quaisquer possibilidades democráticas. Além de zyuganov, não há a menor possibilidade de qualquer outro político russo sequer ameaçar Vladimir Pútin.

Por mais bizarro que isso possa parecer, o cenário distópico, exagerado e aterrorizador do vídeo viral pró-Pútin – ou pelo menos alguns dos eventos nele contidos – são extremamente possíveis. Grupos extremistas no poder, desmembramento da Federação Russa, enfraquecimento econômico, guerras internas. Tudo isso é e foi mantido longe do país, ao longo dos últimos anos, via mão de ferro do atual premiê. Esse autoritário pulso forte é sua maior qualidade – seu maior capital político – e sua maior fraqueza, pela qual é duramente criticado interna e externamente.

Assitam ao vídeo. Vale muito a pena. Abaixo, eu fiz uma tradução rápida do que o narrador fala, para que todos possam acompanhar mais esse capítulo da guerra ideológica na Rússia. E, como disse no Facebook ontem, eu não queria estar na pele dos russos, que terão que escolher entre Pútin ou Zyuganov. E, se não for Pútin, quem será? Triste dilema.

(Ah, antes que os democratas me crucifiquem por postar esse vídeo, lembrem-se: eu não sou nem a favor nem contra Pútin. Essa é uma escolha única e exclusiva dos russos. O que eu tento fazer é mostrar um pouquinho do que acontece por lá, coisas que vão além das bobagens que a gente lê por aí.)

Em Moscou, a oposição grita “Rússia sem Pútin”. Imagine, Vladimir Putin não existe mais. O que será da Rússia sem Pútin?

Março de 2012: eleições presidenciais canceladas. Duma dissolvida. Na avenida Sakhárov, realiza-se a maior manifestação de insatisfeitos. Em um mês, se formam no país 200 partidos. Os liberais dividem entre si o poder. É formado um governo de transição. A ONU saúda a chegada da verdadeira democracia à Rússia.

Maio de 2012: Todos os grandes negócios são limitados. Boris Nemtsov vira diretor da GazProm, esposa de Alexei Naválni – a VTB (banco nacional do comércio russo), Evgenia Chirikova, o ministério dos Transportes e a RosNeft. Em um gesto de boa vontade, todo o arsenal nuclear da Rússia é transferido para o controle dos EUA. Após o conflito no poder, os nacionalistas saem de controle e começam a propagar o caos.

Setembro de 2012: Mais uma onda da crise econômica. Centenas de bancos quebram. O governo de transição decide fechar a AvtoVaz. Em Toliati acontece o primeiro protesto exigindo independência da Rússia. Greves em massa das usinas e fábricas. Os negócios na bolsa são suspensos após o índice RTR cair ao seu nível mais baixo. Dólar dos EUA custa 100 rublos. O banco central começa a produzir dinheiro indiscriminadamente para pagar as dívidas das aposentadorias. Hiperinflação. O preço de uma bisnaga de pão sobe para 100, 200, 300, 500 até 1.000 rublos. Em Moscou, um em cada dois estão desempregados.

Novembro de 2012: conflitos entre nacionalistas fascistas e grupos étnicos acontecem em todas as grandes cidades russas. Milhares de mortos entre os inocentes. Para a Duma de São Petersburgo vencem os fascistas. A marcha dos aposentados famintos de toda a Rússia em Moscou é dissipada com armas de fogo.

Março de 2013: depois de um inverno de fome, decretam a saída da Federação Russa o Primore (no extremo oriente), Kaliningrad, Tatarstão, Bashkíria e a Yakútia. As repúblicas do Cáucaso Norte se unem em um Emirado. Centenas de exilados que não desejam viver sob um estado islãmico fogem para a Rússia. Os conflitos étnicos crescem e se tornam uma guerra civil. Nacionalistas põem em ação tentativas para tentar acabar com a ameaça do Cáucaso, que são frustradas. Em mais uma visita aos EUA, Alexei Naválny pede asilo político. O governo de transição declara sua própria dissolução.

Junho de 2013: Com o objetivo de se proteger a população civil, Kaliningrado é ocupado pelas forças da OTAN. Sob o pretexto do restabelecimento da ordem e de ajuda humanitária, a China ocupa e põe sob sua administração Yrkutsk, Chita, Blagovechenskii e Khabarovsk. Vladivostok é ocupado por uma força de paz japonesa.

Agosto de 2013: A Geórgia ocupa a Osétia do Norte e a região de Krasnodar. Stavropol, após severos conflitos pelas ruas da cidade, é ocupada pelos guerrilheiros do Emirado Caucasiano. O mundo fala em uma catástrofe global na Rússia.

Dezembro de 2013: Naválny recebe o Prêmio Nobel da Paz e o de Literatura, pelo livro “Memórias de um ano no poder”.

Fevereiro de 2013: A Geórgia realiza os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Os desportistas da Rússia não são aceitos no país. Durante a transmissão da abertura dos jogos, na Praça Bolotnaya, em Moscou, acontecem pogroms em massa e desordem completa. A cidade vive em estado de anarquia. Há lutas por remédios. Comunicações por satélite são desligadas. Não há televisão nem internet. Nas casas, luz e água quente são desligadas por 2 horas todos os dias. Os moradores da cidade são recomendados a não sair de seus apartamentos.

Rússia sem Pútin. You’re welcome.

5 COMENTÁRIOS

  1. não sou nenhum cientista político, e muito menos tenho conhecimento profundo da situação socipolítica da rússia, mas esse caos desenhado chega a ser engraçado. acredito que transição mais difícil tenha sido em 1991.

  2. Não me soou exagerado. Basta lembrar do que aconteceu com a Iugoslávia após a morte do Marechal Tito. É perfeitamente plausível. Talvez o velho clichê a respeito da necessidade da Rússia de ter um líder forte que estabeleça/mantenha a unidade e a ordem tenha um sólido fundo de verdade, afinal de contas…

  3. na verdade, a própria urss é um exemplo desse esfacelamento. não critico nem a possibilidade, mas a arquitetura da previsão. se você investigar a história, não existe relação causal perfeita entre eventos. por isso digo que engraçada essa previsão, sensacionalismo bruto. mas vá saber, né… a rússia é um caldeirão de conflitos não resolvidos.

    • Boas pessoal,
      Achei muito sensatas e pertinentes as observações de vcs. Sobretudo se levar em consideração que ambos, Lude e Caio, admitem que, em se tratando de Rússia, o cenário mais absurdo poder ser perfeitamente normal…
      Abraços e obrigado pelas visitas e pelos comentários! 😀

  4. Caro Fabrício,
    Em se tratando de Rússia e sua eterna imprevisibilidade, tudo aquilo que é dito de bom é verdade, assim como tudo aquilo dito de ruim. É lógico que o vídeo é um tanto exagerado, mas em essência, estas coisas podem ocorrer. A possibilidade de uma balcanização da Rússia é real e não é retórica vazia. Basta ver o que querem e o que fazem os militantes islâmicos do Cáucaso Norte. Quem assistiu ao documentário da BBC lançado recentemente “Putin, Russia and the West” chega logo à conclusão de que Putin é uma pedra no caminho do Ocidente – leia-se EUA – que fariam, e fazem, tudo o que podem para removê-lo do poder. Essas manifestações nas ruas de Moscou são claramente orquestradas de fora da Rússia e há notícias de que o vídeo que teria originado a indignação de parte da população contra as eleições parlamentares de 2011 fora feito na Califórnia. Absurdo? Não diria isto. Lembro que há alguns dias, Johnatan Powell, ex-braço direito de Tony Blair, admitiu que o episódio da “falsa pedra”, que causou uma crise diplomática entre os dois países, usada pelo MI6 para espionagem na Rússia em 2006 era verdade. E não uma invenção do Kremlin para perseguir opositores e ONGs apoiadas pelo Ocidente. E aí? Dá para duvidar de alguma coisa quando o assunto é Rússia?
    Parabéns pelo blog

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