Vodka: tradição ou doença da Rússia?

Que a bebida – e o álcool em geral – é um problema mundial, é óbvio. E que isso é especialmente problemático no país da vodka, também é de conhecimento público. O que choca, dia após dia, é a divulgação de novos números sobre o consumo etílico da população em geral no maior país do mundo.

Pela enésima vez, a conceituada revista médica “The Lancet” falou sobre o tema na última semana. E, como das outras vezes, dei uma espiada e fiquei realmente espantado. A cada duas mortes inesperadas na Rússia – leia-se de pessoas em idade até 65 anos -, uma está diretamente ligada ao consumo abusivo de álcool. A pesquisa do “Lancet” foi conduzida em três grandes cidades siberianas, Tomsk, Barnaul e Biisk e constatou o consumo médio uma garrafa de vodka por semana – ou seu equivalente em outras bebidas.

Durante quatro anos, foram pesquiasdas mais de 60 mil mortes de 1990 até 2001. Ficou provado que, num grupo de 48 mil pessoas, todas as mortes foram “inesperadas”. E, adiante, que todos bebiam regularmente álcool acima da média. O resultado foi impressionante: o risco de mortes acidentais ou criminais é seis vezes maior entre quem bebe, em relação a ébrios. Doenças no coração têm 21 vezes mais chances de acontecer no nosso “grupo de risco”. Câncer de vias superiores, 4 vezes maior. Doenças de fígado, estômago e pneumonia, cerca de 5 vezes maior.

Dado o consumo de álcool – e o de tabaco também – os autores da pesquisa concluiram que um russo de 15 anos tem 10% de chances de não chegar aos 35. E um de 35 anos tem 27% de chances de não chegar aos 55 (que é estimativa de vida do homem russo, aliás). Para um efeito de comparação, na Europa ocidental os porcentuais são de 2% e 6%, respectivamente.

E os mesmos cientistas ainda quebram a cabeça para estimar o efeito devastador da pior forma de álcool existente na Rússia: os “samagon” (bebidas destiladas feitas em casa a partir de qualquer coisa + variantes de metanol). Estima-se que, dentre os grupos que bebem esse tipo de “tradição”, as taxas de mortalidade sejam ainda mais assustadoras.

E praticamente todo russo letrado sabe que o consumo de álcool do país é o maior do mundo. São mais de 18 litros por ano (ou 90 garrafas de meio litro de vodka ou 720 garrafas de cerveja ou 214 garrafas de vinho). E, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é considerado tolerável o emprego de até 8 litros/ano. A partir daí, cada litro extra reduz em 11 meses a vida nos homens e 4 meses das mulheres.

Mas não se espante se o governo de lá apertar o cerco contra o consumo exacerbado de vodka. Nos tempos da URSS, o exagero – e mesmo o emprego em geral – era frequentemente alvo do partido comunista. Muito embora a tolerância do dia-a-dia, quando a vodka era vista como parte da tradição russa, tenha feito com que o hábito não diminuísse. Mas hoje a situação é diferente. A indústria do álcool movimenta uma quantia incalculável na economia. Censurar isso seria, a curto prazo, dar um tiro no pé. Mas, em longo prazo, só traria benefícios.

      

Uma dessas campanhas foi veiculada no primeiro semestre desse ano – começou no inverno, época dos maiores exageros. Apesar de muito criticada, marcou o esboço de uma luta dificílima, que tem o objetivo de mudar toda uma cultura e extrair do cotidiano de uma sociedade secular um aspecto fundamental de sua vida: a vodka. Tarefa hercúlea, diga-se de passagem, que nem sempre o governo está disposto a encarar.

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2 respostas para “Vodka: tradição ou doença da Rússia?”

  1. Saúde Encima disse:

    Olá, gostei do artigo. É bem fundamentado e com excelentes dicas. Espero ter outros com essa qualidade.

  2. Saúde Encima disse:

    Olá, gostei do artigo. É bem fundamentado e com excelentes dicas. Espero ter outros com essa qualidade.

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